Álgido

 

 

 

 

(Juazeiro do Norte – CE)

Acordei com o barulho da chaleira. Não lembrava de ter colocado no fogo. Era cedo e era frio. Recuei o pé rápido por lembrar que o quarto ainda não tinha tapete. As dúvidas vieram e se foram enquanto eu me espreguiçava. Era o 176º dia e não houvera resposta. Ainda havia angústia dentro de mim.

As escadas rangiam junto das minhas articulações enquanto descia e a cada passo eu sentia o peso do mundo ser apoiado em cada perna. A cada dia ficava um pouco mais leve, a cada hora ficava um pouco mais pesado. A TV ainda estava ligada e ainda havia cerveja sob a mesa. Apenas uma cadeira continuava afastada das demais.

Continuei até a cozinha e a luz do sol ainda era fraca, um raio frio de luz que se esgueirava pela janela da cozinha, através das árvores do lado de fora. “Paz gélida” como era chamada aquele pequeno frame de uma memória que eu revivia todos os dias. Fiz o café e coloquei na caneca lascada, fumegava o aroma. Não me lembro exatamente de ter passando a manteiga nas torradas, mas lembro de colocá-las em dois pratos.

O som dos ponteiros no relógio sob a geladeira era o único barulho que ouvia. Empurrei os goles do café garganta a dentro junto das torradas. Empilhei os pratos sob a pia e pus um pouco mais de café antes de calçar as botas e abrir a porta.

Uma brisa sacudiu os cabelos em minha testa, fria como o vento da manhã recém-nascida, revigorante. O cheiro do café se confundia com o orvalho e a grama. Chovera na noite anterior, nada de tempestade, tumultuada o suficiente para embalar o sono de um velho. Eu fechei os olhos enquanto caminhava, cada vez mais longe de casa e cada vez mais longe das memórias.

A velha camisa xadrez de flanela se apoiou na madeira da cerca quando me inclinei para mais um gole; o sol, montanha acima, começava a afugentar um pouco do frio e deixando aquele púrpura-sépia cada vez mais azulado como a manhã de um dia alegre. Olhei de relance para a porta aberta atrás de mim. Sonhos pareciam escapar de dentro da construção, senti vontade de fechar a porta e aproveitar cada um deles ali dentro, mas recuei, inspirei o ar da manhã e deixei os demônios desaparecerem.

As vacas e bezerros ainda dormiam dentro do celeiro, um sono ainda mais profundo do que eu jamais tive. As plantações continuavam a dormir desde o dia que brotaram, apenas testemunhando grunhidos e ofegância dos meus trabalhos braçais. Um companheirismo que jamais pude reclamar.

Não havia mais pássaros. Uma manhã quieta desde que voaram para o sul e me deixara sob a luz do sol e da lua, sozinho. Lembro-me de ter respirado fundo, de ter deixado o ar que entrava percorrer o sistema e organizar as ideias da minha cabeça, enquanto admirava o horizonte da paisagem rural no coração do Texas.

Por toda a minha vida, procurei ser feliz. Nada mais, ou talvez tudo isso. Me desviei de caminhos e entrei em atalhos que me trouxeram frustrações e dor numa rodovia que poderia ter sido diferente se eu tivesse sido mais corajoso. Medo. Era tudo o que eu sentia. Aceitação. Era tudo o que eu buscava. Felicidade, era tudo o que eu queria. Sofri e me deixei machucar procurando a felicidade em pequenos momentos, ao invés da figura total que ilustrava a minha vida. O silêncio era tortura, e o silêncio é tortura. Mas agora me fez entender: Tempo. Bravura. Vontade. Atravessei continentes internos para chegar até este nascer de sol, Atravesseis noites que eu tornava eternas sob o lençol de uma cama fria e suada. Chorei, e chorei ainda mais quando ela se foi. A âncora se levantou e ela partiu para outro mar em um outro oceano.

Acordo todos os dias sonhando com essa mesma imagem: A casa na fazenda, o ar frio sob o céu, na solidão que acolhe e não julga. Onde eu existo sob o meu mundo e meus desejos. Onde as dores se tornam cicatrizes. Onde, enfim, aprendi a viver.

 

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