Olhos Cerrados

assin-breno

 

 

 

 

(Petrolina – PE)

241576ab3144d2faadc3434b52555a90_phixrA morte ronda ao meu derredor, cerca-me, mostra-me os classificados dos jornais. Uma imagem. São muitas, nestes dias repetidos, incansáveis, mornos. Como quando fecho os olhos e lembro das manhãs em que minha mãe, as palavras interrompidas em sua boca, desistia de me acordar, julgando-me talvez um anjo, necessitado de sono. Os trilhos se perdem dos trens, seus olhos me alcançam, distantes, contrariados, mudos de dor, cansados de lágrimas. Muitas imagens. (mais…)

Leia Mais

Cidade: Palavra Confusa

assin-breno

 

 

 

 

 

(Petrolina – PE)

‘’A rua nasce, como o homem, /do soluço, do espasmo./ Há suor humano/ na argamassa do seu calçamento.’’ (João do Rio, A Alma Encantadora das Ruas)

cidadeEnquanto observo as portas e janelas ogivais do Teatro 4 de setembro, sua voz estala em interrogação:

– Escreves sobre o quê?

Esta construção mantém a fachada original, edificada em estilo neoclássico, 1984, o ano.

– Sobre o fracasso – arrisco.

A boca dela se abre, apenas de canto. Abertura irônica, os lábios, em dúvida, cobrindo parte dos dentes. Descrê, noto, na palavra fracasso em boca de um suposto vencedor. Seus olhos, mudez absoluta, parecem faiscar palavras em modo de deboche; ouço, meus ouvidos cheios de eco, uma recriminação, como quem, dissimulado, alcança todas as glórias, aceita-as e, apesar, entre um e outro gole de cerveja, enuncia a palavra derrota apenas para impressionar aluna qualquer, sedento por admiradores, discípulos e psitacismo. (mais…)

Leia Mais

O Rumor de Um Ausente

assin-breno

 

 

 

 

(Petrolina – PE)

ausenteCá, a mesma parede ferida por um prego. Um espelho retangular, o Charlie Chaplin ao centro, sustinha-se no prego deslembrado por vórtices e rodamoinhos. Argamassa, matéria bruta, cobre o rasgo. A parede, aplanada, alumbrando tonalidade distinta, outra – o buraco, apesar, diante dos meus olhos, próximo ao primeiro quarto, espaço da sala de entrada. Não o alcançávamos, eu e meus irmãos. Meu vô saía do quarto – a camisa por dentro da calça de brim azulada; obliquamente, uma pasta de pano rijo -, caminhava em direção à sala frontispícia, a mão, no bolso, retirava um pente oval, mirando-se no espelho: fiapos de cabelos lançados para trás. Imagens eidéticas me povoam. (mais…)

Leia Mais

Morrer é Confuso

assin-breno

 

 

 

 

(Petrolina – PE)

morrer-eMorrer é confuso – diz, absorta, o indicador a tocar os lábios. A notícia de mais uma morte – no silêncio da sala. Mais um que deserta e arranca choro de olhos e bocas frágeis. Doente de quê? A cidade em volta de túmulos, cada qual com a sua parcela de mortos – preenchido por ausências. Um buraco. Vermes festejam a chegada de mais um corpo, arrebentam o frágil tecido, expõem vísceras, disputam os melhores pedaços. Doente de vida, certamente. Esta coisa corrosiva, horrível, lodosa, que, se nos permite riso qualquer, é para, em seguida, nos deixar o hálito amargo do remorso. Os filhos, coitados, aflitos? Não só o tempo rói. As crias – cruzamentos, bichos paridos -, desfeita a necessidade da harmonia enganosa, avançam umas nas outras, dentadas, unhas rasgando peitos e braços. (mais…)

Leia Mais

Cor de Afogamento

assin-breno

(Petrolina – PE)

cor-afogamentoRegressado, mais uma vez. Idas e vindas – sem chegada. Partir, retornar: modos díspares de fugir. Desertar – mas de quê? A recordação das batalhas perdidas, o fracasso de quem, ao vencer, declina. Duas paredes rivalizam: numa, livros e quadros; noutra, troféus e medalhas. Todos os dias, o mesmo confronto. A luz reverbera no ouro dos utensílios majestáticos e irradia nas brochuras opacas. Uma objeção lógica retine em meus ouvidos: toda essa extensa leitura, estas páginas desbravadas e, ainda assim, estes troféus? Mais: não se contentara com a vitória, fora no coquetel de premiação, discursara, envaidecera-se com os aplausos, trouxera a glória nos braços, dera-lhe estante luminosa, exposta na parte mais visível da casa? (mais…)

Leia Mais

Corpo Habitado

Breno S. Amorim

(Petrolina – PE)
“Que exilado – de si pode fugir?” (Byron. “A Inês”)

Lavoura arcaica IEste mato seco, paisagem desértica, um casebre ao longe. Uma mulher atravessa a porta, parece chamar alguém, grita em direção à plantação de milho. O ônibus passa, meus olhos se perdem por entre o invariável cenário. A seca ainda castiga, penso como alguém que estivesse fora da terra. Não sou eu daqui? Há quantos anos deixei tudo? Uma mala pequena, quase nenhuma roupa e um livro. Sim, um livro, que até hoje carrego comigo, amarfanhado. O vento bate em meu rosto, abandono-me às reminiscências pungitivas, às horas de dor e sangue, de pranto e embaraço. Retorno.

Meu pai coloca a enxada no ombro, o chamado de minha mãe, sempre pontual – hora do almoço. Interrompemos o movimento dos corpos sob o sol. Papai, de ordinário, bruto, não arrisca desatender ao sinal de sua mulher, para quem não existe família sem a composição rigorosa da mesa. Molhamos as mãos e nos direcionamos aos nossos lugares, sempre os mesmos, na mesa. Mamãe manda eu iniciar aquele rito enfadonho, insosso. Rezo. (mais…)

Leia Mais

Estilhaços

selo-destaque-set-2016

 estilhaços

Breno S. Amorim

(Petrolina – PE)

A narrativa escorre de mão claudicante. A dúvida ante a necessidade de exarar determinado fragmento me consome. À noite, sou perseguido por esta insônia de já não sei quantos dias. Por que deitar no papel estes estilhaços que me povoam? A imagem dos meus chamejando na memória – que não me permite sequer um mínimo olvido, nunca.

Ao olhar-me, a superfície do ser, não há quem possa apontar uma ferida. E, no entanto, quantas não vão acesas? São muitas, em tão curto tempo. Apenas 28 anos, digo e já não sei se isso é uma afirmação. O espelho parece me indagar. O que vejo refletido? Não absorvo estes traços faciais, para mim, sempre os mesmos, conclusos, estáticos. (mais…)

Leia Mais