A Trovoada e a Bicicleta

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

O tempo escurecia, com a temperatura demasiado alta para a época só poderia ser prenúncio a uma trovoada das grossas. O negrume acentuava-se a cada minuto, dando forças ao jovem Simão para pedalar como nunca o fizera. Faltavam ainda meia dúzia de quilómetros para percorrer, pelo meio da mata, até chegar a casa.

Os pinheiros que ladeavam a estreita estrada, gigantes que com a sua sombra faziam delícias aos caminhantes no verão, eram agora monstros enormes que oscilavam apesar da sua robustez, à fúria dos ventos.

O medo de algum tombar e na sua queda o esmagar, dava-lhe forças para pedalar de forma desesperada. Os trovões já se faziam ouvir. O vento aumentava, agora acompanhado de chuva, e ainda faltava tanto para poder sair e se proteger.

Tinha acabado um serviço de encomenda de entregar e distribuir milhares de panfletos e ganho com isso dinheiro para dar de entrada na compra de uma bicicleta. Estava feliz, o pior era este temporal que o apanhou no meio do grande pinhal, sem sítio onde se acoitar.

O temporal aumentou, estava quase no seu epicentro, o vento agora impedia-o de circular. A pé, com a bicicleta à mão, corria o mais que podia, atrás, ouvia-se a instantes o estalar de árvores que iam tombando. Estava perdido se não fosse atingido por algum raio decerto ficaria esmagado.

Numa pequena encruzilhada, viu perto o santuário da Senhora do Monte. Para lá correu aos ziguezagues conforme a fúria do vendaval lhe permitia.

Um enorme clarão iluminou por momentos tudo em redor, seguiu-se um trovão de tal modo ameaçador que parecia que a capela desabava. Aterrado, Simão comprimiu-se o mais que pode contra a porta. Novo raio a poucos metros quase que o cegava, em simultâneo com o ribombar de mil bombas a seus pés. Sem saber como, viu-se projectado para dentro, ficando a porta escancarada.

Como pôde, gatinhou para longe da entrada até ao pequeno altar onde se acolheu. Queria gritar, mas o pavor era tanto que apenas os olhos chorosos lhe davam o aspecto de menino à cara feita numa máscara de pavor. Um choro convulso tomou conta de si. Os pensamentos iam para expiação dos seus pecados, ia ser esturricado como aquele grande carvalho quando a faísca o abriu ao meio. Morrer assim devia ser bem doloroso.

É verdade que tirara a bicicleta, ao senhor Aníbal, mas ele até já nem andava nela, e depois do serviço feito, colocá-la-ia no mesmo sítio e ele nem daria por nada.

Uma nova faísca caiu mesmo no meio da capela, abrindo um buraco no telhado, parecia procura-lo, era mesmo castigo divino. A faísca saracoteou por instantes dando lugar a madeira queimada e um barulho infernal que o ensurdeceu.

Aguardava o próximo raio como destino. Enrolado, com as mãos tapando os ouvidos, aguardava com gemidos de desespero a estocada final…Mas o tempo passava e nada. De repente a chuva terminou, e o sol apareceu com todo seu esplendor, nem parecia finais de Dezembro.

Timidamente como receasse que todo este sol fosse um sonho, saiu debaixo do altar, olhou para o enorme buraco feito no tecto e que agora iluminava a capela. Tirando isso, nada mais acontecera. Os santos testemunhas do seu pavor continuavam nos seus nichos. Só a porta do sacrário estava aberta. Aproximou-se para a fechar, quando viu algo a brilhar. Era uma moeda de ouro, mais reluzente que o anel do senhor Bispo.

Milagre pela certa, não acreditava que alguém da sua aldeia tivesse tanto dinheiro para pagar uma promessa com tal fortuna. Finalmente iria ter a sua bicicleta. Devia ser o menino Jesus que assim o compensava de tanto horror.

Previdente apesar da sua pouca idade, mas mercê de tanto que lera e ouvira, resolveu não contar a ninguém a história da moeda, mas os seus doze anos impediam-no de trocar a moeda. Por sorte, na cidade o comerciante das bicicletas era um coleccionador de moedas, sabendo disso, Simão tirou uma foto a ambos os lados e dizendo que fora o avô que pediu para lhe avaliarem a moeda. Quando falou com o comerciante disse que o avô estava acamado e como lhe tinha prometido uma bicicleta pelo natal procurava saber se estava interessado no negócio.

Ao ver as fotos, a cupidez veio ao de cima, oferecendo bem mais do que o seu valor em ouro, mas uma verba que achava ser um bom negócio graças ao alto valor numismático.

Dias depois, uma das melhores bicicletas da cidade era propriedade do Simão. Para todos era uma bicicleta comprada a prestações em que Simão teria que entregar muita publicidade até a pagar.

Sorrindo, Simão dizia:

– Pode ser que o menino Jesus faça algum milagre.

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