A Vingança

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

 

A raiva que o consumia crescia com o transporte, às costas, do barril de água para o forte. Faltavam dois meses para regressar à sua Unidade. Que seria do maldito oficial que o esbofeteara em plena parada? Único culpado do martírio que sofria com o chocalhar do barril de água, meio cheio, para o castigar mais.

Acabada a pena, que estaria pra breve, iria para o Ultramar. Aí, de arma na mão os oficiais tinham respeito, o medo de uma bala perdida, fazia-os respeitar os soldados como homens e não como meros bonecos sujeitos ao capricho de um “oficialzeco”, como o maldito culpado da sua desgraça, quando lhe respondeu com um soco nas ventas. Preso e sem recurso de defesa, foi punido com seis meses de prisão no maldito forte.

Como previra, passados dois meses, embarcou para Moçambique integrado numa companhia de atiradores. A raiva para com o amaldiçoado oficial não se apagava, antes aumentava cada vez que o seu pelotão sofria uma emboscada. Temia algum desaire, não que fosse covarde, mas que tombasse sem satisfazer o seu desejo de vingança.

Soube que o maldito oficial comandava uma companhia no norte. Zona bastante assolada pelo inimigo, daí que o comandante se surpreendera com o pedido da sua transferência para lá.

Barbudo e envelhecido, ninguém suporia, que ele era o mesmo jovem que na metrópole agredira um oficial, tampouco este o reconheceu, ou fingiu, quando se apresentou.

Para seu desespero raramente via o capitão, quase sempre no gabinete, e a hipótese de o apanhar no mato era nula. Gorava-se assim a oportunidade de lhe mandar um balázio, em resposta às constantes emboscadas que sofriam, mas o covarde havia de as pagar antes de regressar à metrópole.

A Companhia, para além de alguns naturais, parecia ter sido escolhida a dedo. Parecendo-lhe serem homens pouco amantes da disciplina que ali estariam por castigo.

Não havia as tradicionais saudações militares, e onde os oficiais, sargentos e praças se confundiam, sem divisas ou galões que os diferenciassem. Barbudos, fardamento a pedir troca, era a parada deserta de formaturas, apenas um local para se correr atrás de uma bola, quando o calor permitia.

Aos poucos, foi vendo o carácter daqueles homens que se recusavam a falar do passado. Mas era debaixo de fogo que a coragem e a entreajuda faziam jus à fama de Lobos, como se autodenominavam.

Admirou-se por ver que o maldito era um comandante respeitado, pela bravura demonstrada durantes os constantes ataques ao aquartelamento. Sempre na linha da frente, respondia e incentivava os seus homens, com total desprezo pela morte. Não assistira a nenhuma dessas situações, mas mesmo que o presenciasse, isso não seria atenuante para a covardia de o ter esbofeteado em plena parada como se fosse um garoto.

Uma companhia de comandos reforçou o aquartelamento. Uma operação de grande vulto estava iminente. Nas vésperas tiveram a informação que o capitão e os seus homens seguiriam incorporados com os comandos, à frente, por serem conhecedores do terreno. Era a oportunidade há muito esperada. A sua vingança estava para breve. Finalmente o maldito iria pagá-las.

Seguiam em fila indiana pelo trilho que um natural indicava. Estavam a pouco menos de três centenas de metros da base inimiga. Avançavam agora lentamente, evitando algum ruído que pudesse alertar as sentinelas.

Um clic estarreceu toda a gente. Ele que seguia à frente do capitão, logo atrás do guia, tinha pisado uma mina antipessoal. O comandante da força pediu para não se mexer evitando que ela explodisse e pusesse em risco toda a operação. Suando a estopinhas, ali ficou estático enquanto os camaradas com ar de comiseração passavam de lado.

Os minutos que se seguiram, pareceram-lhe horas, estava condenado. Sozinho, imaginava que mesmo que saltasse para o lado o mínimo que aconteceria era ficar estropiado, mas não seria por causa dele que operação fracassaria. Tinha que aguentar. A perna parecia-lhe tremer, uma cãibra tornava a posição dolorosa.

O matraquear das automáticas indicava que a operação já estava a decorrer. Pela primeira vez iria render-se ao seu destino, e morrer. Para trás ficava a sua vingança por concretizar. Mentalmente rezou uma oração e preparou-se para levantar a bota, no preciso momento que ouviu um berro:

– Quieto, não te mexas, eu tiro-te daí, ou morremos os dois! – Gritou o capitão que voltara para trás, após o início do combate.

Com aponta da faca foi escavando em volta, até conseguir entalá-la entre a bota e o dispositivo. O suor beijava-os naqueles minutos que pareciam uma eternidade, um peso semelhante ao dele foi colocado em cima da bota descalçada, comprimida entre as mãos suadas do capitão. Pouco depois, a uma só voz saltaram ilesos. Os comandos regressavam. A operação fora um sucesso graças à coragem daquele soldado. Um abraço entre dois homens culminou numa amizade que principiara no ódio.

4 thoughts to “A Vingança”

  1. Como sempre um conto que prende a atenção do começo ao fim. mestre Lorde. Entre tantas, as ponderações sobre uma calcinha preta, as peripécias de um cão ou a vida na caserna são delineadas com habilidade e sensibilidade. Fico sempre à espera de suas estórias!

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