Acordando no Pesadelo das Nossas Vidas Reais

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(Patos de Minas – MG)

beijoHoje, acho que intimamente, o que eu mais temia tinha acabado de acontecer. Acordei sozinho em minha cama, estático, estirado, descoberto e nu. Não simplesmente estava só, mas me faltava algo, algo que eu tinha acabado de perder, algo que me era muito precioso, do qual eu tinha muito apreço e afeto.

Ontem ela veio durante madrugada até mim, de surpresa, em prantos, esmurrando a porta do meu apartamento e me gritando. Nunca a tinha visto daquele jeito, nunca fiz com que ela chorasse daquele jeito – creio que isso seja bom -. Eu estava do mesmo jeito de sempre, tirando a cara de espanto e estranhamento pela situação, uma roupa folgada qualquer, um copo na mão e cheirando a fumaça de cigarro.

Alguns minutos depois, quando finalmente se sentou em meu sofá e se acalmou, veio o tiro à queima-roupa, direto em meu peito. Sem mais delongas ela me disse o que havia acontecido. Que havia beijado outro homem, poucas horas atrás, antes de cair em prantos e vir me torturar com essa maldita imagem em minha cabeça.

Naquele momento eu fiquei sem reação. Parecia que eu tinha saído do meu corpo e estava vendo aquela cena toda acontecendo de camarote, em meu apartamento, ao mesmo tempo em que eu atuava, eu também sofria, sentindo algo que eu nunca havia sentido antes.

Ela disse que não sabia o porquê de ter feito aquilo, ter o beijado, que não era por algo que eu tinha a feito sentir, não foi por pura vingança de algo que eu fiz e não foi, muito menos, por causa das nossas últimas brigas. Ela só ficava repetindo e repetindo que ele era completamente, inteiramente o meu oposto. Eu não entendia como isso poderia amenizar aquela situação, mas eu não conseguia me mexer e nem balbuciar nada enquanto ela continuava falando.

Na minha concepção, era apenas ela falando que não amava ele, mas sim a mim, tentando justificar para mim da besteira que fez e tentando se convencer disso. Mas a realidade é bem mais profunda e dolorosa do que simplesmente isso. Na verdade, ela estava dizendo que ele era tudo que eu não era e que ela gostaria que eu fosse. Um homem sensível com tudo, romântico o tempo todo com ela, atencioso com as necessidades dela, companheiro, sem grandes vícios autodestrutivos, comprometido só com a nossa relação, com um emprego de verdade e estável, que pensasse em um futuro em longo prazo, juntos, e não só no próximo dia.

Depois do seu monólogo sobre como eu não era bom para ela e tudo aquilo era culpa minha, lembro-me apenas de ter pegado a minha carteira e saído do apartamento como se eu tivesse visto um fantasma lá dentro. Aquilo tudo não parecia mais fazer parte de mim ou seria eu que não fazia mais parte daquilo tudo? Eu caminhava para fora do prédio e a sensação era de sentir que ele desmoronava atrás de mim.

Eu bebi como se amanhã eu não quisesse estar vivo. Não dei uma palavra se quer a noite toda. Eu apenas acenava e um garçom amigo deixava mais um copo de alguma vodca barata em minha mesa. Os meus olhos permaneceram arregalados a noite toda. Eu parecia estar em choque durante a bebedeira toda.

Eu não me senti traído, na verdade, mas sim enganado. Não pelo beijo – duvido que tenha sido apenas um – ou quem sabe, por terem transado por algumas horas seguidas, mas sim por ela desejar coisas que ela nunca achou em mim, mesmo sempre dizendo que estava feliz ao meu lado e que me amava do jeito que eu era. Senti-me quente, como se meu corpo queimasse de dentro para fora. Ninguém nunca havia feito eu me sentir assim antes.

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