Alvorecer

 

 

 

 

(Salvador – BA)

Carol tinha o hábito de dormir cedo. Aquele ano era especial. Tinha iniciado o segundo grau. Antes das vinte e uma horas já tinha realizado seus estudos, revisado seus materiais e deixado tudo arrumado para dia seguinte. Sempre era assim e antes de adormecer entregava-se a alguma leitura. Desde cedo foi leitora voraz. Cumpria a rotina: passava no quarto ao lado para o beijo familiar da noite. Enquanto isto, sua irmã, uma pré-adolescente já dormia sossegada na outra cama ao lado da sua.

– Pai, me acorde amanhã viu! – Com uma voz suave e firme expressou seu último desejo antes de navegar em seus sonhos.

A noite mal acontecia. As constantes inquietações, as viradas na cama, aquela dor inoportuna na cervical e a luz que rasgava a cortina em seus movimentos atingindo-me bem de frente, não tinham deixado realizar o meu sono. Agora o alvorecer acontecia. Alguns pássaros iniciavam seus cantos matinais. A luz amarelada enfraquecida começava a ganhar forças nos seus primeiros raios. O dia paulatinamente começava.

O silêncio do quarto e da casa me informam que sou o primeiro a despertar. Sou testemunha do silêncio noturno que aos poucos vai sendo quebrado pelo amanhecer. Corpo ainda paralisado pela noite mal dormida. Estico as pernas, movimento os pés e contraio a coluna, mantendo meu corpo tocando o colchão pelas extremidades. Espreguiço-me. Aos poucos assumo o controle corporal e acendo a consciência de mim e de tudo que me cerca. Começo a existir. Trago as vivências, as lembranças e a teia contínua da vida.

Antes de ir ao espelho lavar o meu rosto ou ir ao sanitário devo acordar minha filha, ela terá aula em uma hora. Abro a porta do quarto, desligo a luz sentinela da escada. Abro devagar a porta do seu quarto. Neste instante eu não existo, o sol não existe, nem mesmo o barulho musical dos pássaros na manhã. Não existimos para ela. Ela não tem consciência de nós. Continuamos o nosso movimento solitário de rotação.

Tenho que acordá-la. Com palavras leves e toques suaves a trago de volta para a existência. Tudo transcorre rápido: ir ao banheiro, tomar o banho, arrumar os cabelos. Vestir-se. Come-se algo, bebemos o café com leite e já estamos de saída. Aquela rotina também é imposta a outras vidas. Vejo algumas nos seus movimentos matutinos.

Antes de chegarmos ao carro vou olhar os três caroços de jambo que há quinze dias plantei no jardim. Observo que o primeiro sinal da germinação acontece. Vejo um broto verde. A força daquele acontecimento me paralisa. Por alguns instantes fico preso diante da vida que acaba de se manifestar. Então a protejo. Coloco um pouco d’água. E sigo. A vida agora já se realiza mais plenamente. O dia acontece. Transeuntes apressados. Compromissos marcados e a vida que segue numa vertigem temporal com um aparente sentido no universo.

Aquela manhã passou muito rápida, como de costume. Às doze e trinta estaria novamente a espera de Carol numa rua próxima à sua escola. Fica há alguns metros da portaria principal. Era uma rua tranquila. Sempre debaixo de uma amendoeira, defronte ao bar de dona Maria. Ali, observava o movimento dos fregueses. Conversas soltas. Futebol do final de semana e os acontecimentos recentes. Era tudo bem trivial.

Pelo retrovisor avistei Carol descendo a rua. Agarrava-se a um buquê de rosas. O seu largo sorriso e o perfume das flores era uma só essência que a fazia flutuar naquele instante. Algo mágico acontecia ali, não sabia o que, mas minha alma foi tocada por aquele momento.

– Pai! Leandro me pediu para namorar. Foi lindo, Pai! – Estava atônita, embriagada pelo acontecimento. Via nos seus lábios, na sua face, nos seus olhos, tudo era a mais viva expressão do amor e o encanto acontecia.

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