O Homem Que Quis Enganar A Morte

        (Vieira de Leiria – PT) Da janela da cozinha da sua pequena casa, o Silvério via toda a gente que passava, não fosse aquela a única rua do pequeno lugar onde nasceu. Ali, todos se conheciam e as pessoas cumprimentavam-no com um bom dia; «Bom dia Silvério, bom dia moço, ou ainda, bom dia meu rapaz». Retribuía e com os olhos seguia aquela gente, até à primeira curva onde deixavam de se ver. Aquela era a sua casa, o seu pequeno mundo, e sempre viveu ali. Era menino quando viu passar alguém que se escondia sob um manto negro levando na mão uma foice tão grande que não cabia debaixo desse manto. Curioso, o menino quis saber quem ia ali. – É a morte. – Respondeu o pai. – Anda pelas aldeias, tentando conquistar a confiança das pessoas, a quem depois vai lançar as garras, quando sente que estão mais desprevenidas. […]

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O Almoço da Dona Beatriz

           (Vieira de Leiria – PT) Há muito que a dona Beatriz sofria do coração. Os problemas de saúde, começaram era ainda moça, mas os médicos do Centro de Saúde, nunca se preocuparam com aquela doente que amiúde por ali aparecia, mendigando uma consulta, como quem mendiga um pedaço de pão para matar a fome. No dia em que esta lhe era concedida, só não era a primeira cliente a chegar ao Posto Médico, porque uma senhora africana, a troco dumas moedas, passava ali a noite, embrulhada numa coberta, sobre o banco de madeira que existia no alpendre junto á porta da entrada. Uma cena triste e degradante a que todos nos habituámos. — Então dona Beatriz, o que a traz por cá desta vez? –É sempre a mesma coisa, tentava explicar a doente ao médico – sempre apressado – que nunca tinha tempo para a auscultar como devia. –Desmaiei na […]

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Um Conto De Natal

        (Vieira de Leiria – PT) As prendas tinham sido cuidadosamente embaladas, não fosse o “diabo tece-las”, e para que a neve que sempre caía naquela noite não pudesse deteriora-las. Lá nisso, o Pai Natal era muito cauteloso, desde o dia, ou melhor, desde a noite em que o S. Pedro que por vezes também dá mostras de sofrer da “caixa dos pirolitos”, por uma razão que só ele sabe, enviou cá para baixo uma tão grande quantidade de neve e chuva, que até as renas tiveram que ser levadas ao veterinário. As embalagens humedeceram, rasgaram-se e metade das prendas perderam-se ao longo dos telhados, ficando as crianças desoladas e à espera duma outra oportunidade. Desta vez, tal não ia acontecer. Olhou para o trenó e sorriu feliz. Até as renas, conhecedoras dos seus deveres, davam sinais de impaciência. Em breve ia fechar a porta da cabana, não fosse algum malandro aproveitar […]

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O Alentejano Que Não Gostava dos Espanhóis

        (Vieira de Leiria – PT) O António Fragoso nasceu a poucos quilómetros de Badajoz, mas nunca gostou dos vizinhos espanhóis. Da janela do seu pequeno quarto, quase conseguia ver as gentes do país vizinho movimentando-se nas suas lides. No entanto, a vida foi passando e nunca o nosso homem ultrapassou essa linha imaginária a que chamamos linha de fronteira. Foi ensinado pelo pai a odiar tudo o que existisse além dessa linha.

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Os Azares do Sr. Zacarias

        (Vieira de Leiria – PT) O Sr. Zacarias Pintadinho foi sempre um homem sério, cumpridor e fiel à sua palavra. Sempre pronto a ajudar o próximo, bastava que um vizinho ou parente afastado que estivesse em dificuldades falasse no seu nome e logo umas portas fechadas até aí se abrissem de par em par. Não era rico nem abastado mas vivia feliz com o seu trabalho, nunca lhe faltando dinheiro para curtir as suas necessidades. Até que um dia a má sorte lhe bateu à porta. Quando regressava do trabalho, uma criança que corria atrás dum cão ou dum gato – nunca se soube ao certo – atravessou-se no seu caminho. O choque foi inevitável e a criança que não teria mais que cinco anos morreu ali, antes que alguém tivesse tido tempo de lhe poder prestar qualquer socorro, enquanto ele foi levado para o hospital onde lhe foi diagnosticado uma […]

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No Tempo Em que Os Animais Falavam

        (Vieira de Leiria – PT) No tempo em que os animais falavam, era um tempo avançado no tempo, quando o tempo era diferente do tempo que temos hoje. Só por isso, era o tempo em que os animais falavam. Ao contrário da sua amiga, a pulga Beatriz que passava o dia por detrás do balcão dum café servindo pulgas e outros seres que ali vinham, a pulga Belmira gostava de passear, apanhar o sol da praia, bem esticada ao lado de outras pulgas que por lá apareciam e também por isso se sentia feliz.

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O Homem Que Tinha Uma Saúde De Ferro

                    (Vieira de Leiria – PT) O Sr. Maurício Pintadinho gozou sempre de boa saúde. O homem tinha saúde para dar e vender – assim diziam os vizinhos e amigos com quem convivia mais de perto. Passava os Invernos de mangas arregaçadas, indiferente às baixas temperaturas que obrigavam a vizinhança a consumir mezinhas e chá de limão, cascas de romã, hortelã e erva-cidreira.

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Páginas da Vida – Um Pouco da Vida da Minha Amiga Miquelina

        (Vieira de Leiria – PT) A minha amiga Miquelina era ainda jovem e bonita quando a morte lhe entrou em casa. Viera ali para lhe roubar o marido e a pobre senhora ficou viúva sem ter ainda trinta anos. Durante uns tempos andou por aí á deriva, carpindo as suas mágoas em cada canto, em cada esquina e até onde não devia—assim diziam as más línguas da terra, que as há por aí e bem compridas por sinal.

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Páginas da Vida – Desventuras de Dona Joaquina

        (Vieira de Leiria – PT) Naquela manhã a dona Joaquina levantou-se cedo. A consulta no ginecologista tinha sido pedida já passaram oito meses e o médico não se compadecia com atrasos mesmo depois de justificados. Depois havia de passar pelo dentista, onde também não podia faltar. O posto médico da freguesia tinha sido encerrado vá lá a gente saber porquê e era à cidade que ainda ficava longe que tinha que se deslocar. Perfumou-se abundantemente, deu uma última olhadela ao espelho e seguiu o seu caminho.

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