A Última Ceia

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

Naquele tempo, os discípulos de Jesus programaram o que seria conhecido para a posteridade como a Última Ceia.

A azáfama dos preparativos fez andar numa fona, o irmão de Pedro, Pedro que ainda não era Pedro, mas Simão, um rude pescador que não se ensaiava nada para assentar a mãozona na tromba do primeiro que se armasse em esperto. O irmão de Pedro, de seu nome André, como discípulo mais novo – convém esclarecer que discípulo era equivalente a aprendiz – tocou-lhe ir ao mercado regatear os ingredientes pra festança. André ainda refilou que era só ele, só ele, mas a cara feia de Tiago, filho de Zebedeu, fez-lhe ver que ou obedecia ou sentia o peso da mão, não de Pedro, que nesta altura procurava fazer uma lavagem ao cérebro, com o fito de dar outra face a quem lhe desse uma lambisca, mas de Tiago, também amigo de molhar a sopa.

Foi uma carga de trabalhos fazer render as poucas moedas que lhe deram para as compras. No entanto, mercê do seu bom relacionamento com os comerciantes locais, regateou até à exaustão e sem querer, deixou escapar que talvez Mateus conseguisse preço melhor. A mudança de semblante dos vendedores do mercado e a descida abrupta dos preços, perante a possível visita do cobrador de impostos, fê-lo questionar sobre o valor de um bom nome na praça.

Com o resto moedas, havia que comprar pão e…

– Então André, como vão as compras? – Pergunta Judas Iscariotes.

– Olha, é como vês – disse André mostrando o peru e as duas moedas que sobraram.

Os olhos luziram à vista das moedas, mas contendo-se, Judas exclamou:

– Grande festa vai ser com tamanho peru! Aqui para nós, tu desculpa por seres pescador, mas desde o milagre dos peixes que não posso ver escamas à minha frente. Bom, bom, seria um ensopadito de borrego, mas com tanto pecador nesta terra, passam a vida fazer oferendas como forma de obterem o perdão do Senhor, e quem se amola é aqui o Judas, que há bastante tempo não ferra o dente em tal petisco.

– Não sejas herege Judas!… Leva tu o peru enquanto negoceio o pão e vinho. Vinho que bem escusaríamos de comprar se o Mestre fizesse um “milagrezito” como fez nas bodas de Caná. Ah!… E diz também à malta que vão preparando a fogueira e uma mesa bastante grande que dê para todos, não é estarem sempre à espera do pobre do André.

Judas assegurou-lhe que ele mesmo cozinharia o peru. Assim baseado nos conhecimentos gastronómicos herdados da mamã, assou o peru de tal forma que só de olhar para ele crescia água na boca.

O tempo passava, os irmãos e o mestre em passeio pelo jardim das oliveiras prevendo a safra de azeite que dariam, deram tempo a que Judas meio “esgalgueirado” não resistisse e tirasse uma perna ao peru, saciando a gula. Logo a seguir veio-lhe o arrependimento, um maldito sentimento que só lhe dava dissabores, assim com mestria, conseguiu ajeitar o peru que o infeliz parecia ter nascido coxo.

Na ceia era grande a alegria perante tão rica mesa, André, sempre André, esquartejava o peru dando uma das coxas ao Mestre, a outra seria para o mano Pedro por uma questão de hierarquia e por duvidar se o tratamento de choque de dar a outra face tinha resultado, evitando com isso algum pontapé no fundo da rabadilha.

Assustado, viu que lhe faltava a outra coxa.

– Quem palmou a outra coxa – Perguntou, ao que Judas respondeu:

– Irmão André, tento na língua! Ou tu achas que eu não vi que o peru só tinha uma perna? Acontece, desígnios do Senhor, a muitas aves nascerem coxas.

A discussão estalou-se, com Jesus dizendo Comei e Bebei todos, e “calai-vos”! Esta parte não consta no discurso oficial, mas que outra forma haveria para acalmar os beligerantes e não estragar a ceia?

Todos se acalmaram menos André, que estava capaz de se agarrar ao pescoço do aldravão do Judas, quiçá, dar uma bofetada na moleirinha daquele trafulha.

André com olhos suplicantes olhava para Jesus, que lhe sorriu. Tréguas aproveitadas por Judas que, olhando para um galo apoiado numa pata e com a outra recolhida descansava dessa forma, a fim de estar desperto à meia-noite e cantar três vezes, disse:

– Irmãos, é tão verdade que o peru só tinha uma perna como aquele galo também ser coxo!

Jesus vendo o sofisma de Judas, bateu as palmas e o galo assustado apoiou-se na outra pata e desandou. Corado, Judas ainda exclamou:

– Lá estás tu Mestre, com essa mania dos milagres!

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