A Presença

 

 

 

(Santos – SP)

Sou uma mulher doente. Muitas vezes sou desagradável. Não sei evitar esta inquietação que me domina e me indispõe contra toda gente alegre que encontro em meu caminho. Olhar indiferentemente ou mesmo com alegria a felicidade alheia, para quem dela se sabe privado para sempre, é um desafio.

As pessoas sociáveis, aquelas que cresceram em famílias numerosas, que na infância nunca ficaram sozinhos, e pela mocidade afora até os dias atuais se veem cercadas de amigos, ou pelo menos de conhecidos bem intencionados, nem imaginam quão dolorosa é a solidão do que não teve irmãos para compartilhar sua meninice.

Desde bem pequena, eu sinto esta presença faltando a meu lado. Parece complicado de entender, falando assim no negativo, mas é isto mesmo que eu sinto desde que me conheço por gente: uma ausência de alguém que deveria estar aqui. Eu me lembro, eu ria, conversava, virava para o lado para compartilhar a vida com… quem? Bem, não havia ninguém por perto, mas deveria haver. E a constatação de que eu estava sozinha doía imensamente.

Quando fui para a escola compreendi que o que eu buscava era um irmão, e perguntei insistentemente a minha mãe pelo meu irmãozinho. Eu havia por força de ter um irmãozinho em algum lugar. Não, dizia mamãe, você é filha única, nunca teve irmão nenhum. Debalde. A presença deste irmão estava bem ali, palpável, eu quase podia sentir sua respiração. Eu fora adotada? Bem, descobri logo que depois de perguntar ‘uma bobagem dessas’ eu devia sumir por horas da frente de minha inconsolável e indignada mãe, e, portanto, descartei esta possibilidade.

Quando cresci mais um pouco, perguntei a meus pais se eu havia tido um irmão que morrera, ou se eu havia sido o gêmeo sobrevivente de alguma catástrofe uterina. Olharam-me horrorizados, negaram veementemente e pediram que eu tirasse estas ideias estranhas de minha cabeça. Mas a presença estava ali, constante, quase a suplicar que viesse brincar e conversar, e eu bem que queria, mas com quem?

E nos momentos em que eu estava triste, em que estava, por exemplo, de castigo, sentindo-me injustiçada – quantas vezes são as crianças punidas por coisas que não fizeram nem disseram, sem poder contradizer os adultos – bem, nesses momentos, a presença estava ali quase palpável, quase a tocar fisicamente meus ombros, a consolar-me: sim, eu entendo, estou a seu lado, conte comigo, sim, eu me importo com você.

Enquanto eu crescia, sempre que me via em dificuldades, atrapalhada para atravessar uma rua ou para resolver um problema de álgebra, podia afirmar que ouvia a voz amiga a dizer: estou aqui. E eu olhava ao redor, inquieta, angustiada, procurando pela pessoa invisível que eu queria tanto conhecer.

Assim passou-se a infância, e a adolescência correu célere rumo à juventude, em meio a tantos livros e cursos, tanta coisa que inventavam para me por longe das tentações do sexo oposto – como se as danças e os risos pudessem engravidar ou estragar uma mulher.

Bem poderiam se poupar ao trabalho de me vigiar, meus pais, professores e parentes. Eu, tão sozinha, tão desagradável, tão inepta no trato social, tão apavorada com os comportamentos de namoro dos quais não entendia nada, que preferia me trancar horas e horas em meu quarto a escutar sinfonias, óperas, ler os clássicos, enfim, tornar-me dia a dia mais esquisita do que me julgavam os de minha idade. No entanto, alguém me compreendia e me apreciava – o outro, este outro que um dia eu identifiquei, logo se entenderá o porquê, como masculino.

Uma grande confusão se formou em minha mente a partir do momento em que os pensamentos deste outro se misturavam agora claramente aos meus, em um dialogar incessante sobre tudo, amigável, inteligente, um tanto irônico, a amenizar a terrível solidão moral em que eu vivia. Sua voz estava sempre presente, e me confundia com ideias e observações masculinas que me faziam por vezes corar: olha, a tua amiga Maria, tão bela, seus lábios carnudos são um convite tentador a um beijo mordido. E eu sentia meu rosto quente, confusa.

