A Sentença

 

 

 

 

 

(Itabi – SE)

Dentre as poucas coisas que temo na vida é a rejeição. Sempre tive um enorme medo da sensação de invalidade e do dolorido olhar vazio, sempre temi não ser aquecida com o olhar e voz de alguém e ser submetida, obviamente, à rejeição. Logo, considerei-me sortuda durante os anos em que me mantive indiferente a esta realidade que tanto temia.

Hoje, quando o corpo do homem que amo passou por mim, ignorando a minha existência, uma bala estilhaçou a verdade vitrificada em meu peito fazendo-me sangrar internamente, ainda negando o fato de ter sido atingida pela crueldade da rejeição. Os seus olhos, que antes me transferiram um calor que aquecia-me o coração, sequer direcionaram-se em minha direção; seu sorriso tampouco tencionou a ideia de nascer para agraciar-me o dia; ele, que antes fora dócil e gentil, parecia odiar o mundo com tanta escuridão em suas feições. Desconheço-o.

 

Não é a este home que pertenço de carne e alma, não é a ele que desejo entregar-me. Onde estará quem amo? Para que fugir? Estou insegura, triste e amedrontada pela estrada escura que meus pensamentos percorrem, não consigo racionar com clareza a ponto de elaborar ou descobrir o que passa dentro da sua mente. De nada sou capaz. Nada quero além de chorar escandalosamente ou gritar-lhe e exigir verdades. A minha imaginação dança no salão gigantesco dos meus sentimentos ao som da melodia gostosa do meu choro. As lágrimas cantam a letra em coro enquanto descem pelas maçãs da minha face empalecida, o bolo ardente na garganta irradia um fogo em direção ao peito e questiono-me qual será o nome dessa sensação. Percebo, contudo, que não existe nome que possa definir o tamanho da dor que o meu peito é preenchido; que, apesar de esforçar-me veementemente para estancar o sangramento do meu coração, a dor só tende a crescer.

A única luz no quarto vem do poste no outro lado da rua. Levanto-me, puxo a cortina e o quarto, enfim, combina comigo: está negro. Nada se vê. É uma visão embaçada de um turbilhão de coisas que não se compreende. Sento-me desta vez na ponta da enorme e assustadora cama e descanso lentamente meu corpo, sentindo o colchão macio afundar com o peso sob ele e sinto-me afundando em mim mesma. Memórias de um passado não tão distante me tomam a mente e o indecente e avassalador choro reluta em me dominar: resisto, apesar de não restar força alguma; resisto, apesar de não haver razões me obrigando a ser forte quando o que eu mais quero é chorar feito criança; ainda assim, resisto. Estou enlouquecendo, penso. A loucura me domina cada dia um pouco mais e, a qualquer hora, serei pura e completamente loucura. Sou louca de tê-lo unicamente como fonte de inspiração; por amá-lo vergonhosamente, por renunciar a mim em nome de algo que não vale a pena, por sequer saber o se passa aqui dentro; sou louca por tentar sustentar algo que em nada se firma, há não ser em uma mulher sem estruturas (que, no caso, sou eu). Sinto-a, aconchego-me na desculpa e repouso na ousadia que me é proporcionada. Beijo-a, descodificando cada centímetro da irracionalidade petulante e me exuberando nas formas bonitas e coloridas que vejo: estou ficando louca. Sei disso porque estou inteiramente à mercê dela, que me agrada com a ilusão de um futuro ao lado de quem amo, que me afirma a todo instante a reciprocidade do amor sádico e que me acalma o peito quando estou aflita. Tornamo-nos intimas, inseparáveis e sedutoras, logo, é certo dizer… é coerente que eu lhe diga: estou ficando louca. A pior parte da história é saber que ele ficará impune, pois, ninguém adivinhará que o dono de feições tão angelicais fora capaz de matar-me, lenta e cruelmente. Morrerei injustiçada, sozinha, louca e asfixiada pelas mãos fortes da loucura. Relembro cada pedaço do seu corpo e sorrio genuinamente com a vaga lembrança da cócega que sua barba me provoca na palma das mãos; lembro da cor viva dos lábios que anseio em beijar, mas que a loucura me nega; enfim, tenho a sensação angustiante de olha-lo nos olhos: um arrepio doloroso percorre eletrizando a minha espinha e meu corpo parece relaxar ainda mais no colchão: estou morrendo.

