Borboletas

 

 

 

 

(São Gonçalo – RJ)

O sonho do menino era ser escritor.

Não escritor para publicar livros, para noite de autógrafos, para canapés e drinques com direito a fotografias e entrevistas.

Não.

Nada disso o deslumbrava.

Via borboletas voando no jardim de sua casa.

Asas mágicas, cores.

Corria o menino no silêncio de suas palavras ecoando no cérebro dele e ele ia misturando tudo.

Asas, cores e palavras.

Silenciosamente.

Porque nos porquês do destino traçado ele nascera sem poder falar.

Mas voava.

As palavras iam se misturando na mente dele e ele as colocava do jeito dele em um caderno que só ele podia enxergar e ler.

Era um menino alegre.

As borboletas batiam as asas no jardim da casa dele, que ele sabia não ser sua, a casa era uma rua sem fim, que não terminava nunca, e o menino, não mais corria, voava com as palavras como se ele fosse uma borboleta que se contorcia ao sol e as cores iam se derramando em uma calçada imaginária, coberta de nuvens e de palavras soltas, sem nexo, se juntando para ir formando desconexas sensações e pulsações sem fim no coração do menino que sonhava ser escritor sem nunca saber na verdade o que era ser escritor.

Não fazia a mínima ideia.

Os meninos corriam pela rua atrás de comida, o menino corria atrás de palavras e sonhos.

O sonho na padaria era doce e alguns meninos ludibriavam a atenção do dono da padaria para poderem uma vez na vida sentirem o doce gosto do doce de leite de ser criança.

Que diabos!

O asfalto quente, os trabucos, a cola no nariz, o sangue pisado na prancha dos pés, coriza, as migalhas de pão, as moedas jogadas em um laguinho artificial para as crianças pretas-mulatas-pobres se atirarem de cabeça. Pula menino. Pula que o sapo no brejo daqui alguns meses terá o papo estourado de tanto coachar.

Mas o menino não se importava com os sapos, não se importava com a rua que os olhos de todos viam e os olhos do menino que queria porque queria ser escritor não via uma rua crua, comum, cruel, revolta, revoltada, não via nada disso o menino.

Porque os olhos do menino só olhavam para dentro dele do sonho de poder voar com as borboletas e ir escrevendo uma nova história como se um dia ele for escritor.

2 thoughts to “Borboletas”

  1. Muito bom, meu caro Joedyr!
    Poucas palavras escritas e como no painel acima: “o mais difícil não é escrever muito mas dizer tudo escrevendo pouco”!
    O seu trabalho me fez vir à mente e ouvir Caetano cantando Força Estranha:
    “Eu vi um menino correndo
    Eu vi o tempo brincando ao redor
    Do caminho daquele menino”

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