Caetano, Eu, Os Ramones, e o Enxerido do Jesus Cristo

 

 

 

(Salvador – BA)

 

O casal de adolescentes passava por mim todos os dias às oito e trinta e nove da noite. Sempre… no mesmo horário.

Ela era do tipo adolescente mimada e tirana. Parecia nunca o querer. Parecia estar fazendo uma concessão em namorar o rapaz…, um grande favor.

Eu ficava com um walkman que eu tinha desde 1994…, ele funcionava perfeitamente. Porém, as fitas se perderam, ou pararam de funcionar. Eu tinha apenas duas fitas; uma coletânea com músicas de Caetano Veloso, e outra do show “Loco Live”, dos Ramones. Todos os dias às oito e trinta e nove eu escutava isso, sentado no banco da praça… eu já fazia isso há oito anos. Portanto vi aquele casal ainda na infância. Eles já eram um casal, só que não sabiam disso ainda. E ele continuava ali, atrás dela… e ela fazendo as suas concessões.

Certa vez eles se sentaram um pouco mais perto de mim, e Caetano Veloso estava cantando uma versão voz e violão da música “Trilhos Urbanos”, então eu podia escutar a conversa.

– A gente podia ir lá pra casa, eu compro uma pizza pra gente…

– Ahhn… não sei…

Então ele tentou beijar o pescoço da moça e ela se afastou com um grunhido e uma risadinha escrota. Ele tentou e tentou e tentou… algumas vezes. E ela sempre tirava o rosto e o empurrava.

– Eu quero um refrigerante. – Ela ordenou.

O rapaz se levantou sem nada dizer e saiu (literalmente correndo). Alguns minutos depois ele voltou com uma lata de Fanta.

– Ahnnn, môo…eu não queria Fanta… – Ela falou, praticamente      miando.

O garoto deu um suspiro cansado, ainda tentando recuperar o pulmão da corrida que fez até o mercado, em recordistas cinco minutinhos.

– … vai querer que eu pegue outro?

– Você está chateado “comiiiiiguuuu…?!”

– Ué, não amor…

A partir daí ela fez uma cara feia e deu uma espécie de gelo no rapaz. E então eles voltaram às tentativas frustradas de beijos no cangote.

– “nossa, isso é humilhante…” – Pensei. E então a fita de Caetano   Veloso terminou e os Ramones surgiram fazendo barulho.

Lá na frente, numa lanchonete nova que montaram ali, sentaram-se um grupo de pessoas. Mas não consegui observar todo mundo…, me atentei apenas para uma senhora idosa, com roupas luxuosas, joias, e um cabelo preso num coque.

Ela possuía o que muita gente chama “a cara de riqueza”. Mas depois de alguns minutos eu comecei a sentir nojo do rosto dela… por que me lembrou um cadáver. Ela malmente sorria, e quando o fazia, era assustador. O exagero na maquiagem junto com as rugas e um lábio murcho… era nojento.

Um menino sentou ao meu lado. Ele deveria ter no máximo uns dez anos de idade. Ele vestia uma calça preta e uma blusa social abotoada até o pescoço. Segurava consigo uma Bíblia colorida com um Jesus desenhado de forma bem infantil e sorridente em cima de um morro, pregando alguma coisa para um grupo de criancinhas felizes.

– O que você está ouvindo? – Ele me perguntou.

– Coisas do Diabo, provavelmente… – Respondi sorrindo.

– Uau! Posso ouvir?

Com má vontade, tirei os fones de meu ouvido e entreguei ao menino. Ela ficou uns três minutos escutando os Ramones e sorrindo de forma meio abobada. Eu queria o meu fone de volta e não queria aquele garoto e sua Bíblia comigo no meu banco, às oito horas e trinta e nove minutos.

– Tchau, moço, espero que você encontre Jesus um dia!

– Vai porque quer… tchau. – Respondi enquanto rebobinava a fita.

No dia seguinte eu sentei ali, no mesmo lugar e no mesmo horário, e o casal meloso (com sua garota castradora e tirana), assim como a senhora rica que me fazia perder a fome…, e também o garoto religioso – porém um tanto simpático e adorador do demônio, vez ou outra… – não apareceram. Na verdade, naquele dia ninguém apareceu e a lanchonete também não abriu.

