A Prenda de Natal

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(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

A ténue luz prendada candeia a petróleo era ampliada pelos tocos de pinheiro, impregnados de cerne, que ardiam na lareira. Em cada um dos lados, uma panela de ferro fumegava. Em volta, o rosto corado de quatro crianças labutavam com uma malga de caldo com broa migada. O silêncio reinante era interrompido amiúde pelo estalar de uma ou outra cavaca, e o ruído das colheres, no vaivém de encher e levar à boca.

A um canto, um homem ainda novo olhava para a lide da sua mulher, na azáfama diária de fazer e servir a ceia aos garotos. Também ele esperava paciente pela sua malga de caldo.

– Hoje não tenho pena de vocês, vão para a cama de barriga cheia. -Comenta a mãe, enquanto servia o marido. – Vá comam e vão p’ra deita que já são mais que horas.

– Ó mãe, amanhã é véspera de natal, faz filhoses? – Pergunta o filho mais velho.

– Não, infelizmente! Não temos azeite nem dinheiro para o comprar. O teu pai há duas semanas que não ganha um tostão furado. Este inverno tem sido uma desgraça, só chuva e mais chuva e não dá para ganhar p’ro pão quanto mais p’ro azeite. O que nos vale é o Sr. João que ainda nos vai fiando, mas já devemos tanto que tenho vergonha de ir lá aviar-me.

– Mas é natal! – Observa o pequeno do meio, com ar de súplica.

– Sim filho é natal, Deus sabe o quanto me dói não vos poder fazer esse mimo, mas o natal não se compadece com a nossa miséria. Ter umas couves, um bocado de banha e umas batatas já é uma riqueza, assim posso pelo menos fazer-vos uma sopa.

O silêncio retomou o seu lugar, como se todos compreendessem, desde o mais velho ao mais novo, a pobreza que devassava aquela casa. O mais velho, já na segunda classe, sofria mais por ter a noção da impossibilidade dos pais em diferenciar o dia de natal dos outros dias.

Absorto em mil pensamentos, recordava a mentira que dissera à professora, quando lhe perguntou o que iria pedir ao menino Jesus. «Uma bola» respondera para não ficar atrás dos outros meninos. Mas qual bola qual carapuça, umas filhoses já o fariam feliz. No entanto, percebia o esforço da mãe para que todos não sentissem fome. Era sempre a última a comer, e não era raro vê-la pelos cantos a chorar. «Pobre mãe!» exclamava em surdina o pequeno David, sempre que a surpreendia nesse desespero.

Amanhecera bem fria aquela manhã de véspera de Natal. A geada com o seu manto branco fazia ruído ao estalar quando se pisava, só por grande necessidade alguém se atreveria a andar cá fora com tal frio. Na quinta da Azenha duas crianças entre os seis e os oito anos, catavam azeitonas meias congeladas que ficaram aqui e ali depois da apanha. De vez em quando o mais pequeno choramingava, soprando nos dedos hirtos de frio.

– Ainda não chega David?

– Não mano! Temos que apanhar mais um bocadinho, anda que já falta pouco. – Incentiva o mais velhinho. – Quanto mais depressa enchermos o saco, mais depressa vamos p’ra casa p’ro lume.

No lagar de azeite a faina era enorme, de olhos esbugalhados, David via as grandes rodas de pedra triturando as azeitonas, transformando-as em massa com que enchiam as seiras. Estas eram depois empilhadas de baixo de uma grande prensa. Mais à frente, uns grandes depósitos fumegavam e de um outro escorria o azeite.

À pergunta de quem mandava no lagar. Teve como resposta ser o senhor Anselmo, o encarregado.

– Então o que queres tu meu menino? – Pergunta um senhor de grandes barbas.

O pequeno David, meio envergonhado, pediu se lhe trocavam o saquito de azeitonas por meio litro de azeite.

Um senhor de barbas olhou para o diminuto saquito de azeitonas, meio murchas, que a criança lhe mostrava. Perguntou-lhe como se chamava, em que classe andava na escola…

– Diz-me cá David, foram os teus pais que te mandaram?

– Não senhor, a minha mãe não sabe que vim aqui.

– E pra que queres tu o azeite? Se calhar é pra alguma brincadeira com os garotos da tua idade?

– Não senhor! A minha mãe disse que hoje não fazia filhoses por não ter azeite nem dinheiro.

– Mas o teu pai não trabalha?

– Trabalha, mas somos muitos e como tem chovido muito, não tem ganho o dia fora.

Um aperto na garganta e uma teimosa lágrima a querer romper, fez aquele senhor, pegar no saco do menino dizendo:

– Espera um pouco que eu já venho.

 Pouco depois, apareceu com uma saca, bem maior do que aquela que recebeu com as azeitonas.

– Toma, vai dar à tua mãe e bom natal!

– Quem te deu isto David?- Perguntou a mãe ao abrir a saca com uma garrafa de azeite, umas postas de bacalhau, uma nota de vinte escudos e uma linda bola de borracha, vermelha e branca.

– Foi o senhor encarregado do lagar de azeite, aquele das barbas.

– Barbas? Mas o Anselmo não tem barbas que eu saiba, nem conheço ninguém do lagar que as tenha.

– Mas ele tinha e foi esse nome que eu ouvi.

Emocionada a pobre senhora foi agradecer ao encarregado.

– Muito obrigado senhor Anselmo…

– Obrigado de quê, mulher?

A pobre senhora confirmou que o encarregado não tinha barbas, sentindo-se confusa perguntou:

– O meu David não esteve aqui hoje?

– Sim vi-o aí de manhã com uma saquita, mas depois fui aos meus afazeres e quando vim já aqui não estava.

Sem saber o que pensar, a senhora regressou a casa muito apreensiva. Seria que o seu menino tivesse roubado alguém?

«Não! Santo Deus! Isso era impossível» – pensou. No entanto, mal chegou a casa retomou o interrogatório, mas a história que David contava era sempre a mesma. O que pensar?

Naquela noite, as rizadas das crianças deram uma alma nova àqueles pais. Havia filhoses e as batatas com bacalhau, bem temperadas com azeite.

Meu querido, não sabes o bem que me fizestes ao entregar a saca com a bola ao meu aluno David. Coitadinho! Arrependi-me tanto quando perguntei aos meninos que prenda esperavam do menino Jesus, quando reparei como o pequenito corou, mas para não ficar atrás respondeu que tinha pedido uma bola. Como poderia receber tal prenda, quando fiquei a saber que até para comprar os cadernos os pais faziam sacrifício.

– Foi uma sorte tê-lo visto junto ao lagar de azeite. Ao ver que rondava o lagar com um saquito de azeitonas apercebi-me de tudo. Não resisti e meti também na saca uma nota de vinte escudos…

Os jovens professores, abraçados, olhavam emocionados para a pequena saquita, ainda com algumas azeitonas murchas, que ao lado de umas meias penduradas junto à lareira, lembravam o pedido feito ao menino Jesus.

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