A Ruiva do Pijama Listrado

 

 

 

 

(Salvador – BA)

(um conto para Isadora. “Uma careta e um sorriso”.)

 

– E o que você fez? – Perguntou o amigo da professora.

Eles estavam frente a frente, na sala de visitas da delegacia. Ela seria transferida para a segurança máxima em breve. Ela vestia aquelas roupas típicas de presidiárias. Aquele tipo de roupa que era melhor que se desenhasse um alvo nas costas…, mas ela sorria… sorria o tempo inteiro. Seus cabelos estavam soltos e ruivos. Pareciam mais ruivos do que nunca.

– Ele gritou de dor… – Ela disse sorrindo lindamente.

Seu amigo queria rir. Na verdade sua boca moveu-se instintivamente formando um sorriso tímido e ligeiro. Uma boca querendo incentivar o corpo inteiro a desabar numa gargalhada feroz. Uma gargalhada de vitória. Sim… Era uma vitória. Ela sempre fora uma campeã. Mas o riso deve de ser disfarçado com uma fingida tosse fajuta.

– Ele me chamou de incompetente… E me xingou! Na frente das pessoas. Eu não tava muito boa…, A caneta tava ali na minha frente… Aquela BIC rosa que tu me deu outro dia. Ele bateu a mão na mesa (fez um estrondo, todo mundo olhou) e me encarou sorrindo. Eu peguei o lápis e enfiei na mão dele.

Havia na sala, além deles dois, dois policiais. Calados. Mas não puderam deixar de dar risadinhas abafadas quando ela disse o que fez.

– A mão ficou presa, ele ficou puxando. Chorava como a grande menininha que ele era de verdade. Puxou de vez e lascou tudo, o sangue jorrou em minha cara… eu dei foi risada…

– É…, mas… Me disseram que você não parou por aí… – Ele perguntou, olhando em volta como se de repente a sala fosse de vidro e toda a delegacia estivesse assistindo a conversa.

– Bem… “SUPOSTAMENTE”… “ELES DISSERAM” (ela enfatizava as palavras com as duas mãos em aspas gigantes) Que o veadinho correu pro banheiro e que “SUPOSTAMENTE” eu fui atrás dele. E, bem… eu NÃO SEI direito a história, porque obviamente eu não estava lá pra ver, mas… Dizem que eu “TERIA” enfiado uma “OUTRA” caneta em sua garganta!

E mais uma vez ela riu. Seu amigo a conhecia há anos e nunca a viu brilhar tão forte.

– Masss… Não há provas! Eu admito que eu perdi as estribeiras e enfiei a caneta na mão do idiota…, mas o resto? Alguém se aproveitou da situação, com certeza! Era um rapaz detestável! De maneira alguma mataria um homem “APENAS” por dizer que eu não sou tão mulher assim.

A professora e o seu amigo sorriram. Ela foi levada pelos dois homens. Voltou rapidamente o olhar e piscou com graciosidade. E parecia desfilar… parecia flutuar pela delegacia. Tudo nela estava muito mais bonito.

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