Até que a Morte Não Separe

 

 

 

 

(Patos de Minas – MG)

Meses já se passaram, sem que eu tivesse notícias suas. As cobranças aumentaram e ainda estão aumentando mais, a minha cabeça parece explodir sempre que ouço alguém falando sobre o que eu já escrevi ou o que está por vir. Sinto-me mais só do que eu gostaria de estar, a sua falta me assola, me amaldiçoa, faz eco na escuridão dos meus sonhos.

Faltam apenas mais algumas semanas e o meu mais novo livro será lançado pela editora. As vendas prévias foram melhores do que eu esperava, mas sei que você não se importa com isso, nem eu mesmo ligo.

Sei que a crítica vai destruir o meu novo livro, mas também não me importo, nunca me importe com isso mesmo. Este livro é bem diferente dos outros, ele parece um desses livros de modinha, para adolescentes, cheio de romances e blábláblá. Eu nem sabia que eu conseguia escrever uma porcaria tão grande. Só o mandei para editora, para que eles parassem de encher o meu saco.

“Eu só queria voltar pra casa dos meus pais ,para aquela minha infância colorida. Ter um lugar para chamar de lar novamente. Mas aí você veio, me prometeu um céu todo estrelado, um belo jardim e um amor inimaginável… Intangível. Depois você me abandonou .Na primeira chance. Foi e não mais voltou. Eu era todo seu. Sempre estive em suas mãos, mas…Talvez, nada fosse suficiente para você.”

Este é um pequeno trecho de um dos capítulos do livro… Acho que agora você entenderá o porque dele ser tão diferente dos demais.

Por ser algo tão banal, quase me esqueço de contar. Não me achará mais naquele velho apartamento. Mudei-me há um mês. Mas não me desfiz daquele lugar cheio de saudades e lembranças da gente. Agora moro solitariamente em uma casa bem maior do que o necessário e mais afastada das luzes da cidade.

Meu agente deu uma festa de inauguração, acho que você ficou sabendo pelas revistas de fofoca, não que você seja adepta dessas porcarias. A casa estava cheia de gente desconhecida e alguns que eu só via pela televisão. Mas no fim, eu gostei da ideia. Veio gente de todos os lugares. Fiz outras festas mais, esperando que você também viesse.

Conheci uma pessoa interessante semana passada durante uma das festas, uma médica chamada Beatriz. Por sinal, foi bem incomum o jeito que nos conhecemos. Ela me atendeu no pronto socorro do hospital, após eu ter sofrido um pequeno “acidente”, quando saia da minha casa durante a festa, eu tinha bebido muito, como de costume e tomei um remédio meio forte, não me lembro do porque, e acabei sendo atropelado. Os jornais disseram que eu tentei suicídio, mas espero que não acredite, mesmo tendo grandes chances de ser verdade.

Na verdade, tenho apenas alguns flashes daquela noite, mas lembro-me perfeitamente de tê-la visto no portão da minha casa e foi por isso que saí da festa. Fui seguindo o seu vulto até ser atropelado.

Meu agente conseguiu abafar um pouco a história e agora estou saindo com a pessoa que me salvou naquela noite. Espero que não se importe com isso. Sinceramente, eu realmente espero que você se importe com isso.

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