Morrerei. Morrerei de amor. O amor me matará. O meu peito rasga num ato repleto de piedade e esperança. Façam-no perceber que está me matando! Gritem o quão cruel ele é em me ver morrer a cada dia! Digam-no que a adaga enraizada no meu coração enfia-se e estraçalha um pouco mais toda vez que ele me ignora! Abram-lhe os belos olhos para que veja minha alma com um pé na putrefação; façam-no me amar… ainda é tempo. Nós ainda podemos nos amar. Ele pode me salvar. Ainda há esperança. Sinto a morte chegando, com passos imponentes e esmagadores: pisa-me o que resta de vida, capta o que pode da minha negatividade e debocha do meu estado. Morrerei, é certo. A rejeição veio acompanhada de outro sentimento que nunca experimentei: injustiça. Morrerei injustiçada, sem que ninguém saiba explicar o motivo do meu óbito. Serei intitulada como uma coitada que sucumbiu à loucura, fraca e delinquente, porém, em circunstância alguma, alguém dirá que morri pela falta de amor. Será que o seu coração pulsa num chamado de urgência do outro lado da cidade? Será que ele sente a minha perca gradativa de vida? Dói-me, mas não. Nada sente, pois tampouco se importa com o que faço, viva ou morta; não me ama e, por isso, não sente a minha dor como sinto o seu choro. E é nesta verdade que meu peito desacelera vagarosamente, como quem deseja banhar-se no mar da dor: ele não me ama. A única testemunha que me beneficiará serão as folhas decoradas com a junção de palavras unidas sob minhas dores e alegrias; serão as palavras que já escrevi milhares de vezes em seu nome; será o tempo que, em sua obvia sucessão, me apagará da existência rasa e sequer existirei. Se algum dia, encontrarem os papéis que espalhei pela casa, saberão sentenciar a minha existência. Saberão, contudo, que não morri tranquila. Se os lerem, terão o prazer em apreciá-lo eternizado nas minhas palavras desconhecidas e aí, então, terei paz. Se o culparem e fazerem-no pagar pelos diversos delitos cometidos contra meu coração e o respectivo amor por ele, encontrarei a paz. Minha mente já não pensa tanto, a intensidade com que sinto as coisas ao meu redor já se esvaíra e a minha dor, de repente, some sem aviso prévio. Estou morrendo. Serei lembrada como a jovem solitária que morrera louca numa noite de sexta feira cujo aspecto romântico da neve e da escuridão não foi suficiente para mantê-la viva. Serei associada à loucura, à ideia de que estive refugiada nela durante todos esses anos de amor exaustivo e enlouquecedor até, enfim, partir sem rumo agarrada a ela. Morrerei sendo considerada louca, a poeta que nunca obteve sucesso e partira desta para melhor insatisfeita e irrealizada. Contudo, neste fim de raciocínio, deixarei escrito o único culpado pelo meu ir. Estou morrendo, penso.

A loucura não me matará. Fora, por muito tempo, em que me sustentei para continuar a suportar o sol e o ar fresco da felicidade alheia em oposição ao frio dentro de mim, apoiamo-nos mutuamente. Eis, portanto, o que me matará: o amor. Foi ele, travestido de homem intelectual e portador de uma bondade ingênua que me apunhalou e assistiu-me sangrar sadicamente até que a vida saísse pelos ares. Fora o amor pelo outro que me fez sucumbir ao desejo e a felicidade de viver. Faço-lhes um último pedido: achem-no. Não deixe que mais um crime passe despercebido e que a minha vida seja perdida por nada. Procurem-no intencionando fazer justiça pela sanidade que me roubou pacientemente, pela crueldade em assistir a minha queda sem sentir remorso pelo ser humano abatido, pela negação em amar uma mulher que só fazia amar. Amei-o, até já não reunir forças para suportar tamanho peso em forma de sentimento. Amei-o demasiadamente e por amá-lo desta forma, estou morrendo.

Estou morta.

4 comentários em “A Sentença

  1. Sem muita delongas, mais uma narrativa que me remete a um lugar ainda não conhecido por mim, mesmo que dentro do de minhas inúmeras sensações tão poucas conhecidas. Foi a quarta obra prima que conheci desta tão nova escritora que nasce e cresce em meio ao seus mais puros sentimentos da experiência de sua juventude.

    Parabéns…

    abraço do Mineiro,

    Marcos Henrique de Oliveira
    (Johnny Balla)

  2. Bela narrativa. Espetacular confissão de uma adolescente perdidamente apaixonada. Nessa fase da vida, na adolescência, o amor torna a jovem incontrolada (na maioria das vezes a jovem) e completamente cega por consequência de uma paixão avassaladora. Em família já convivi com tal situação! Quanto ao texto, a título de colaboração o certo seria empregar raciocinar e não racionar assim como no trecho ” colchão macio afundar com o peso sob ele” deveria ser “sobre” ele. São deslizes de uma falta criteriosa de revisão! Parabéns escritora!

    1. Olá, Flávio! Fico feliz que tenha gostado do texto e desculpe-me pelos errinhos que deixei passar na revisão. Obrigada por ler!

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