Calcinha Preta

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(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

calcinha-pretaGervásio já conta com o triplo de anos do que provavelmente aqueles que terá pra viver. Desde a morte da sua mulher que se tornou irrascível, solitário e sem vontade de viver. Contava os dias como se fossem anos, rezando aos santos da sua devoção para que fosse bafejado pela morte. Não que tivesse dificuldades económicas ou físicas, apenas porque desde que a defunta partira, nunca mais sentira um perfume feminino que lhe fizesse o velho coração pulsar como outrora. Talvez fosse essa a razão por que ficou tão zangado com a jeitosa vizinha do primeiro, quando esta deixou cair do estendal uma calcinha preta bem no centro da sua alva carequinha.

Uns impropérios de baixo para cima, com a senhora humildemente a pedir desculpa, que lhe tinha escapado, mas também não era preciso fazer um escândalo por tão pouco, e se tinha que lhe dizer alguma coisa que lho dissesse cara a cara, e não apregoar aos quatro ventos a sua falta de educação.

As dores de pescoço devido à posição, o facto de ao ralhar para cima estrar a ser bombardeado com os próprios “perdigotos”(salpicos de saliva) na cara, e de toda a mulherada estar à janela na maior basbaquice a gozar o pagode, levou Gervásio em duas pernadas prantar-se no patamar da vizinha.

– Entre, entre, senhor Gervásio! Convidou a jovem. – Assim poderemos falar mais à vontade sem a coscuvilhice dos vizinhos…

A raiva amainou perante tão graciosa criatura, em robe semitransparente. Embasbacou, admirou, pigarreou, revirou os olhos, engoliu em seco e, num acto de contrição deu consigo a lembrar que nem em sonhos vira coisa igual. Os insultos ao decoro que antes preparara ao subir a escada engatilharam-se na garganta, todavia, respirou fundo, e com esse sofisma pretendeu ganhar folego para que ela não pensasse que desistia à primeira. Aceitou o convite, e entrou.

Ouviu mais do que falou, mas em contrapartida, viu mais do que esperava ver. Viu uma vizinha com as curvas mais acentuadas que uma viola sertaneja, uma doçura no falar capaz de converter o ateu mais convicto, mas acima de tudo, o vermelho bem acentuado de uma lingerie que a pouca opacidade deixava ver, em contraste com o preto da cuequinha que trazia “amarguçada” na mão

A paz foi restabelecida entre os vizinhos. Agora, Gervásio suspira pela queda de uma ou outra peça de roupa que delicadamente dobra e, num saquinho entrega à vizinha, sempre na esperança que ela o convide para entrar.

Propositado ou por aselhice o que é certo, é que amiudadamente vão caindo algumas peças que agora sem resmungos, são apanhadas com alegria pelo vizinho, disputando-as quantas vezes com o Bobi, que não compreende tal entusiasmo do dono por um mísero trapito.

Da janela veio o recado para ele não se cansar, ela mesmo iria buscar.

As indas e vindas tornaram-se uma rotina para os olhos da vizinhança. E da desconfiança à quase certeza de que haveria moiro na costa, foi um passo. Mas aqueles dois, de ouvidos moucos aos mexericos, prosseguiam as suas vidas, ficando muitas das vezes numa das casas a televisão ligada toda noite, como sinal de vida de uma casa vazia.

Gervásio deixou o ar macambúzio para o iluminar com um sorriso, passando a ser a gentileza em pessoa. Livrou-se das bolas de naftalina ao oferecer tudo que era do tempo da defunta. Pintou a casa, comprou móveis e a barba de três dias a poder da moderna máquina de barbear era coisa do passado. Agora, um odor a água-de-colónia chique fazia parte da sua identificação. Já não barafustava com o carteiro que tinha a mania de tocar para ele, sempre que havia correio para alguns dos condóminos, ainda que ironicamente dissesse -prática antiga- que não era porteiro nenhum, e faceiro, fingia não ouvir as calhandrices à sua passagem.

– Sabe Dona Mariana, que ele até já lhe ofereceu um conjunto de cuequinhas pretas, dizendo que era para substituir as esfrangalhadas pelo rafeiro que tem em casa. É verdade, disse-mo a Rosa da retrosaria que me pediu segredo. Ali há coisa de certeza. É o que eu lhe digo, o raio do homem virou um velho gaiteiro e ela uma desenvergonhada, que não se sabe dar ao respeito.

– Credo!… Cuequinhas pretas? Isso é cuecas de gente? Nem de luto vestia uma coisa dessas, isso é coisa de gente sem vergonha, ainda se fossem vermelhas…

– Vermelhas? Ó vizinha, por amor da santa! O que é que a senhora anda à procura?.. De festa?

– Festa e alegria pros olhos, e para ver se o meu homem se anima…, mas pretas não, luto, já me basta quando ele morrer…Deus me livre se algum dia vestia aquilo, o meu homem matava-me!

Assobiando, Gervásio ia para fazer de conta que não ouviu, mas não se conteve e feliz da vida exclamou: – A mim dão-me vida!!!

6 comentários em “Calcinha Preta

  1. O sotaque português entra em nossos ouvidos agradavelmente. Expressões não usuais por aqui são recebidas prazerosamente (pelo menos por mim). Soa agradável: “perdigotos”(salpicos de saliva), cuequinhas (femininas), gozar o pagode, por amor da santa! entre tantas outras. Continue, caro Lorde, nosso rico português!

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