A Mulher do Advogado

 

 

 

 

(Orlando – FL – USA)

O doutor Lins era um excelente advogado e tinha uma excelente mulher. Bom assim, não é? A dona Rita, entretanto, às vezes ficava cismada com a boa sorte que tinha. Afinal o Lins era um maridão e há tanta madame decidida a roubar o que é dos outros. Tanta mulherada naquele escritório, um advogado bonitão, sei lá…

A Rita não era mulher de ficar sofrendo com coisa que podia resolver. Coisa que não tem jeito, vá lá, o que se há de fazer? Mas saber se o esposo estava aprontando, não era coisa de outro mundo. Olhou na internet e achou um bom investigador, o que é que não se acha por lá? Contratou. Serviço completo. Uma semana com detalhes, minúcias. Chegada e saídas, fotos e filmes. Nomes, sobrenomes, identidade e ocupação.

Não é que o Tenório, o investigador, era bom mesmo! Fez um trabalho espetacular. Tudo, tim-tim por tim-tim. E para usar um termo da lei, o doutor Lins foi absolvido. Era um cara íntegro, pelo menos em relação às mulheres.

Uma semana depois veio a conta. Também tim-tim por tim-tim. Centenas de fotos, uns filminhos, relatórios. Um dos filmes até que foi interessante. O Lins passa em uma banca de flores e compra dois buquês. Um a Rita recebeu e o outro – sinto decepcioná-lo, você, fofoqueiro – ele levou para a mãe.

A conta do Tenório chegou. Um absurdo, mais do que o próprio Lins cobrava por um de seus casos. Sim, as despesas vieram para o próprio Lins, afinal a Rita não trabalhava e alguém precisava pagar a conta.

Lins passou por vários estágios: surpresa, revolta, indignação contra o investigador, contra a mulher. E por que não dizer? Alívio. Não tinha nada para esconder, mas sabe como é… Um mal-entendido, um ângulo ruim de uma foto. Ele, melhor do que ninguém, sabia disso. Já tinha visto cada coisa nos tribunais…

Ainda assim, pegou o relatório de despesas e foi para casa decidido a tirar satisfações com a Rita. Onde se viu uma coisa dessas? Que absurdo, desconfiar, gastar uma grana à toa e ainda mandar a conta. Só a Rita mesmo…

Enquanto dirigia, advogado que era, ficou imaginando a hipotética cena no tribunal. A acusação contra a Rita, as testemunhas, as provas. Apesar de ser o reclamante, ele tinha de ser também o advogado da Rita, se é que você me entende, ela não tinha renda própria… E ele não ia permitir que qualquer advogado da justiça gratuita fosse cuidar de sua própria mulher. Isso não. Começou a defesa em sua mente: Pobre esposa, em casa, sozinha, todas aquelas lindas mulheres desfilando em frente a seu marido. Ela, uma esposa dedicada, amante sequiosa, cheia de dúvidas. Mal ela não fez, apenas quis se certificar… Foi bom para todos. Ele provou sua honestidade, ela provou que se interessa por ele, o Tenório faturou uma grana – o desgraçado – e a harmonia está de volta. Que juiz condenaria uma esposa tão zelosa pelo marido?

Decidiu. Decretou segredo de justiça, arquivou o processo, pagou as custas e foi para a casa ver a mulher…

 

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