Alegrias

 

 

 

 

(São Paulo – SP)

Como sempre, o caminhão da Prefeitura circularia a praça da matriz, pararia no primeiro cruzamento, e recolheria o que encontrasse amontoado na calçada.

Mesmo sendo uma cidade pequena, os funcionários não teriam tempo para papear. Era agarrar todo o lixo, jogar para dentro do compactador, e seguir adiante até o próximo monte.

Mas porque houvesse pouca coisa para ser recolhida, apenas um dos lixeiros saltou da traseira do veículo e começou a fazer o trabalho.

O outro permaneceu a postos com as mãos nas alavancas, esperando que o último saco fosse jogado.

Mas no momento em que a placa de metal descia para esmagar todo aquele monturo, o gari que a operava pôde distinguir um último pedido de socorro, um derradeiro lamento de bebê.

No mesmo instante, ele abortou o ciclo de compactação, e gritou para os companheiros pedindo ajuda!

Por entre sacos plásticos, encontraram uma caixa de sapatos, furada na tampa e amarrada com barbante. Ao abrirem, depararam-se com uma recém-nascida; ela ainda respirava, mas com muita dificuldade.

Como o hospital público ficava a poucos quarteirões, enrolaram o nenê em um casaco e o motorista pisou fundo no acelerador.

Graças a uma generosa doação dos comerciantes locais, a UTI não fora desativada, e a criança permaneceu internada pelo tempo necessário à sua recuperação.

Vencidas todas as batalhas pela vida, e os médicos concordaram que nenhum outro nome caberia à criancinha, a não ser Vitória.

Mas para que a alegria fosse completa, três eventos ainda teriam que ocorrer.

O primeiro aconteceu quando o lixeiro que salvara Vitória ficou sabendo que ela não corria mais perigo. A afeição que sentia pela pobrezinha era tão grande que ele, engolindo a timidez, pediu ao seu chefe uma licença especial para faltar ao serviço, e, assim, poder ir visitá-la no hospital.

É claro que muita gente também soube da novidade… Daí que ele foi eleito herói pela imprensa e aclamado pelos munícipes, o que lhe proporcionou alguns minutos de fama, um prêmio em dinheiro concedido pela Câmara de Vereadores, e a chave da cidade, visto que o prefeito não quis ficar para trás.

O segundo veio de uma das intensivistas que cuidou de Vitória, e de seu marido, também médico. Casados há três anos, descobriram que ela era estéril. Pois não pensaram duas vezes e entraram com um pedido de adoção.

Percorridos os trâmites legais, e a órfã ganhou um lar.

Ambas as famílias ficaram radiantes, e os mimos dos quatro avós pareciam não ter fim. Aliás, a frequência com que a visitavam, e a presenteavam, acabou gerando um certo desconforto familiar, o que fez com que seus pais, Sandra e Pedro, tivessem que impor – gentil, mas firmemente – alguns limites àquelas condutas.

Em seu primeiro aniversário, Vitória estava longe de parecer aquela enjeitada que fora encontrada no caminhão de lixo. Parecia, sim, uma princesa saída de um conto de fadas, pois vestiram-na com apuro, conquistara bochechas gorduchas e rosadas, e era dona de um sorriso que só os que renascem sabem exprimir.

A paz de que desfrutavam, contudo, e que parecia eterna, acabaria sendo abalada por um triste revés.

Em uma dada manhã, Sandra recebeu uma citação. Era a mãe biológica de Vitória que, arrependida, resolvera reclamar a filha na Justiça.

Não se precisaria dizer o inferno em que se transformou a vida de todos os envolvidos!…

No entanto, a reprovável ação praticada, o abandono para morrer, a sua real condição econômica, teve que se socorrer da justiça gratuita, e, sobretudo, a sua fama mais que duvidosa, e que foi cabalmente comprovada em juízo, fizeram com que o pedido da autora fosse para sempre rechaçado, o que levou o tão esperado alívio aos corações atormentados.

Passada a tempestade, e a família de Vitória achou que uns dias de folga viriam bem a calhar. Afinal, todos queriam esquecer o que acabaram de passar, e o sossego era a melhor das recomendações.

E de comum acordo, optaram por um hotel fazenda situado em uma cidade próxima.

Houve, é claro, alguns choramingos por parte dos quatro avós… Mas foram logo dissipados, ante a promessa solene de que eles também iriam, numa próxima viagem.

No sábado, levantaram-se antes mesmo da aurora, pois queriam aproveitar ao máximo o período contratado.

E se foram pela estrada; Sandra, no banco detrás, velando o seu maior tesouro.

Quando faltavam menos de vinte quilômetros para chegarem ao hotel, Pedro notou que a direção pendia para a direita, e resolveu encostar.

Um prego penetrara o pneu, e ele esvaziava. O jeito era trocá-lo o mais rápido possível, e seguir viagem.

Sandra aproveitou esta “providencial coincidência” para amamentar a filha, que já reclamava a barriguinha vazia.

Quando Pedro começou a trocar o pneu, ouviu um choro estridente que vinha detrás de uma moita. Ao se aproximar, topou com o futuro irmãozinho de Vitória, que jazia faminto em um humilde berço. A alegria, enfim, se completava.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *