Aviofobia: Difícil Superação

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

Numa noite maravilhosa exibindo um céu azul de brigadeiro, aquele avião parado na pista acenava para uma tranquila viagem, de algumas horas, a uma cidade distante. Passageiros procuravam seus lugares antecipadamente marcados, dando prioridade as senhoras e aos idosos, num verdadeiro palco exibindo pessoas finas e educadas. Da primeira classe já se podia ouvir o som emitido pelo estouro na abertura de garrafas de champanhes saudando os mais beneficiados pela sorte.

O professor, mesmo na véspera da viagem, muito antes de embarcar já antevia todas as cenas que temia e a ansiedade a cada momento fazia aumentar seu descontrole. Agora, ainda na fila de embarque já transpirava frio, tremia involuntariamente apesar do calor intenso e de todos os poros de seu corpo jorravam gotas de suor. Porta do aparelho aberta, tendo à frente uma bonita e sorridente comissária abrolhava boas-vindas aos passageiros, o que não impedia as pernas de nosso amigo tremerem explicitamente, cada vez mais.

Sua “aviofobia” se manifestava intensamente nessa hora e já era considerada como um problema crônico. Vencedor contumaz suportava todas as dificuldades dessa vida, derrotava seus competidores com maestria, tinha na oratória uma eloquência digna de elogios, cativava a plateia em seus discursos e ensinamentos. Possuidor de inegável coragem e disposição para enfrentar qualquer tipo de adversidade, tornava-se, porém, um fraco, um perdedor quando por necessidade tinha que encarar qualquer viagem aérea.

Tratamentos psicológicos, medicamentos calmantes ou até algumas doses extras de álcool ingeridas ainda no saguão do aeroporto se tornavam totalmente inúteis no momento antecedente a uma viagem aérea, produzindo um verdadeiro martírio mental fruto da reação ao famigerado voo.

Aquela noite parecia ser pior. Com toda a coragem que pode armazenar adentrou à aeronave que imediatamente fechou a porta atrás dele, desde que fora o último a embarcar. Acomodado, fitou demoradamente cada um dos passageiros próximos procurando fixar na memória as feições de cada um dos futuros companheiros com os quais conviveria dias seguidos na selva, após a queda daquele avião.

O pássaro prateado começou a taxiar na pista, postou-se na cabeceira pronto para decolar, quando um tumulto no seu interior obrigou o comandante anunciar o retorno da aeronave ao terminal.

Um surto de descontrole fizera o professor exigir, aos gritos, a abertura imediata da porta para seu desembarque. Transtornado, desesperadamente subiu sobre o assento que lhe fora reservado e aos poucos tirava toda a roupa, peça por peça, enquanto arrancava os cabelos, ficando afinal apenas de cuecas. Seus sapatos, um a cada vez foram atirados no comissário de bordo que permanecera estático. Cantava e se agitava freneticamente ora imitando a dança na boquinha da garrafa, ora o bailado de uma cantora espanhola acompanhada dos sons emitidos pelas inseparáveis castanholas e ria alto da aflição dos outros. Suas gargalhadas misturavam com choro compulsivo demonstrando estar possuído de intensa crise de pânico.

Como numa ordem de “liberou geral” passageiros contaminados pela anormalidade se agitavam desvairadamente demonstrando uma elegância afetada ou na verdade um medo contido pelo disfarce, muitos na iminência de pular da aeronave, procurando imediatamente a salvação do corpo e da alma em detrimento da educação e da falsa tranquilidade anteriormente exteriorizada, enquanto a tripulação se desdobrava para dominar a situação.

Uma ambulância já postada no local recolheu o corpo domado, inconsciente, desmaiado do professor que foi conduzido as pressas para um hospital psiquiátrico.

Lá em outras terras, no destino gorado o reitor da famosa, respeitável universidade que promovia um congresso internacional dedicado à astronomia anunciava, entristecido, o cancelamento da apresentação, cujo palestrante, renomado brasileiro, mestre, doutor, PhD em Astrofísica arrazoaria sobre o tema COMO PREPARAR CORPO E MENTE PARA VIAGEM Á MARTE.

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