Amantes

maõs dadasFlavio Dias Semim

   Até que foi lindo! Juventude, amor e admiração os levaram ao casamento. Tudo era belo, romântico em suas ocasiões, afortunado enquanto durou a felicidade, contudo foi declinando com o passar do tempo, não o amor, mas o tratamento, a convivência, o dia a dia, o lado a lado. Caíram no vazio as possibilidades no atendimento as juras que se pudesse lhe daria tudo, o mundo todo.

   Após alguns anos de convívio chega rotineiramente a casa um pouco cansado após o trabalho e já ouve algumas reclamações vindas lá da cozinha ou da área de serviço, produzidas pela esposa também enfadada, cabelos e vestes desalinhados e três filhos para cuidar, dois púberes. Suas roupas já não demostram o corpo esbelto, mas uma carcaça sofrida pelo tempo e tarefas caseiras. Brigas domésticas ainda são percebidas pela coexistência diária de mãe com filhos adolescentes, rebeldes e indolentes por natureza. Gritos de “parem com isso” eclodem no ambiente a cada instante. O cachorro late seguidamente até acuar com um berro de ordem.

   Em seguida a um banho breve jantou sozinho um prato de comida arranjado por ele mesmo após a evaporação do cheiro de fritura ter ocupado a cozinha. Um café esquentado foi a sobremesa e a televisão ligada num canal qualquer o seguimento do dia. Enquanto mal prestava atenção no noticiário ouvia as queixas dela pelas mazelas dos filhos, do excesso de trabalho, do futuro sem perspectivas, do dia a dia sofrido, das dores pelo corpo que a atormentavam.

   Procurava compreendê-la e as tentativas de reparar os males ou serenar os desentendimentos se tornavam quase sempre inúteis e a sensação de aborrecimento o seguia por todas as horas que deveriam ser de satisfação. O desconsolo da vida vivida e a vida por viver comprometiam o trabalho, o lazer, as obrigações, os amigos, a saúde e se transformavam numa corriqueira rotina desacompanhada de qualquer alegria.

   Seguindo a costume da vida, a usualidade de seus afazeres um dia conheceu, e nem se recorda como, outra forma de existência e sucedeu frequentar com assiduidade esse outro ambiente, novo mundo já considerado tão envolvente, não sem muita hesitação anterior.

   Após cada dia de trabalho, seu caminho passou a ser diverso e ao chegar ao destino a porta onde um delicado recado propositalmente pregado a altura dos olhos mostrava em letras caprichadas: “estou te esperando” e se abria após leve bater com a dobra do dedo maior de uma das mãos. Na passagem um belo e alegre sorriso saudava explicitamente as boas-vindas ao recém-chegado. Entre tantas outras gentilezas, um par de chinelos já se encontra do lado de dentro prontos para uso, à moda oriental. O boa-noite carinhoso, delicadamente murmurado por uma voz doce ressoava agradavelmente em seus ouvidos. Banho morno já estava preparado e felpuda toalha aquecida o esperava para cobri-lo. Suspenso pelo cabide atrás da porta aquele roupão impecável, apenas ele se tornaria a vestimenta da noite tal qual o manto de um rei. Eficiente e delicada massagem aplicada em seus ombros mandava para o infinito as zangas do dia.

   Dois vistosos coquetéis preparados com cuidado e capricho eram tragados por ambos, numa forma de conspiração e agradecimentos pela ocasião.

   O jantar simples, mas disposto de tal forma a demonstrar a meiguice da cena arrancava do homem sensações de bem-estar não a luz de velas como nos romances juvenis, porém de uma delicadeza impar, um recinto de calma e afeição, local de tranquilidade irrestrita. O som ambiente em volume quase imperceptível tacitamente convidava a dupla bailar e aprazível aroma de gardênias completava o recinto.

   O repouso a seguir precedia de amabilidades, de carinho explícito, também de risos e zombarias afetuosas. O apego entre aquelas duas pessoas encantava pelo afeto existente, porém necessitavam imensamente de seu sentido oculto motivado pela forma de viverem a dois, do feitio no permanecer juntos.

   A cena seguinte, palco da motivação entre duas criaturas que namoravam exaltadas pelo bem-querer, pela felicidade, culminavam no entrelace de seus corpos despidos e os murmúrios de excitação entre ambos pronunciados uns a cada vez:

   ─ Ricardo, meu amor…

   ─ Pablo, querido…

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