Aqueles Olhos Verdes

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

Percorrendo o olhar pela sua pele escura desde os pés, as pernas até o rosto, parou alguns instantes para analisar a cor verdadeira de sua tez que variava do jambo para a jabuticaba. A descendência africana era evidente, pois a miscigenação ocorrida através dos tempos por influência de brancos, indígenas ou amarelos estava evidente em todo o seu ser, nos seus cabelos crespos, cacheados e também nos olhos cujo verde permanecia realçado em todo esplendor, chamando a atenção de todos.

Desejou com todas as forças que seus belos olhos verdes mostrassem a sua história ou no mínimo entender, mesmo que um pouco, o seu passado. Então, lá no fundo, bem cavado em sua memória surgiu a figura de um rancho humilde à beira de um ribeirão de águas límpidas tendo para o sustento da família uma horta dentro de um cercado e ao lado um roçado com galinhas livres, cabras e gado leiteiro pastando. Ganchos servindo como suporte para algumas peças de roupas e duas redes para dormir penduradas nas paredes da choupana e separadas por uma cortina de bambu, mais pequeno cômodo que denominavam de cozinha e uma varanda compunham a morada deles.

Podia se notar, por todos os lados o aspecto da penúria e do amor presentes.

Cuidando atento a um fogão a lenha ardente próximo à porta do casebre um caboclo descansando da luta diária tinha seu olhar voltado ao sol poente. Não muito distante se desdobrava o estreito do ribeirão correndo calmamente refletindo o clarão avermelhado do ocaso e a poucos passos de distância o som monótono de uma pequena cachoeira se fazia ouvir. Entre tantas coisas de criança que o tempo não conseguiu abolir, o que não se apagou nunca foi a recordação do acalanto no lar.

Sentada no colo de seu pai, suas peles em contato, a noite chegando, tudo realçava a beleza das cores do negro na vida, na natureza. O vento balançava as plantas e a brisa fazia as flores dançar. E a cada dia, ao entardecer ouvia um pouco da história de seus ancestrais contadas por ele, ora com alegria e admiração, ora com tristeza e amargura.

– A sua mãe – dizia o pai –  foi filha de um escravo reprodutor e eu o fruto de uma serva negra com homem europeu, provavelmente holandês. Nós somos a decorrência de muitas combinações genéticas, dessa forma a sua ascendência europeia por parte do lado paterno justifica, possivelmente, a razão da existência das cores diferenciadas de seu lindo par de olhos verdes. A história do negro brasileiro é a nossa história. Nossos ascendentes foram testemunhas do brilho da casa-grande e da obscuridade da senzala. Entre alegrias, o fim da escravatura foi uma triste realidade que jogou todos à própria sorte e o destino, após muita dor, quis que chegássemos a este local, onde vivemos até agora. É certo que os escravos nunca puderam ter os benefícios da abolição da escravidão porque, na realidade, continuaram cativos da pobreza. É também por isso que guardo os sofrimentos da vida assim como as pedras que choram sozinhas e sempre no mesmo lugar.

Escasseava quase tudo para uma sobrevivência digna, mas não faltava nunca o carinho de pai, seja nos gestos ou em seu olhar.

O tempo passa e muda tudo. Modifica vidas com o conhecer de pessoas que cruzam os caminhos. Assim aconteceu!

A memória dela foi apagando lentamente, pausadamente dando lugar, agora, para um homem branco, gentil que a carregava com palavras agradáveis, cativantes. De sua boca surgiam promessas de juras de amor eterno enaltecendo a cor de seus olhos. Cantarolando, palavras mágicas eram divulgadas em voz envolvente:

“Seus lindos olhos verdes

Translúcidos e serenos

Parecem dois amenos

Pedações de luar”.

 

Ela ficava deslumbrada e pedia bis quando ele lhe falava ao ouvido, bem baixinho: “foi Deus que fez do céu o rancho das estrelas, foi Deus quem fez você”. Ele continuou, por muito tempo declamando em termos singelos e voz harmoniosa propalando, entre outras a beleza do verão abrindo as cortinas do sertão, a vista do balcão da morada onde sobre a alcova do casal estava uma colcha de retalhos, arranjada por ela mesma juntando bocados e mais pedações e que serviu de abrigo para ambos, nas noites frias de inverno. A cada desconfiança, incerteza, enigma ou fracasso, a percepção de consecutivamente poder contar com ele era reconfortante. Foram amantes, cúmplices, companheiros, amigos durante a temporada que passaram juntos, e isso permitiu que esse período fosse tão longo quanto deveria.

Mas, assim como a relva esconde as enfloras orvalhadas e quase sempre crescidas nas beiras dos caminhos, um dia, como saindo de sonhos vãos, inesperadamente ela ouviu na voz, agora não cativante, numa verdadeira volúpia de proveito imediato, daquela boca saíram palavras, nada discretas, tal e qual a decisão da volta do boêmio às noites e aos bares da vida, dizendo alto e bom som:

− Hoje, eu te deixarei. Imploro perdão neste instante por estar partindo assim, tão repentinamente. Nunca me esquecerei de você!  Adeus, foi um prazer te conhecer!

Repentinamente, apareceu sem revelar-se de onde, não compreendendo o porquê e sem imaginar o que fazer, uma tristeza que vem do nada dominando a bela morena, ainda tentando descobrir por que isso acontecia, por que acontecia, sem acreditar significasse uma premonição. Levando suas mãos à face e escondendo os belos olhos verdes, quase desfalecida ainda encontrou forças para gritar, para implorar “Não se vá! ”

Foram vãs as suas suplicas: “Não quero dizer adeus! Não quero dizer adeus! “. Ainda aos gritos bradou “Alguém, por favor, diga logo quem foi que me roubou o amor? “

Ao longe, muito longe, podia se ouvir bem baixinho alguém tocando um violão e cantando em voz envolvente o final de uma canção:

“Aqueles olhos tristes
Pegaram-me tristeza
Deixando-me a crueza
De tão infeliz amor”.

 

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