Bons Tempos

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

 

Na chegada a Milão, atendendo aos preparativos para a entrega do automóvel alugado, a sua atenção foi voltada para o Lamborghini conversível, vermelho, parado, que acabava de ser abastecido. Em seu interior, sentada no banco ao lado oposto da direção uma bela mulher contemplava a paisagem de fundo que emoldurava o cenário. Vestida por um minúsculo e agarrado short branco e a blusa decotada, exibindo um colo magnífico, somente era superada pelas lindas e aveludadas pernas, cruzadas e expostas.

O homem elegante voltava do pagamento no caixa e preparava-se para entrar no automóvel quando foi reconhecido. Interpelado e confirmada a velha amizade, abraçaram-se longamente, felizes pelo reencontro após tanto tempo. Apresentado à bela mulher, sua esposa e passageira do Lamborghini que, sem muito entusiasmo, saudou-o graciosamente. Foi, de forma irrecusável, convidado a acompanhá-los à sua casa, uma magnífica residência na linda cidade de Cortina d’Ampezzo, ao nordeste da Itália, junto aos Alpes.

As recordações dos tempos de juventude vieram efusivamente durante o trajeto. Companheiros dos jogos de tênis no Instituto Rio Branco, em Brasília, formavam uma dupla invencível nos torneios promovidos pela escola. O coleguismo se fazia constante em todas as ocasiões, sempre companheiros desde as salas de aulas, nos barzinhos noturnos, nas peripécias das provas, nas noitadas, nos estudos ou nas memoráveis farras. A vida os separou depois de formados, um seguiu a carreira diplomática para a qual se preparou e outro tornou-se executivo de grandes empresas.

Implacáveis, o tempo e a distância os afastaram por longos anos!

Entre recordações fervorosas e amabilidades recíprocas ele se tornou hóspede do diplomata na bela morada que tinha por moldura as magníficas montanhas dos alpes italianos. Poucos foram os dias que ali permaneceu, todavia inúmeras as vezes que ignorou, fugiu ou evitou as investidas amorosas da linda mulher do amigo. Desfilar pela mansão em lingerie transparente e reduzida, suavemente exalando o aroma de um legítimo perfume francês e tendo às mãos um copo com vinho fino, discretamente mostrando a língua ligeiramente colorida pela bebida era a predileção da madame provocante. Seu corpo escultural, sensual se mostrava cada vez mais malicioso e se tornou um tormento para sua presa, o amigo de seu marido. Ele punha-se a passear pela casa, inúmeras vezes chegava junto à porta principal, voltava até a sala, fazia meia-volta, pisava com força tentando afastar a volição e quando, após ouvir uma voz vinda dos ensinamentos da infância repetir “um homem é um homem” extremamente excitado não mais resistiu, sucumbindo enfim à força da natureza e em plena sala de estar da morada se agarraram com todas as forças da volúpia vindas à flor da pele. Ela puxou com forças o robe-de-chambre que ele vestia enquanto o alucinado enfiava uma das mãos vigorosamente dentro da reduzida calcinha da mulher, acariciando com movimentos circulares, apertando com a força dos dedos as nádegas da amante, ao tempo em que ela o arranhava suavemente com as pontas das bem tratadas unhas. Sobrava altivez enquanto faltava à mulher o recato dos civilizados eis que se contorcia com uivos e gritos como é o amor dos brutos. O mundo girava numa fúria incontrolável dentro de todo o ser de cada um dos amantes. O passado vivido se perdeu por completo naquela hora, apenas o desejo reinava no ímpeto do momento. Os olhos embaçados pareciam mostrar um vulto ali perto, na espreita, porém a bestialidade dominava o anseio e nada mais valia no momento, apenas o amor, a sedução, já que a atração sexual ditava as normas.

Ao fim o sofá da sala amparou o casal ofegante e a luz no teto se ascendeu de súbito. Os olhos arregalados de ambos fitaram os do marido surpreso, postado imóvel ao lado da porta de entrada. Não tão surpreso pois assistira desde o começo as cenas de amor produzidas pelos protagonistas exaustos. Fechou a porta entreaberta e a passos lentos se retirou procurando um lugar para se proteger e afastar o tremor causado pela cena gravada em sua mente.

Lágrimas sentidas correram pela face do garanhão, agora profundamente arrependido. Palavras, justificativas ou até pedidos de perdão seriam inócuas para explicar o ato. Algum tempo depois, bravamente enfrentou a situação e encarou a vítima, o marido traído, e ainda sem qualquer forma de expressar os sentimentos tentou balbuciar algumas palavras, mas somente frases ambíguas se fizeram ouvir. Com as pálpebras semicerradas e cabeça baixa, apenas rangidos ocos, murmúrios abafados saíram de sua garganta e ajoelhando-se aos pés do amigo, tão somente com o olhar implorou-lhe perdão. Do alto, mãos suaves vieram ao encontro de seu queixo levantando-o e pedindo para arrastar os olhos para cima, pois as palavras a serem ditas precisariam ser também aceites, não só ouvidas e falou:

-Amigo, meu quase irmão, não quero te perder novamente. E também ela, meu amor verdadeiro não posso exonerar. Nos tempos das cavernas seria lógico matá-los e vingado estaria. Mas como viveria eu depois? Sofrido, amargurado, arrasado até quando? A punição dos homens seria justa assim como o castigo dos deuses inevitáveis. Além do mais a minha formação não permite tal atitude. Assim amigo, pergunto a você, alto e bom som, sem rodeios desnecessários: vens comigo?

Diante na pergunta inesperada também a resposta não pensada surgiu do fundo das entranhas, sem vacilo:

-Sim amigo, vou!

Os dois homens se colocaram de pé, frente a frente e num aperto de mãos selaram o acordo recém-nascido. O diplomata subiu aos aposentos e beijou sua mulher que lá se encontrava de malas prontas para uma longa viagem.

Os três acomodaram-se no Lamborghini e partiram para um longo passeio, sem destino projetado, tendo como rumo primeiro a Riviera Italiana. O vento lançado nos rostos pelo conversível veloz, paisagens deslumbrantes, estradas espetaculares, também as montanhas e o mar foram testemunhas da felicidade daquelas pessoas venturosas. O céu azul e o delicioso verão europeu animavam os viajantes. O pequeno assento traseiro tão desconfortável e impróprio para conduzir passageiros no luxuoso automóvel, era motivo para a alternância dos amigos na direção do Lamborghini, sempre preservando e protegendo a bela passageira do lado.

Também passaram a revezar para todo o sempre a cama, a alegria e os amores com a linda mulher.

Bons tempos aqueles!

2 thoughts to “Bons Tempos”

  1. Obrigado caro Lorde pelos elogios. Gostei muito do “ninguém é de ninguém” e também por “sentarem a rabadilha no Lamborghini”, isso, realmente foi inadmissível, insuportável, tudo menos isso!

  2. Cum caneco! Um texto magnifico, mas só o texto. Vamos lá ver: Não é sempre que nos é dado a ler um tal deleite, continuo a referir-me ao texto, onde a arte de bem escrever até nos faz perdoar os devaneios do conto. Qual Lamborghini , Ferrari ou perfume francês, qual carapuça! Sou um homem das cavernas, e cioso pelo que é meu, embora ela diga que ninguém é de ninguém, e, se há coisa que não perdoava era a traição como a desses dois. Ia aos aposentos quer de um quer de outro e mandava todos os pertences pro meio da rua. Que se amanhassem como pudessem, mas sentarem a “rabadilha” no Lamborghini é que jamais!
    Parabéns por este mimo de literatura que nos proporcionou.

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