A Mulher Tagarela

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(Rio de Janeiro – RJ)

Possuía miríadbla-blaes de qualidades: bela, inteligente, culta, simpática, sensual, cheirosa e rica para ninguém botar defeitos. Uma preciosidade no meio da densa mediocridade reinante, e que arrebatava os olhares dos admiradores e invejosos onde a sua personalidade marcante fizesse presença.

Só tinha um defeito: falava demais. Ninguém conseguia conversar com ela em razão de emendar um assunto no outro, o que fazia que poucos a suportassem. Não dava para acreditar que sendo detentora de tantos atributos pecasse neste detalhe importantíssimo.

Ele sabia desse seu modo de ser e a aceitou assim mesmo, maravilhado que ficou pelas suas qualidades físicas, obrigando que fizesse vista grossa a esse defeito (quem não o faria?) e procurou desfrutar de momentos deliciosos com a tremenda gostosona.

Convidou-a para um lugar mais apropriado em que ficassem ao abrigo de qualquer indiscrição, mas que ao ser aceito prontamente, acabou lhe causando certa hesitação. Mas logo superou essa indecisão momentânea e a abraçou com amabilidade, enquanto seguiam felizes rumo à felicidade.

Os amigos morreram de inveja quando passaram abraçados rumo ao motel (na época ele não tinha carro). Não conseguia conter a emoção em seu coração. Ela era o objeto de desejos dos amigos e dos homens de um modo geral, e havia sido premiado com a sua atenção por razões que desconhecia. Mas não importava, pois o momento deveria ser aproveitado ao máximo.

Lá chegando, e ansioso para sentir a sua plena intimidade, iniciou os preparativos preliminares e tomou primeiramente um banho demorado e para lá de perfumado.

Quando chegou a vez dela, ficou olhando de perto enquanto se ensaboava com muita sensualidade. Uma visão dos deuses, com certeza. Não aguentava mais esperar o momento de começar a fazer amor com aquela preciosidade.

Quando estavam ainda abraçados nas preliminares, ela que até então nada havia comentado, começou a falar de assuntos variados num momento totalmente inadequado. E por mais que ele tentasse se concentrar, ela não parava de tagarelar, chegando mesmo ao desplante de se levantar da cama para apanhar um documento na bolsa e ilustrar melhor o assunto que desenvolvia.

–  Você poderia deixar isso para depois?

–    É só um momentinho, querido.

–   Não acho apropriado.

–   Tenha paciência que não vai demorar.

Como não parava de falar, deu um basta e demonstrou a sua irritação, sem que ela no entanto entendesse essa intenção.

Perdendo o controle de vez, tapou sua boca com uma das mãos, o que fez que ela esperneasse para que a soltasse, obrigando-o a dizer um palavrão e a se vestir apressado para fugir logo daquela inusitada situação.

Enquanto saía, ficou ouvindo o longo relato sobre o assunto que ela ainda desenvolvia, demonstrando plena distonia com o momento mágico que vivia. E mesmo após ter ultrapassado os limites daquele ninho de amor, em seus ouvidos ainda soavam nitidamente a sua voz ecoando nas paredes do corredor, como um lamento que percorria o estabelecimento.

Até hoje não soube que fim levou, apenas que os empregados a colocaram para fora em razão da falação que incomodava os demais hóspedes. Com certeza era louca de montão, mas lamentava que não tivesse aproveitado melhor o amor daquela preciosidade.

3 comentários em “A Mulher Tagarela

  1. Caro Roberto,
    Sua prosa é boa. Parabéns. Ocorre que você passou por cima de alguns detalhes.
    O principal foi omitir ter passado por cima da beldade. Passou, sim. Atrevo-me a pôr os pontos nos ii.
    Comecemos pelo nome dos personagens. Ele é o poeta Bião. Ela á a poeta Gioconda. A tagarelice, aliás, entra na vida da Gioconda quando ela começa a exigir que a tratem por poeta e não por poetisa, entendeu? Isso, e aliás de novo, é o que explica a pronta aceitação dela ao convite libidinoso do Bião. Corporativismo é fogo, Roberto. E fogo traz, não se iluda.
    Outro pormenor. Ao contrário do que disse, o Bião sai com a Gioconda de carro, meu nobre. Seguinte. O Bião tem medo de que algo possa dar errado, pois ir com muita sede ao pote pode acontecer de esborrachar o pote. Aí adeus água. Daí o Bião temer o desastre e a possível publicidade do episódio por parte da tagarela Gioconda. Então ele arruma um carro emprestado, já que, sem ninguém os vê-los caminhando, ficaria mais fácil ele negar a possível disfunção masculina: mentira, mentira. Nunca saí com essa maluca.
    A desistência do Bião é verdade, Roberto. Acontece que ele já imaginara aquilo, vai ao carro e volta em cima dos cascos. Deu-se assim. Horizontalmente febris, salivas em desordens, ofegando na mesma frequência, munições testadas, e eis que a poeta se levanta a fim de apanhar o maldito documento.
    Nisso, o esperto Bião vai ao carro, volta com imponente ramalhete de rosas vermelhas, ajoelha-se aos pés da Gioconda e, com o sedutor olhar a percorrer aquelas curvas, começa a lhe acariciar as pernas com o romântico abre veredas. A Gioconda abre um sorriso e, todinha arrepiada, fecha os olhos. E também a boca. Arrepiada e de olhos semicerrados, Roberto, mulher alguma consegue tagarelar. Até porque os comprimidos beiços não deixam, concorda? Não tagarelava, mas, à medida que o Bião fazia a penosa e vertical excursão com o buquê, a Gioconda emitia monossilábicas interjeições, a exemplo de uis, ais e assemelhados. Então ela se senta na cama. Mas logo vai derreando o corpo. Derreava-se e ouvia o poeta Bião declamar estes versos do Platão:
    Um delírio divino, uma dança sagrada, conduzida num fluir tranquilo e suave, uma ondulação interminável na qual os corpos fazem apenas o que deve ser feito um para ou outro, levando-os além da fronteira do êxtase na direção do plano sutil da experiência mística.
    Certo é que não precisam de novos testes. Certo ainda é que o Bião começa a imitar os ruídos monossilábicos da Gioconda. Também é certo que todo o ambiente escuta um uníssono “nossa”! Só não está certo, Roberto, é você dizer que a Gioconda foi expulsa por causa da falação. Foi, é verdade. Foi, mas na companhia do Bião. Os hóspedes não suportaram a gritaria do apartamento 69. Poetas são fogo, amigo.
    Igualmente certa foi a cura da Gioconda. Curou-se, cara. Quer dizer, parcialmente. Agora ela sai gritando pelas ruas:
    Um delírio divino, uma dança sagrada…
    Releve a brincadeira, Bião, Roberto, desculpe.

    Abraços tagarelados,
    Tião

  2. Cada uma que a vida nos prega hein caro autor!

    P.S.: só não bem entendi o último parágrafo. Ambos trabalhavam em um hotel? Não havia citação anterior no texto sobre a questão.

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