Aquele Paciente

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(Presidente Prudente – SP)

medical-series-11-1485456Era uma tarde fria, meados de julho, quando ele chegou aqui.

Um paciente como os outros, assustado nos primeiros dias. Não falava, todos pensavam que fosse mudo. Exames, diagnóstico rápido. Assustador.

E foi passando o tempo, tratamento longo, o homem foi se soltando, até que resolveu falar. Pelos cantos do hospital, olhava para o nada e ameaçava:

– Quando Deus não estiver olhando, eu te mato, desgraçado.

Alguém lhe dava atenção, ele continuava… “E quando o Criador voltar seus sagrados olhos para mim, num piscar de olhos, torno a ser o exemplo a ser seguido, com impostos pagos em dia, carteira de vacinação em dia, religião milenar. Ele nunca vai me pegar”.

Percebia-se que não era um analfabeto, tinha um vocabulário muito bom para um louco. Mas, não era um paciente psiquiátrico, tratava de câncer na faringe, daí sua rouquidão crônica. Os médicos deduziam que os medicamentos afetavam sua memória. Não era agressivo, apenas assustava com suas palavras, principalmente aos mais religiosos:

– Eu sei enganá-Lo, Ele me espera no fim dos tempos para o acerto.

Alguém lhe dava atenção, ele continuava:

Não, não aquele acerto dos impostos, que sempre foram pagos em dia e no débito automático. Mas o Juízo final que a Irmã Olga me ensinou no catecismo, sobre fogo e ranger de dentes para os maus, ou o paraíso para os bons. Irmã Olga era legal, trazia biscoitos de aveia e limonada, mas Deus estava sempre do lado dela, então eu me comportava. Quando acabava a aula, era libertação, briga na saída, tocar a campainha da casa daquela velha gorda de língua estrangeira que ninguém entendia e…

Pecadinhos de infância, com este argumento alguém tentava calar aquela voz afônica, que continuava no mesmo assunto:

– hoje Deus não está do lado da Irmã Olga, porque ela morreu e está no cemitério.

O tempo passou, os funcionários, médicos e visitantes diários já estavam acostumados com ele. Contou toda a vida anterior à internação, desde a infância do catecismo de Irmã Olga, até o diagnóstico recente, perto dos 60 anos aparentes. Tinha muito menos, mas a doença veio com traços de sofrimento profundo, envelhecia-o. Não era mau, e já fazia parte do complexo hospitalar, devido ao longo tratamento. Mas tudo começou a ficar sério quando ele começou a ver a Irmã Olga, nos corredores do térreo:

– Veio me buscar, Irmã? Por que Deus não está do seu lado?

O médico oncologista que cuidava do tratamento dele, pediu uma intervenção do psiquiatra, que não via nada de anormal. E foi contrariado quando o paciente resolveu subir nos telhados do hospital, ficou claro o que ele queria lá naquela noite escura e chuvosa:

– Onde está você, Deus? A Irmã Olga está sozinha aqui, venha ajudá-la. Você não viu nada, eu te enganei, foi até fácil… ah, ah, ah.

Naquele dia os seguranças retiraram-no do telhado escorregadio, camisa de força, ala psiquiátrica. Ficaria por lá se não tivesse um exame estava marcado para o outro dia, na oncologia. Horário marcado, ele calmo, semblante sereno, nem precisava maiores cuidados com segurança. E surpreendentemente os exames deram negativo, a rouquidão deu lugar a uma voz límpida e suave.

Novos exames à tarde, confirmou-se o negativo.

Alta médica, a família precisava ser comunicada para vir buscá-lo, mas ninguém atende ao telefone. O plano de saúde pagou tudo sem contestações. Sai com a mesma roupa que chegou, depois de lavada e passada ficou elegante. Na saída, a recepcionista informa que tem uma encomenda para ele retirar.

Um pacote de papel de confeitarias antigas e uma garrafa térmica descartável. Já não se fabrica mais, há muito tempo.

– Ela cumpriu o prometido. Você pode me ajudar com o pacote?

A funcionária, atônita ao abrir o pacote e ver muitos biscoitos de aveia, deduziu o que havia na garrafa.

– Gosta de limonada?

Comem alguns biscoitos, limonada da garrafa, tchau.

Natural que muitos viessem acompanhar a saída dele, alguns eu creio que choravam. Na porta giratória que dá para a rua, chuva inesperada, ele sai assim mesmo, deixando os biscoitos que sobraram com o segurança.

Aliás, o segurança foi o único que ouviu quando ele cumprimentou a Irmã Olga à esquerda, fez uma reverência a Deus à direita, e seguiu feliz para o fim do dia. Alguns juram terem visto os três conversando animadamente até dobrar a esquina.

Outros negam esta versão, afirmam que ele falava sozinho.

Fato é que os biscoitos de aveia chegam diariamente à recepção, alguns dizem que é presente de Irmã Olga. Outros preferem a limonada que vem junto.

E nunca mais soubemos dele.

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