Apenas Uma Memória

 

 

 

 

(Araranguá – SC)

O homem de meia idade folheava o antigo álbum de fotografias da família, em busca de sonhos e desejos perdidos, emaranhados nas finas tramas do tempo. As fotos, amareladas pela eterna ação do esquecimento, davam um pouco de cor à camada sombria e escura do pesado livro de memórias. Lembrava apenas das mãos habilidosas que ousaram, num período anterior, estudar Fotografia. Cada folha trazia de volta uma ação de seu próprio passado, como uma máquina do tempo pessoal. A foto de dois exóticos dançarinos, preenchendo uma página inteira, iluminou seus pensamentos, trazendo de volta lembranças de uma época graciosa…

… Estar bem arrumado para encontros tão especiais era sua única preocupação. Geralmente, parecia saído de um calendário festivo, mas isso não tirava a beleza de seu sapatear. Em um desses momentos, eternizado em brasa viva, decidiu, por fim, não mais permanecer só. E ela, com seu sorriso encantador, cabelos de jasmim e olhos cor de esmeralda, disse o que todo homem buscava e ao mesmo tempo temia: “sim”. Foram dias felizes, de fato. Dias que poderiam durar a eternidade, se fosse possível. Mas então veio a guerra. E junto com ela, fotos em branco. Enquanto não pudesse guardar a beleza e sensibilidade do mundo para sua filha, jamais registraria o lado selvagem dos seres – assim chamados – racionais. O céu era seu único alento. O mesmo céu onde sua pequena, muito longe dali, contava estrelas. A granada veio sem aviso. A câmera, apontada para o crepúsculo, parecia predizer o futuro. E tudo, a partir dali, se perdeu…

Não sentia nada. Mesmo diante de tantas memórias resgatadas. Virou o álbum de uma só vez, buscando um último registro que fizesse sentido. Curiosamente, havia uma foto sua – vestia um casaco marrom, óculos redondos e já não havia sinal de cabelos em sua cabeça. Segurava um álbum de família e sorria de forma tímida ao ver uma foto de dois dançarinos. A mesma cena em que se encontrava.

Sentiu sua breve consciência se esvair. Como se nuvens se desfizessem e revelassem que as malhas do tempo formavam um cachecol, entendeu que sua esposa e sua filha estavam bem, mesmo sem sua presença. Chegara à única conclusão possível ao notar que, na realidade, não eram suas mãos a segurar o álbum.

Mas as mãos de uma jovem quieta e sorridente. Poderia, enfim, descansar em paz, junto aos seus antepassados. Afinal, o homem que folheava um antigo álbum de família, em busca de sonhos e desejos perdidos, era apenas uma memória.

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