A Quitanda

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(Salvador – BA)

Já tinha passado muitoarmazem tempo. Talvez, umas quatro décadas. Sei que o tempo galopa, marcha de forma decisiva e definitiva para o amanhã. O tempo tem esta mania de amolecer o juízo da gente, e de repente a lembrança vai se esmaecendo, levando cada vez menos certezas às nossas recordações. Aquela quitanda, ali, presa na beira da rodagem, era a única na redondeza.

Era uma estrada de chão, barro vermelho, que rasgava aquele pedaço da mata atlântica. O cheiro de chuva na terra e os lamaceiros constantes que amuavam as mulas e os jegues que passavam em comboio de três, às vezes cinco, sempre carregados, permaneciam nas minhas lembranças. Panacuns, caçuás, sempre repletos de aipim, bananas, batatas e laranjas. Ás vezes, o caminhão se arriscava, de quinze em quinze ou uma vez no mês. Era o divertimento da garotada. Caminhão preso na lama, pneus deslizando e a força tarefa de homens, com pedras, paus e cordas. Quando isto acontecia o dia passava rápido.

Aquela quitanda, pelo contrário impregnou seus cheiros em mim. O pensamento agora não é só uma habilidade mental, ele ainda pode ser sentido como um aroma. Ali se negociava muito. Todas as necessidades eram atendidas. De pavio, fifó e querosene, tinha-se tudo. O feijão, o milho, o fubá, o pó de café. Sementes variadas, tanto pra comer, como para plantar. Do biscoito à manteiga em lata, vendido a granel, e o fumo em rolo fornecido em pacotes, vendia-se tudo. O pão chegava todo dia, vinha da cidade, lá pelas cinco horas da manhã. A carne fresca do dia, a carne de sol e a de jabá, estavam sempre ali em cima do balcão.

Na ponta do balcão, antes da porta que tinha uma parte que se abria sendo puxada pra cima e outra metade que abria normal para dentro, tinha uma bomboniere. Era só empurrar a porta, nem precisava suspender a outra parte da entrada que abria para cima. Arrastava o tamborete, subia e ia abrindo uma por uma, cada tampinha da vidraçaria. Então, sentia o cheiro de doce, de cada bala, cada chiclete e de cada novidade que tinha chegado na última compra. O segredo era pegar uma de cada, às vezes duas da preferida, para que o vazio dos doces retirados não fosse percebido.

Meu padrinho, homem alto, de andar ligeiro. Ele estava sempre bem vestido, calças e camisas sempre bem engomadas. Além de ser um bom alfaiate, era um homem de leitura, pelo menos o livro sagrado sabia todo decorado. História por história do antigo ao novo testamento. Sempre tinha uma frase pra cada momento. Lembro-me que uma vez ao tentar correr para ir ao seu encontro fui retido pelo meu pai. Quando ele se aproximou foi logo falando: – Não se lembra meu cumpadre, o que Ele disse? “Deixai vir a mim as crianças, pois delas é o reino dos céus”. Era sempre assim.

Uma vez por semana ele passava lá na quitanda, geralmente na sexta-feira ou sábado. Sempre apressado, mas com uma boa prosa. Pagava o que devia e levava novas compras. Aqueles óculos de vidro grosso, certamente foram porque lia muito e à noite sob a luz do candeeiro. Enxergava com dificuldade. Assim, eu pensava. Só não entendia porque ele não me atendia. Sempre quando ele ia embora eu saía correndo atrás dele. Chegava perto, nunca conseguia alcançá-lo. E falava quase gritando: – Bença, padrinho! Bença, padrinho! Ele nunca me ouvia. Isso sempre se repetia. Sempre eu tinha a esperança da resposta e também de ganhar alguma moeda. Um dia eu corri tanto que caí. Ralei os joelhos e as mãos. Chorei muito. Chorava porque doía e também por ter feito tanto esforço em vão.

Foi quando já na quitanda, meu pai sorriu e limpando as raladuras ele me explicou: – Meu filho seu padrinho, além de quase cego é totalmente surdo. Você tem que tocar nele ou ficar na frente dele para que ele te veja. – Agora já sei meu Pai. Foi o que respondi. Vou esperar até a próxima semana, foi o que pensei.

A noite já estava chegando e antes de acabar a tarde, saí em disparada com outros meninos para um banho no rio. Aquilo fazia parte do rotina dos nossos dias: dormir no início da noite e acordar com os primeiros raios do sol.

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