Ao Calor da Lareira

assin-lorde

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

“Aboseire-se” (sente-se) aí elareira coma deste “solapado” (pão que não cresceu).

– Não sei se possa, com este guieiro tenho os dedos encarquilhados com tanto “barbeiro” (frio).

-Nesse caso, escarranche-se perto da fogueira, mas cuidado com as frieiras.

-Não te apoquentes cachopa que desse mal me cuido eu, o pior é este andaço (mal) que me persegue há mais de “três quinze dias”. Se calhar foi aquela morrinha que apanhei pelo São Martinho.

– Vossemecê faz-me rir com essa da morrinha, esqueceu-se que foi acareando quantas qualidades de vinho havia lá na feira, depois admira-se da má disposição.

– Mas olha que não o bebi todo não!

– Mas deixe estar que o seu quinhão, vossemecê não o deixou ficar pros outros. Viu como é que chegou a casa?

– Bem, a ver, a modos que não vi, mas que cheguei isso não podes negar.

– Pois é, como é que pode ter visto se chegou a dormir, carregado pelo Zé Carrapeta e o Chico do táxi. Grande carraspana hem, senhor meu pai?

– Bom moço, esse Zé Carrapeta! Trabalhador, amigo do seu amigo e filho de gente boa. Era rapaz que aceitava para meu genro de olhos fechados. Oh Maria tu…

– É lá! Pode parar com essas fantasias. O homem que casar comigo, tem que me conquistar e não ao senhor meu pai pagando-lhe rodadas na taverna.

     – Não te faças difícil pequena. O rapaz ´vem de gente que tem muito de seu, fruto de muito trabalho e poupança. Lembro-me ainda do ti Adolfo, o avô dele e das dificuldades naquele tempo em que a fartura que se tinha era água e mais água. Os campos encharcados não se puderam semear a tempo e com isso a fome era mais que uma ameaça. O ti Adolfo com restos de farinha mandou cozer pão. Depois de distribuir pelos filhos restou uma broa. Cheio de fome interrogava-se se havia de a comer: «Se te como, não te tenho. Se te tenho não te como».

– Essa é para rir!

– Parece uma piada, mas não. Para ele, o facto de dispor daquele alimento ali à mão de se comer significava que estava numa situação bem melhor que a maioria dos seus conterrâneos. Pelo menos, tinha uma broa para mitigar a malvada (fome), mas pensava que se a comesse ao outro dia nada tinha e continuava miserável como sempre. De repente, uma ideia veio-lhe à cabeça. Embrulhou a broa no melhor pano de linho que tinha e foi levá-la ao escrivão do tribunal.

– Ó gente burra, santo Deus! Então o homem cheio de fome e foi dar o pão a outro que não precisava.

– Aí é que estás enganada. O escrivão era rico, mas o dinheiro não podia comprar o que não existia. E foi comovido que agradeceu a broa.

– Desculpe-me lá meu pai, o que é que o tolo do ti Afonso ganhou com isso, para além de uma barrigada de fome?

– Ganhou a sorte grande. O agradecido escrivão arrendou-lhe as melhores terras que tinha, e ainda se prontificou a emprestar-lhe dinheiro para comprar outras que se vendiam na altura por dez reis de mel coado, dizendo que os seus caseiros nunca lhe tinham feito um agrado desses.

Entretanto com racionamento, todos tiveram hipóteses de um punhado de farinha para cozer o pão. Não voltou a faltar o pão em casa do escrivão mercê das diligências do ti Afonso que conseguiu trocar senhas de produtos que não consumia por farinha com que agraciava o escrivão.

Como vês, de um homem que pouco ou nada tinha de seu se transformou no labrador que conhecestes. O Zé Carrapeta, seu neto, como herdeiro não tens melhor cá na terra e vem de boa cepa.

– Está tudo muito bem, mas continuo na minha, é a mim que ele tem que agradar e para isso tem todo o caminho livre. Mas se prefere passar o tempo com o meu pai em vez de namorar comigo. Juntem os trapinhos e amanhem-se os dois.

– À filha desnaturada, por quem me tomas?

– Ora, ora! Por um velho casamenteiro que já não se lembra como as coisas se fazem.

cometario

 

2 thoughts to “Ao Calor da Lareira”

  1. Como sempre um conto com a marca “uma casa portuguesa, com certeza!”.
    Só não consegui “decifrar” (desculpe o termo usado) o TI Afonso. Ti seria o TIO? A mim parece que sim, apesar de ter me levado à lembrança a Titi de Eça de Queirós em A Relíquia. Em tempo quero informar que sempre fui a favor de Titi e fiquei satisfeito quando ela puniu o vigarista Teodorico não com a sua fortuna mas apenas com o legado de seus óculos!
    (ADOOOOOORO EÇA DE QUEIRÓS!)

    1. Sim, aqui o diminutivo de tio é muitas vezes empregue nas pessoas de certa idade das quais gostamos ou pelo menos respeitamos, e carinhosamente de Ti António ou Ti Maria. Já no seio familiar também se emprega, pelos mais pequenos, Titi como diminutivo de tia ou tio. Já estou nesse escalão, ainda que essa honra venha da voz de um amiguinho que passa muitas horas cá em casa, sem que entre nós haja algum grau de parentesco, É netos dos vizinhos de frente. Eça de Queiroz, não é de todo o meu favorito, embora tenha todos os livros dele, sou mais Aquilino Ribeiro. Um abraço.

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