Bumerangue

 

 

 

 

(São Paulo – SP)

Anteontem pedi comida chinesa no escritório. Estava boa. E ri com a mensagem contida no biscoitinho da sorte – “A mentira é como um bumerangue. Ela vai, mas ela volta.”

Antes não tivesse rido, pois ontem mesmo mordi a língua. Explico-me:

Perdi a hora de levantar, uma vez que esqueci de desligar o módulo silencioso do celular. E voei para o trabalho antevendo o pior, pois o chefe, que é bem mais jovem do que eu, não suporta atrasos.

Para não levar um esbregue, precisaria entrar sem dar bandeira, sorrateiro. Mas ele lá estava, e fazendo ronda perto da minha mesa.

A desculpa teria que ser convincente. Caso contrário, estaria perdido.

Foi aí que me lembrei de um bate-papo que tive com o filhão sobre as matérias que ele estava estudando. Em Ciências, o que mais o impressionara era a “terrível” hipertricose auricular. E que nada mais é do que acúmulo de pelos nas orelhas, fato esse que os cinquentões como eu bem conhecemos.

Ora, meu chefe é muito bom naquilo que faz. Mas será que ele também entenderia de Ciências?

Assim, quando me perguntou sobre o motivo do atraso, reuni o que me restava de coragem, caprichei no semblante sofredor, e arrisquei estas palavras:

– Desculpa, Dr. Paulo, é que tive uma crise aguda de hipertricose auricular, logo pela manhã. Por isso me atrasei. – E, humilde, fiquei aguardando a reação.

Só que para minha surpresa, a cena que interpretei foi tão convincente, que meu chefe não só acreditou como também bateu no meu ombro, disse-me uma ou duas palavras de consolo – que sequer consegui escutar –, e me aconselhou a procurar um médico com a máxima urgência.

Mesmo eufórico por dentro, nada demonstrei por fora, pois meus músculos, sobretudo os do rosto, permaneciam fiéis à mentira.

Nem precisaria dizer que despenquei na cadeira assim que ele se foi.

E quanto mais a adrenalina se dissipava, mais vitorioso me sentia. Afinal, aquele moleque travestido de diretor tinha sido enganado pela prata da casa!

Tive vontade de contar o meu feito heroico aos meus amigos. E teria contado, não fosse um pequenino detalhe…

Precisava ir ao andar da diretoria para pegar a sua assinatura em alguns documentos. Só que antes de bater na porta, que estava entreaberta, deu para ouvir meu chefe conversando com seu pai ao telefone. Combinavam almoçar juntos daqui a uma hora.

Até aí, tudo bem. No entanto, ele terminava a conversa nestes termos:

– Ótimo… Ah, pai, tem um funcionário que chegou atrasado por causa de uma crise de…? não me lembro o nome da tal doença. Já que o senhor é médico, daria para examiná-lo rapidinho? É que o médico da empresa não virá mais esta semana e eu não quero que o coitado se atrase de novo. E aproveito para fazer média com a equipe, dando uma de bom patrão. Pode ser? Ótimo! Até às treze. Tchau.

Fiquei petrificado! E se não estava doente, comecei a suar frio.

Desisti, pelo menos naquele momento, de qualquer assinatura, e fui direto me trancar no banheiro. Precisava pensar.

Ao me olhar no espelho, o que me vinha à mente não era o que fazer, mas, sim, a conversa que tivera com meu filho. Ele também contou sobre a aula de literatura, que estudavam Lima Barreto e o seu O homem que falava javanês, conto de que eu sempre gostei. O personagem principal, Dr. Castelo, que a todos enganava dizendo-se professor desse idioma, quase se estrepou quando teve que servir de intérprete a um marujo javanês que tinha sido preso. Por sorte, o marujo foi solto antes que se encontrassem. Só que ninguém imagina o medo que o vigarista sentiu de a farsa ser descoberta!

E dei razão a Oscar Wilde quando profetizou que “A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”, pois o medo que estava sentindo era da mesma intensidade. Minto, era pânico! pois quando ele soubesse que tinha sido feito de bobo por um sujeito mais velho, e seu subalterno, acharia que sua competência teria sido jogada no lixo, e que, por causa disso, todos nunca mais o respeitariam! E, com certeza, seria demitido sem dó nem piedade.

Comecei a tremer. Aquele aperto na boca do estômago, tão característico dos momentos de paúra, me fustigou como nunca, e tive um desarranjo intestinal incontrolável.

Passado esse momento, e me lembrei que aquelas assinaturas eram vitais. Assim, não tive alternativa senão a de me recompor e enfrentar o meu futuro algoz.

Retornei à diretoria, bati na porta, obtive permissão para entrar, e caminhei tão desolado e trôpego que mal tinha forças para levantar a cabeça.

– Homem! o que aconteceu com você?!

Acho que nunca uma pergunta fez tão bem aos meus ouvidos… E se minha aparência era a de um pobre miserável – ele mesmo me disse que eu estava branco feito um fantasma –, meu interior em nada ficava devendo, tanto que, quando meu chefe disse que seu pai era médico, que estava prestes a chegar, e que iria me examinar, sofri uma convulsão tão violenta que não consegui me aguentar. E vomitei ali mesmo, sobre o lendário “tapete do boss”!

É fato que ainda não estava completamente perdido, pois o médico ainda não tinha chegado. Só que ele chegaria, eu seria despedido por ter mentido. E ainda por cima teria que pagar a limpeza de um tapete persa!

Só que a sorte também estava do meu lado, pois o celular do chefe tocou, ele atendeu, e ouviu de seu pai que o almoço teria que ser desmarcado, graças a uma emergência médica.

Meu chefe, então, perguntou se eu teria condições de ir sozinho para o pronto-socorro.

Confesso que o canto esquerdo da minha boca ousou dar uma levantadinha… E com o aspecto abatido, mas com o raciocínio a postos, não me fiz de rogado e aceitei partir, agradecendo o quanto pude pela compreensão.

Cheguei em casa eufórico. Lançara ao ar uma mentira e ela me beneficiara muito mais do que o esperado! Não era o máximo?!

Interessante que neste exato momento, aquela mensagem contida no biscoitinho da sorte me veio à mente… E novamente eu a desconsiderei.

Resolvi não contar nada para minha mulher, pois não queria preocupá-la. Afinal, ainda corria o risco de ser despedido, caso meu chefe se lembrasse do nome da “doença” e comentasse com seu pai.

Mesmo assim, sentia-me feliz, esperto. Aliás, tão bem me sentia que quis trocar alguns carinhos com minha esposa quando fomos deitar.

Mas ela não quis saber.

Perguntei o motivo, se dor de cabeça, ou o quê?

E foi aí que senti o bumerangue retornar ao ponto de onde tinha sido lançado… Na verdade, disse ela, o que sentia era uma crise aguda de hipertricose auricular.

One thought to “Bumerangue”

  1. Cinco estrelas meu caro Dias Campos. A isto eu chamo um conto com pés e cabeça. Nada comparado com textos que embora muito bem escritos nos deixam a pensar qual foi afinal a história . Parabéns!

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