A Dançarina

eric-pare-luz-690x260César Bueno Franco

(Campo Mourão – PR)

 O corpo pesa, dói. Dele emana um desconforto sem raiz mas com alcance irrestrito. E é por isso que sei que estou acordado e que a vida ainda está colada em mim como algo pegajoso e sujo.

Mas hoje existe algo de diferente no ar: não estou sozinho no quarto.

Ela dança em torno da minha cama a dança mais suave que já vi. Os pés parecem não tocar o chão, e não ouço nada, nem música, nem o farfalhar de seu vestido e véus. Onde estarão os sons que a movem? Não vejo seu rosto, não sei quem é. Seus rodopios são borrões distorcidos que não consigo dizer se são rápidos demais ou lentos demais. Nos braços desnudos, nas pernas expostas, vejo sua plere branca, acetinada, um contraste desconcertante com os tecidos profundamente negros que envolvem todo o resto. Penso, insanamente, ser uma estátua de mármore que se mexe ao meu entorno. (mais…)

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