Enquanto Elas Dormem

          (Cornélio Procópio – PR) Ela dorme. Mas e quão profundo será esse sono? Vou chegando próximo à cama com passos macios, invejando os caminhar dos gatos. Pego a cadeira com cuidado, muito cuidado, a ergo do chão, trago para lado da cama, volto a baixá-la com o temor de quem coloca a última peça no topo do castelo de cartas. Sento-me em etapas, parando a cada microrrangido do chão, da cadeira, a cada farfalhar do tecido das minhas roupas; torço para que a lentidão dos movimentos vença a batalha contra qualquer barulho, o menor que seja. Estico a mão até o abajur, mas antes preciso desviar do copo de água; viro a lâmpada na direção da parede para abafar a luz, e é com crescente medo que vou pressionando o interruptor, temeroso de um ‘tec’ por demais escandaloso. ‘Tec’, estala o interruptor. Prendo a respiração num minúsculo e tenso suspense: […]

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A Dançarina

César Bueno Franco (Campo Mourão – PR)  O corpo pesa, dói. Dele emana um desconforto sem raiz mas com alcance irrestrito. E é por isso que sei que estou acordado e que a vida ainda está colada em mim como algo pegajoso e sujo. Mas hoje existe algo de diferente no ar: não estou sozinho no quarto. Ela dança em torno da minha cama a dança mais suave que já vi. Os pés parecem não tocar o chão, e não ouço nada, nem música, nem o farfalhar de seu vestido e véus. Onde estarão os sons que a movem? Não vejo seu rosto, não sei quem é. Seus rodopios são borrões distorcidos que não consigo dizer se são rápidos demais ou lentos demais. Nos braços desnudos, nas pernas expostas, vejo sua plere branca, acetinada, um contraste desconcertante com os tecidos profundamente negros que envolvem todo o resto. Penso, insanamente, ser uma estátua de mármore que […]

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