Eu me interessava muito por psicologia, lia sofregamente tudo que me caísse nas mãos sobre comportamento humano, Freud, Jung, Reich, Lowen. Piaget. Maria Montessori. Quase desabei quando descobri o caos que pode se abater sobre a libido humana. A intersexualidade me deixava perplexa. Então não somos, homens e mulheres, distintos em nossa intimidade celular, pois simplesmente um braço curto em um par cromossômico e temos os mesmos hormônios – testosterona e progesterona – em nossos corpos, e apenas suas doses relativas é o que nos torna tão dessemelhantes.

Eu não sabia mais o que eu era. A meus pensamentos amorosos de maternidade se misturavam estranhos desejos libidinosos pela beleza feminina, sem que, no entanto, eu de fato não sentisse nenhuma atração por outras mulheres. E a voz se ria de mim, e eu sabia que estes pensamentos estranhos todos não eram meus, e sim dessa presença oculta em minha vida.

E foi assim que eu soube que meu gêmeo era homem.

Pois embora minha mãe e meu pai negassem, e até se aborrecessem com minha insistência, a única explicação que eu encontrava para este estranho fenômeno era que eu houvesse tido um gêmeo. E lá no intimo crescia esta certeza, de que eu era a gêmea de um rapazinho tão solitário e desejoso de companhia quanto eu.

Sofri muito na adolescência, imaginando uma outra possibilidade, a esquizofrenia. Os esquizofrênicos ouvem vozes. E eu me contorcia de terror ao pensar nesta possibilidade, mas o outro ria. Ora, que bobagem! Eu estou aqui, e me importo, e sinto um bocado a sua falta.

E eu li. As vozes esquizofrênicas, todas, tem lá suas intenções ocultas, mandam as pessoas matarem, mentirem, fugirem. A minha voz não era delirante. Era uma voz tranqüila que simplesmente estava ali e me chamava a conversar, para matar a solidão. Nunca falou mal de ninguém, nunca me incitou ao mal.

Também não se parecia em nada com aquela voz da consciência, nascida das experiências de infância com papai e mamãe, sendo na realidade a internalização dos ensinamentos recebidos de nossos amorosos cuidadores, aquela voz que grita em nosso ouvido quando estamos a atravessar a rua distraidamente: Cuidado! Preste atenção no sinal!          A minha voz também não se parecia com a intuição que nos fala em momentos especiais – Pega um guarda-chuva, pode chover – ou coisas banais e úteis como esta.

Não, a minha voz não se enquadrava nas descrições dos psiquiatras, psicólogos nem teólogos. Eu não era, definitivamente, nem a versão feminina de Mr. Hyde nem uma nova Joana d’Arc.

Eu apenas sofria, e como sofria, por ser tão diferente e tão sozinha.

Cresci, assim, ocultando o meu segredo. Fiz medicina. E nos livros descobri mistérios biológicos. Como o da mulher que tinha filhos cujos DNA não eram compatíveis com o dela, até que um estudo genético demonstrou que seus ovários e seu sangue forneciam duas leituras cromossômicas diferentes. E o do homem cujo sêmen não era compatível com o resto de suas células. E aquele outro, em cujos órgãos se liam duas linhagens gênicas distintas. Mais incrível do que qualquer ficção, a espécie humana vez por outra cria indivíduos mosaicos.

A explicação chegou aos cientistas através de certas crianças com tumores estranhos, dentro dos quais se encontravam dentes, olhos, por vezes um membro inteiro, fragmentos de cérebro e até cabelos. Teratomas. Fetus in fetus. Em raríssimos casos, uma gestação gemelar se interrompe pela morte de um dos fetos, que é absorvido pelo outro, cresce dentro do outro, e, se em estágio bem recente, quando ainda tem apenas oito ou dezesseis células, é assimilado e cresce par a par com as células de seu gêmeo vivo, originando um mosaico – duas linhagens de células funcionantes com carga genética distinta. E foi assim que eu finalmente sosseguei. Descobri a causa de minha anômala personalidade, de minha incansável busca pela presença ausente, tão desejada, tão querida e tão impossível como a história mitológica de Castor e Pólux.

Castor e Pólux, os gêmeos nascidos da mesma mãe porém de diferentes ovos.

O nome científico de minha rara condição vem também do grego. Eu sou uma quimera.

 

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