Mágoas na Carne e na Alma

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

 

Formado por modestas instalações o pequeno e simplório salão de barbeiro localizado no ponto final da linha de bondes elétricos em um bairro pobre da cidade grande estava resumido a duas cadeiras profissionais da marca “Irmãos Campanile”, aparadores onde se sobrepunham os utensílios de trabalho, espelhos fixados à frente e alguns assentos de esperar como itens principais. A parede maior, em outros tempos recebera uma demão de cal, agora riscada pelo roçar dos encostos dos bancos de espera mostrava alguns quadros de madeira que emolduravam fotografias em preto e branco. (mais…)

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Aviofobia: Difícil Superação

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

Numa noite maravilhosa exibindo um céu azul de brigadeiro, aquele avião parado na pista acenava para uma tranquila viagem, de algumas horas, a uma cidade distante. Passageiros procuravam seus lugares antecipadamente marcados, dando prioridade as senhoras e aos idosos, num verdadeiro palco exibindo pessoas finas e educadas. Da primeira classe já se podia ouvir o som emitido pelo estouro na abertura de garrafas de champanhes saudando os mais beneficiados pela sorte.

O professor, mesmo na véspera da viagem, muito antes de embarcar já antevia todas as cenas que temia e a ansiedade a cada momento fazia aumentar seu descontrole. Agora, ainda na fila de embarque já transpirava frio, tremia involuntariamente apesar do calor intenso e de todos os poros de seu corpo jorravam gotas de suor. Porta do aparelho aberta, tendo à frente uma bonita e sorridente comissária abrolhava boas-vindas aos passageiros, o que não impedia as pernas de nosso amigo tremerem explicitamente, cada vez mais.

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Rosas e Feijões

 

 

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

Os tempos se foram, as amizades se foram, somente o apelido não se foi: Feitiço!

Por culpa de uma namoradinha, dos tempos de adolescente, pois em certa ocasião declarou, vaidosamente, alto e bom som entre os amigos que ele a havia enfeitiçado com seu olhar luminoso e ela não conseguia, apesar de todos os esforços, livrar-se dessa força mágica emanada dos seus lindos olhos negros, causadora do forte encanto. Foi o suficiente, o bastante para eternizar entre os jovens amigos de ambos, a denominação do fenômeno imputado ao moço encantador: Feitiço!

Quando um imprudente colega batia à porta de sua casa, procurando pelo Feitiço, sua mãe furiosa afugentava sem nenhuma cortesia o visitante, com mau humor evidente, dizendo que ali naquela casa não existia ninguém com esse nome, recusando a repetir o termo usado pelo imaturo amigo de seu filho querido. (mais…)

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Um Corpo Caído

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(Presidente Prudente – SP)

pistola 380– Um médico, por favor, rápido!

Aos gritos, populares pediam para socorrer um homem tombado no meio da rua, já imóvel e golfadas de sangue manchando a camisa.

Vítima de mal súbito, nada mais se podia fazer…

Na mesma forma que Chico Buarque em sua “Construção” narrou “morreu na contramão atrapalhando o tráfego”, aquele corpo estendido no chão jazia na avenida de tráfego intenso e curiosos se aglomeravam em torno dele, alguns vendo naquilo uma tragédia, outros definiam a ocorrência somente como grande empecilho, causando aborrecimento para o seu dia. (mais…)

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Pato Mal-Humorado

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(Presidente Prudente – SP)

biguaEle subia voando sobre as águas do rio e descia boiando, sempre atento e a cada pouco mergulhava para surgir logo adiante balançando a cabeça e chacoalhando as penas, flutuando e mergulhando rio abaixo, novamente. Numa de suas passagens pelo local à beira do barranco onde o homem se encontrava, ouviu o comentário do pescador:

-Tá ruim de peixe, hoje, hein pato!

Na volta de mais uma de suas subidas e descidas, ele chegou bem perto do homem, quase junto da sua vara de bambu fincada na beira do barranco e respondeu:

-Eu não sou pato, seu imbecil. Eu sou um biguá, também conhecido como mergulhão e meu nome científico é phalacrocorax brasilianus.

Após o susto, incrédulo em ouvir um pato falar o homem ainda teve tempo de responder, antes que a ave sumisse sob as águas: (mais…)

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Fraqueza

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(Presidente Prudente – SP)

chuva-parabrisasLembra-se? Anoitecia, era um sábado, de uma semana qualquer.