Pensei comigo: “… não têm comida e nem um cafezinho… e se eu quiser mijar ou fazer cocô, não têm banheiro na rua. Vou ficar só alguns minutos, hoje é dia de ficar em casa pelo visto.”

Nesse momento, em que eu já tinha colocado minha fita de Caetano pra tocar, uma mão fria me tocou no braço.

– Posso sentar com você? – Perguntou o homem…

– A praça é pública, mas eu não curto homens. Sem preconceito… só não curto.

O homem sorriu e se sentou. Ele vestia uma calça branca e estava sem camisa. Notei que ele tinha uma enorme cicatriz na testa e marcas nas duas mãos. Seu cabelo era preto, liso e enorme. Havia algo em seu olhar que passava uma confiança… inclusive até mesmo causou em mim, uma não-importância por tê-lo ao meu lado.

– Sou Jesus Cristo, estou muito bem hoje…, noite linda. E você, tudo bem?

– Eu sou K. Você é tipo… o Jesus do livro?

– Isso. Você viu um desenho meu, no livro do menininho, ontem… lembra?

– Era um bom desenho…

Ele se aproximou um pouco mais. Ficamos praticamente de pernas juntas… senti vontade de empurrá-lo por alguns segundos.

– Er… eu estou meio ocupado agora… ouvindo umas músicas legais.

– Você ouve isso todo dia, K… Sabe, existem várias outras bandas de Punk Rock, e existem outros cantores brasileiros muito bons… tipo Gilberto Gil, conhece? Caetano e ele são bons amigos, inclusive.

Torci o nariz, apertei “Pause” no meu walkman.

– Você precisa se esforçar um pouco mais, K. As pessoas são chatas, de forma geral…, mas, vez ou outra você conhece alguém interessante.

– Hum… sei não… ontem eu resolvi emprestar meu walkman pra um garoto cristão, e logo no dia seguinte ele já me mandou você aqui.

Jesus Cristo soltou uma gargalhada alta e espalhafatosa. Eu não imaginava que Jesus risse assim…

– Você é mesmo Jesus Cristo? Quer dizer…, com essa risadinha?

– Claro que sou, meu fil…

– psh… corta essa de “filho”.

– okk… Claro K! Eu posso fazer um milagre se você quiser ver…

– Nããão… tô bem. Fica na tua aí.

Passamos um tempo em silencio.

– Pode tirar o fone deixar tocando, pra ouvirmos juntos? Eu também curto os Raimundos! – É RAMONÊÊÊS!! – Berrei alucinado.

– As pessoas devem ficar com medo de te chamar de chato, pegajoso, enxerido, mala, nomes assim?

– Pra falar a verdade, ficam sim, bastante. É culpa da idade média, o povo fica pensando em punições, juízo final, etc…

– Entendo…, bem…, eu não tenho medo. Tu é chato para cacete.

Pus então o walkman pra tocar alto e ficamos escutando o show dos Ramones. Jesus se balançava e de repente levantou e começou a dançar de uma maneira engraçada, balançando a bunda prum lado e pro outro e apontando os dedos indicadores para si mesmo.

– Essa coisa dos dedinhos, é porque mesmo?

– Estou louvando a mim mesmo. – Ele respondeu dando novamente aquela gargalhada antipática.

Acabei me levantando e dançando com ele. Fiquei apontando os meus dedos indicadores pra ele e rebolando também, foi massa… rimos bastante até a fita acabar. Quando acabou, Jesus disse;

– Agora vou tirar água do joelho ali num matinho e já volto.

Ele nunca voltou…

No dia seguinte, peguei um celular que tinha ganhado de uma ex-namorada da gaveta. Nunca tinha usado um celular, meu irmão me auxiliou e me ensinou os comandos básicos. Baixou um aplicativo, dizendo que eu ia “amar aquilo”. Era um troço em que eu digitava o nome das bandas e das músicas e podia escutar.

Cheguei atrasado na praça, mas isso parecia não importar mais. Comecei a escutar – pelo meu mais novo programinha no celular – um disco chamado “Refazenda”, do tal amigo do Caetano, Gilberto Gil.

Fiquei ali parado esperando Jesus voltar…

Foi quando percebi que agora eu era como todas as outras pessoas… sentadas, sem fazer absolutamente nada e esperando Jesus Cristo voltar.

 

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