A Páscoa

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

O estralejar de foguetes fez saltar da cama o pequeno Afonso. O seu rosto trigueiro emanava uma alegria fora de comum.

– Mãe, pai, levantem-se, já é Domingo de Páscoa. Onde é que me lavo? A minha roupa? – Pergunta o pequeno com ansiedade.

O pai sorriu perante todo este anseio, e ao resmungo da esposa, respondeu ao seu rebento com parcimónia.

– Tem calma Afonsinho, a tua mãe já se levanta. Acende o lume que nós já vamos.

A criança apesar dos seus oito anos, sabia pôr a cafeteira ao lume para fazer o café. Para adiantar serviço, desceu as escadas e trouxe um braçado de lenha com que acendeu a lareira.

– Então mãe!? A água já ferve e vossemecê não se levanta?

– Onde é o fogo, não me dirás? – Respondeu Jacinta em ar de brincadeira.

Estava feliz ao ver toda aquela ansiedade no seu homenzinho, como carinhosamente o tratava. E como o entendia. Recordava como se fosse ontem o seu primeiro vestido “à senhora”, pouco mais idade teria que o seu menino, nessa noite também pouco dormira desejando que a noite passasse depressa para finalmente estrear aquele vestido de cor azul. Hoje era o seu menino em “pulgas” para vestir o seu fatinho, camisinha branca e uma pequena gravata, dando-lhe um ar de pequeno cavalheiro.

Afonso nem refilou quanto ao banho demorado nem àquela demorada barrela às orelhas, zona de muitos ralhos e inspecções criteriosas da mãe. Hoje sentia-se um homem e agia em conformidade, merecendo do pai o comentário «o que fazem uns trapos novos!».

– Agora muito cuidado para não te sujares. – Recomendou a mãe, enquanto o penteava.

Afonso anuía com a cabeça a tudo que a mãe dizia. Queria era sair, embora faltassem duas horas para a missa. Mas era no adro que queria estar para a Rosinha ver como ele estava bonito. Ao tomar o pequeno-almoço, Afonso foi buscar uma toalha com que protegeu a camisa e gravata de uma possível nódoa. O facto não passou despercebido ao senhor Aniceto que sorriu e deu uma pequena cotovelada na esposa.

No adro já se encontravam os amigos que brincavam ao pião. Afonso muito emproado recusou o convite para brincar, espantando-os, pois nunca até aí Afonso recusara um convite para a brincadeira.

O último toque para a missa e com as pessoas a chegarem ao templo, Afonso foi-se postar muito direito na escadaria por onde Rosinha passaria. Ao vê-lo, a menina ruborizou, baixou os olhos esboçando um sorriso só perceptível por eles. Depois da missa, Afonso pediu galhardamente à surpreendida mãe da Rosinha se as podia acompanhar até casa. A resposta veio na forma de um sorriso e no elogio que teceu, gabando muito a elegância do menino, dizendo que era assim que se deviam comportar ele e Rosinha como meninos bonitos que eram.

Depois do almoço, as crianças acompanhavam o padre na visita pascal. O ponto forte das visitas era a Casa da Rosa, uma quinta riquíssima onde era hábito distribuir amêndoas pela criançada. No Jardim eram atirados quilos de amêndoas, onde os mais ladinos conseguiam encher os bolsos, para gaudio dos senhores que riam ao ver aquela amálgama de crianças enchendo-se de pó para apanharem os doces. A um canto indiferentes a tudo isso, Afonso e Rosinha sorriam um para o outro, facto que foi observado por um dos senhores. Que estendeu um pacote de amêndoas à Rosinha dizendo:

-Toma lá amêndoas minha querida, pois o teu amigo, com medo de se sujar não entra na brincadeira.

Afonso corou que nem um tomate, vendo nova remessa que estava a ser lançada de outra escadaria, lançou-se como sempre fizera para o meio da pequenada e ora por cima ora por baixo encheu os bolsos de amêndoas. Todo empoeirado, mas ufano, estendeu um punhado à menina. O agradecimento veio na forma de um beijo na bochecha.

À tardinha regressou a casa o amarrotado e sujo Afonso. O ralhete que recebeu foi mais duro que o normal e como castigo, teve que tomar banho de água fria. Todavia, surpreendeu os seus pais por não se defender com os outros colegas, como era seu hábito, nem protestar pela severidade do castigo, antes, mantinha um estranho sorriso, deixando os pais sem saberem o que pensar.

5 thoughts to “A Páscoa”

  1. Meu caro Lorde.
    Como sempre um excelente conto.
    A título de colaboração, somente um deslize deve ser observado e corrigido;
    A grafia correta não é remeça e sim remessa.
    Abraços
    Flavio

    1. Ora toma que é pra aprenderes! Como diria o meu amiguinho de quatro anos.Tem toda a razão meu caro Flavio, é remessa e não “remeça” que entre outras quer dizer medir de novo.
      Agradeço o seu cuidado, e não se acanhe sempre que vir algum atropelo à nossa Língua. Abraço.

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