Afinal, não faz muito tempo. Naquele hipermercado lotado, carrinhos conduzidos por pessoas e que batiam uns nos outros, gente se acotovelando, empurrando, naquele mesmo lugar, outra vez, eu te avistei.

Estavas, como sempre, linda, imponente e majestosa, fruto, pensava eu, da sua linhagem soviética. Mais do alto olhava-me disfarçadamente e com discrição, própria da sua altivez alicerçada na origem de uma autêntica czarina.

Esforçava-me para te ignorar, porém não conseguia. Lembrava-me de outras vezes, tempos em que juntos passávamos momentos agradáveis, quando chegava eu ao delírio após crises de grandes alegrias ou abatido por pequenas tristezas, já que o raciocínio corria solto sem poder me conter, sem poder ordenar as ideias, modificando meu comportamento sem sequer você se importar ou tentar me refrear.  Aliás, impedir-me é coisa que você nunca fez, sempre zombou dos meus excessos e de meus devaneios. (mais…)

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Carta a Um Amigo

cartaFlavio Dias Semim

São Paulo – SP

   Prezado amigo de longa data.

   Há muito não nos encontramos, por força da distância que nos separa. Tenho um caso para te contar, é a história de uma pessoa querida e preciso que me ouça. Falarei dele com o respeito que merece e o louvor que sempre lhe dediquei. Confesso que me permiti liberdades neste relato.

   Aconteceu às três horas da madrugada, de um dia qualquer, em um quarto de hospital. Lá fora a noite fria, quieta, somente o barulho do movimento das macas que transportavam gente se fazia ouvir. Por dedução,  quem corria carregava os que precisavam de atendimento urgente, porém, as que emitiam sons em compasso lento, cadenciado não tinham pressa, pois seu ocupante, totalmente coberto, já não mais precisaria dos cuidados médicos. (mais…)

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Amantes

maõs dadasFlavio Dias Semim

   Até que foi lindo! Juventude, amor e admiração os levaram ao casamento. Tudo era belo, romântico em suas ocasiões, afortunado enquanto durou a felicidade, contudo foi declinando com o passar do tempo, não o amor, mas o tratamento, a convivência, o dia a dia, o lado a lado. Caíram no vazio as possibilidades no atendimento as juras que se pudesse lhe daria tudo, o mundo todo.

   Após alguns anos de convívio chega rotineiramente a casa um pouco cansado após o trabalho e já ouve algumas reclamações vindas lá da cozinha ou da área de serviço, produzidas pela esposa também enfadada, cabelos e vestes desalinhados e três filhos para cuidar, dois púberes. Suas roupas já não demostram o corpo esbelto, mas uma carcaça sofrida pelo tempo e tarefas caseiras. Brigas domésticas ainda são percebidas pela coexistência diária de mãe com filhos adolescentes, rebeldes e indolentes por natureza. Gritos de “parem com isso” eclodem no ambiente a cada instante. O cachorro late seguidamente até acuar com um berro de ordem.

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Ilusões Perdidas

Flavio Dias Semim

Fryda orgulhosamente exibia ao diretor da FUNAI o seu diploma da escola normal que lhe licenciava como professora primária. Sua disposição em alfabetizar índios viera há algum tempo quando, encantada pelo romance O Guarani, de José de Alencar, ficara perdidamente apaixonada pelo selvagem Peri e decidira partir ao encontro de um índio com as mesmas características, porém real.

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Arte na Praça

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(Presidente Prudente – SP)

download (3)A costumeira caminhada matutina pelas ruas da cidade tinha como itinerário a travessia da praça central. Contornando o chafariz, a marcha trazia como fator principal a habitualidade, sob um sol brilhante ou frio suportável. Sempre observando detalhes, o homem foi surpreendido, naquele dia, por um ruído surdo e confuso, um quase murmúrio e procurou saber a origem, sem sucesso. Não deu importância ao episódio até o dia seguinte quando o fato se repetiu no mesmo local. Atento, incrédulo, ouviu uma voz sumida:

─ Amigo, amigo, até que enfim alguém me atendeu! Olhe para cima, não aguento mais essa situação. Ajude-me, por favor.

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