Cidade: Palavra Confusa

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(Petrolina – PE)

‘’A rua nasce, como o homem, /do soluço, do espasmo./ Há suor humano/ na argamassa do seu calçamento.’’ (João do Rio, A Alma Encantadora das Ruas)

cidadeEnquanto observo as portas e janelas ogivais do Teatro 4 de setembro, sua voz estala em interrogação:

– Escreves sobre o quê?

Esta construção mantém a fachada original, edificada em estilo neoclássico, 1984, o ano.

– Sobre o fracasso – arrisco.

A boca dela se abre, apenas de canto. Abertura irônica, os lábios, em dúvida, cobrindo parte dos dentes. Descrê, noto, na palavra fracasso em boca de um suposto vencedor. Seus olhos, mudez absoluta, parecem faiscar palavras em modo de deboche; ouço, meus ouvidos cheios de eco, uma recriminação, como quem, dissimulado, alcança todas as glórias, aceita-as e, apesar, entre um e outro gole de cerveja, enuncia a palavra derrota apenas para impressionar aluna qualquer, sedento por admiradores, discípulos e psitacismo. (mais…)

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O Rumor de Um Ausente

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(Petrolina – PE)

ausenteCá, a mesma parede ferida por um prego. Um espelho retangular, o Charlie Chaplin ao centro, sustinha-se no prego deslembrado por vórtices e rodamoinhos. Argamassa, matéria bruta, cobre o rasgo. A parede, aplanada, alumbrando tonalidade distinta, outra – o buraco, apesar, diante dos meus olhos, próximo ao primeiro quarto, espaço da sala de entrada. Não o alcançávamos, eu e meus irmãos. Meu vô saía do quarto – a camisa por dentro da calça de brim azulada; obliquamente, uma pasta de pano rijo -, caminhava em direção à sala frontispícia, a mão, no bolso, retirava um pente oval, mirando-se no espelho: fiapos de cabelos lançados para trás. Imagens eidéticas me povoam. (mais…)

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Cor de Afogamento

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(Petrolina – PE)

cor-afogamentoRegressado, mais uma vez. Idas e vindas – sem chegada. Partir, retornar: modos díspares de fugir. Desertar – mas de quê? A recordação das batalhas perdidas, o fracasso de quem, ao vencer, declina. Duas paredes rivalizam: numa, livros e quadros; noutra, troféus e medalhas. Todos os dias, o mesmo confronto. A luz reverbera no ouro dos utensílios majestáticos e irradia nas brochuras opacas. Uma objeção lógica retine em meus ouvidos: toda essa extensa leitura, estas páginas desbravadas e, ainda assim, estes troféus? Mais: não se contentara com a vitória, fora no coquetel de premiação, discursara, envaidecera-se com os aplausos, trouxera a glória nos braços, dera-lhe estante luminosa, exposta na parte mais visível da casa? (mais…)

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Corpo Habitado

Breno S. Amorim

(Petrolina – PE)
“Que exilado – de si pode fugir?” (Byron. “A Inês”)

Lavoura arcaica IEste mato seco, paisagem desértica, um casebre ao longe. Uma mulher atravessa a porta, parece chamar alguém, grita em direção à plantação de milho. O ônibus passa, meus olhos se perdem por entre o invariável cenário. A seca ainda castiga, penso como alguém que estivesse fora da terra. Não sou eu daqui? Há quantos anos deixei tudo? Uma mala pequena, quase nenhuma roupa e um livro. Sim, um livro, que até hoje carrego comigo, amarfanhado. O vento bate em meu rosto, abandono-me às reminiscências pungitivas, às horas de dor e sangue, de pranto e embaraço. Retorno.

Meu pai coloca a enxada no ombro, o chamado de minha mãe, sempre pontual – hora do almoço. Interrompemos o movimento dos corpos sob o sol. Papai, de ordinário, bruto, não arrisca desatender ao sinal de sua mulher, para quem não existe família sem a composição rigorosa da mesa. Molhamos as mãos e nos direcionamos aos nossos lugares, sempre os mesmos, na mesa. Mamãe manda eu iniciar aquele rito enfadonho, insosso. Rezo. (mais…)

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Estilhaços

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 estilhaços

Breno S. Amorim

(Petrolina – PE)

A narrativa escorre de mão claudicante. A dúvida ante a necessidade de exarar determinado fragmento me consome. À noite, sou perseguido por esta insônia de já não sei quantos dias. Por que deitar no papel estes estilhaços que me povoam? A imagem dos meus chamejando na memória – que não me permite sequer um mínimo olvido, nunca.

Ao olhar-me, a superfície do ser, não há quem possa apontar uma ferida. E, no entanto, quantas não vão acesas? São muitas, em tão curto tempo. Apenas 28 anos, digo e já não sei se isso é uma afirmação. O espelho parece me indagar. O que vejo refletido? Não absorvo estes traços faciais, para mim, sempre os mesmos, conclusos, estáticos. (mais…)

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