Carta a Um Amigo

 

 

 

 

 

Presidente Prudente – SP

Prezado amigo de longa cartadata.

   Há muito não nos encontramos, por força da distância que nos separa. Tenho um caso para te contar, é a história de uma pessoa querida e preciso que me ouça. Falarei dele com o respeito que merece e o louvor que sempre lhe dediquei. Confesso que me permiti liberdades neste relato.

   Aconteceu às três horas da madrugada, de um dia qualquer, em um quarto de hospital. Lá fora a noite fria, quieta, somente o barulho do movimento das macas que transportavam gente se fazia ouvir. Por dedução,  quem corria carregava os que precisavam de atendimento urgente, porém, as que emitiam sons em compasso lento, cadenciado não tinham pressa, pois seu ocupante, totalmente coberto, já não mais precisaria dos cuidados médicos.

   A porta daquele quarto foi entreaberta vagarosamente e uma figura exótica se fez mostrar, aos poucos. Mesmo na penumbra do ambiente se podia observar que um capote branco cobria seu corpo e um capuz a sua cabeça, deixando o rosto cadavérico a mostra e trazendo a mão esquerda segurando pelo cabo comprido uma espécie de foice. Saudou com um pequeno rumor o moribundo e anunciou que partiria acompanhada dele, em seguida.

   O moribundo, amigo, era o meu considerado que se restabelecia de uma cirurgia cardiopata após violento ataque no órgão torácico e a visitante uma emissária da morte.

   Ao lado o companheiro de quarto dormia profundamente, possivelmente por força de anestesiantes e nada percebeu do acontecimento. O acamado, no entanto, que sempre foi muito ágil no pensar imediatamente convidou a visita a se acomodar procurando provável entendimento, manifestando a possível prorrogação da viagem através de um corajoso pedido, feito quase imediatamente. Na verdade, amigo, nem lhe passava pela cabeça receber qualquer resposta, porém esta veio na forma de pergunta: qual a razão do adiamento e a possibilidade de seu atendimento, desde que plausível a justificativa?

   Sua mente começou a trabalhar rapidamente e nem soube como a inspiração chegou alegando que precisa ainda escrever um livro. A visitadora, então, respondeu que escrever um livro está dentro das possibilidades previstas em determinado artigo do Código do Além entre as motivadoras de adiamento, porém com restrições, ou seja, que o livro não fosse muito extenso, no máximo com cento e cinquenta páginas.

   Meu ídolo percebeu, naquele momento, que havia possibilidades de negociações e com a coragem trazida nem sabe de onde argumentou serem cento e cinquenta páginas pouco para seu projeto que andava por perto de quatrocentas páginas e a diferença era significativa. Após mais argumentos de ambas as partes fecharam o acordo, somente na forma verbal, num livro escrito em duzentas e vinte e cinco laudas, o tamanho das fontes, o layout das páginas, não inserção de imagens e tudo o mais para não deixar dúvidas com referencia a licitude do acordo. Só não foi oficializada a data da entrega do trabalho.

   Antes da despedida da criatura, agora com já certa intimidade, indagou qual a razão dele ser procurado, convidado para a viagem final, na forma excepcional como estava sendo, em contrário a tantos outros viventes que partem violentamente, sem tempo sequer para qualquer despedida.

   Em resposta ouviu da encarregada da missão que o Instituto do Fim da qual ela pertencia era muito amplo, com diretores, planejadores, executores, etc. Nada tem a ver com um tribunal, pois ali não se julga, apenas e somente se define e cumpre o vencimento do prazo de vida estabelecido per capita. A cada existente na terra é planejado um ponto da finalização de sua vivência e o dia marcado de sua viagem. Há os setores dos saudáveis, dos doentes, dos acidentados, dos assassinados, dos suicidas, todos com departamentos, subseções e setores, muita organização. Eu, disse ela, pertenço à Divisão dos Hospitalizados e gosto bastante desse departamento em razão do poder que tenho em alterar a data do fim, como acontece agora e a qual não é dada a todos os missionários.

   E se foi, sem se despedir, pela porta entreaberta.

   Obtida alta, com a surpresa explícita dos médicos por tão rápida recuperação do paciente, sem muita pressa meu herói começou seu trabalho. Ainda atemorizado pelo acontecimento, apesar de não haver prazo para entrega, o compromisso com tão poderosa criatura não poderia ser menosprezado. E colocando as mãos à obra pôs-se a inventar situações, escrevendo coisas que ele vivenciou, conversas que tenham ou não existido, passagens que produziu ou deveria produzir. Os personagens de seu livro eram sempre fortes como um furacão ou mansos como a brisa, conforme as condições em que se encontravam. Descreveu situações onde ondas gigantescas invadiram cidades levando embarcações, moradas, pessoas, veículos e também soube apresentar o belo, o nascer de um dia calmo, o cantar dos passarinhos. Falou sobre o amor em todas as suas fases, idílica, sublime, carnal. Contou sobre a vida, luta e lágrimas dos homens. A maldade ficou ausente. Até sobre esse seu amigo que vos escreve ele se referiu, fez menções, das quais me orgulho muito.

   Durante todo o tempo que andou nessa estória registrou tantas e tão belas situações, amigo, que seus escritos ficaram soando pelos tempos e para sempre com o destino de atingir muitas, incontável número de pessoas. Ninguém falaria como ele falou por todos nós, ninguém se expressou como ele em todos os escritos do mundo!

   Não se pode contar o tempo que levou para a volta da missionária. Chegou sorrateiramente pela porta entreaberta e o saudou com um pequeno rumor. Declarou, sem muito ânimo, que sua missão não se completava ali e confessou ao escritor que havia lido seu livro e gostado. Por isso, vivente, vim apenas te comunicar que fica novamente adiada a viagem, caso queira, sob as mesmas condições anteriores.

   Por fim, amigo, confesso que esse cuja história te contei se tornou um gênio para mim. Jamais economizou nas palavras e externou as mais comoventes e as mais belas. Nunca morrerá, é imortal.

   Saudações deste que muito o estima.

   P.S. Estou te mandando pelos correios um exemplar do livro. Espero que também goste muito!

3 comentários em “Carta a Um Amigo

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