Bom Jesus

 

 

 

 

(São Gonçalo – RJ)

A imagem dela ainda está latente em minha retina.

Seria alma.

Ando pela cidade e a imagem dela ainda lateja dentro de mim. Latente. Pronta pra explodir. Oculta, mas ainda sinto o cheiro dela e vejo os olhos azuis dela, como duas bolas de fogo, em brasa, os olhos deveriam ser amarelos ou vermelhos, mas eram azuis, olhos de uma vampira sem imagem refletida no espelho. Mas ainda vejo a imagem dela por baixo daquela nuvem negra que vai se desenhando no céu.

A música toca em um bar. Eu entro. Ela também está dentro do bar. Entra comigo. Leila e seus olhos azuis em fogo, em chama. Corpo ardente, que mergulho em rio nenhum apagava.

Me lembro de Bom Jesus, uma cidade afastada do meu centro de intenções libidinosas e festivas. Uma cidade calma do interior que me clamou um dia e eu fui entrando dentro de um trem e partindo. O trem seguia largando fumaça, passando por aldeias e vilas. Leila no vagão, do meu lado. Já morta, já inexistente. Ria um riso macabro e sarcástico como se ela ainda pudesse sorrir. Não, não podia. Não respirava, mas a cidade estava lá e eu na ponte olhava o pôr do sol. Se pondo, se retirando para poder a noite fria com seus fantasmas e espectros se apossar de mim.

Do que você tem medo?

O medo me levava pela cidade tumultuada. Que não era mais Bom Jesus. Nunca fora. Esta cidade que eu ando agora com Leila me seguindo, me perseguindo. Houve um tiro, uma bala, muito ciúme. E Leila tentando roubar o meu pulmão, tentando respirar o ar que ela não mais consegue respirar. Aliás ela nem faz mais ideia do que seja um ar puro, igual aquele de Bom Jesus, da onde ela veio fugida,  para se respirar. Suas árvores frondosas, suas flores mágicas, seus rios tortuosos e caudalosos, suas pessoas calmas e tranquilas como se nada tivessem para ocultar. Nenhum segredo, nenhuma notícia ruim, nenhum fato obscuro, nenhum ato obsceno, nenhum pensamento que o jogasse na lama ou no chão de escarros e bingas de cigarros.

A cidade colorida.

Estou andando por ela para ver se eu ainda consigo enxergar alguma criança rodando a ciranda. Leila cirandava. Quando era ingênua, quando era pura no antro das moças e dos moços sem virtudes, quando se vestia de lilás e me convidava para o meio do salão. Você dança? Acho que eu dançava, acho que eu estava com um copo de caipirinha na mão esquerda e um cigarro na mão direita. Mãos ocupadas. Larguei o cigarro no chão e fui segurando na cintura de Leila. Rodávamos. O copo de caipirinha ainda estava na minha mão, agora não me lembro mais se era a direita ou a esquerda, não me lembro, mas a caipirinha balançava no copo e eu e Leila rodávamos pelo salão. Embriagados. Eu entornado na caipirinha e ela envolvida com os pensamentos dela. De uma boneca de louça, de uma mãe bondosa, de um pai não tão bondoso assim, mas atencioso demais. Atento nas formas de Leila, atento ao desenvolvimento feminino de Leila, e Leila rodava comigo.

Eu ando pela cidade e Leila hoje talvez boie em um rio caudaloso de Bom Jesus.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *