A Mosca

 

 

 

 

(Vieira de Leiria – PT)

Sempre que passava em frente ao café da praça, o Anacleto virava a cabeça para o lado contrário, pois aquele cheirinho que daí vinha era uma tentação para quem, como ele, não tinha umas moedas na algibeira, para poder sentar-se a uma mesa e pedir com ares de importante: “sirva-me um cafezinho!”

O rapaz era viciado em café, mas só tinha o direito de saborear o que a mãe fazia numa velha chocolateira, tão negra como a chaminé da casa, que só era limpa uma vez por ano, na véspera da matança do porco. Queria crescer depressa, poder ter um emprego para dispor de umas moeditas que lhe permitissem satisfazer aquele desejo, nem que fosse apenas nas manhãs de Domingo.

– Quem não tem dinheiro não tem vício! – Assim dizia o pai. Um homem que trabalhava de sol-a-sol, para que lá em casa ninguém fosse dormir sem ter o estômago aconchegado.

Pai de seis filhos – o Anacleto era o mais velho -, o pobre homem habituou-se a nada comer durante a manhã, mas em casa havia sempre qualquer “coisita” para que as crianças, sempre famintas, pudessem satisfazer o seu apetite devorador.

Quando um dia o padre da paróquia aconselhou que se jejuasse durante a Quaresma, ouviu da boca do pobre homem, uma resposta que o deixou confuso

– Jejuar na Quaresma, senhor. padre?! Eu jejuo todos os dias.

– Como assim? – Perguntou o representante de Deus.

– Não é por devoção que faço o meu jejum, mas sim por não ter nada para comer. Para que nada falte aos meus filhos prefiro ser eu a passar fome. De manhã nada como, e só lá para a tarde engano a fome com um pedaço de broa, umas azeitonas ou uma sardinha salgada.

– Ó António – disse o padre, condoído pela desgraça alheia -, mas Nosso Senhor não quer isso!

– Pois, também eu não quero, mas não há outro remédio!

Era pois impensável que o rapaz tivesse acesso às tai moedas que lhe permitissem satisfazer aquele desejo que ia acompanhá-lo pela vida fora. O pai prometeu que sim, que um dia podia ir ao café Central beber o seu café, com as primeiras moedas do seu salário. Mas de momento o moço era demasiado jovem, ninguém necessitava do seu trabalho, e o sonho ia sendo adiado

O tempo vai passando, devagar para quem tem pressa, mas o seu dia havia de chegar. Era apenas uma questão de ter paciência, mas paciência era o que o rapaz não tinha.

Passava as tardes de Domingo prostrado em frente ao café, exalando aquele cheirinho que o penetrava até ao fundo das entranhas. Com os olhos semicerrados, dava por si fazendo aquele gesto de levar uma taça aos lábios e como lhe sabia bem. Invejava os rapazes menos pobres, que podiam beber um, sempre que quisessem. Mais que uma vez se juntou a eles e aceitou a sua oferta. Uma dádiva de Deus, e assim pôde saborear aquele precioso líquido ainda fumegante.

Um dia disse para os seus botões: É hoje! Vou beber um cafezinho sem depender de ninguém. Sem um centavo na algibeira, dirigiu-se ao Central. Havia um novo empregado a servir, e era a este moço que havia de pedir cheio de importância: “senhor empregado, sirva-me um café”.

Entrou, sentou-se a uma mesa do fundo e fez o seu pedido. O moço pousou a taça à sua frente e afastou-se. Um cheirinho a café entrou-lhe pelas narinas e o Anacleto deliciou-se, sem coragem de levar a taça aos lábios. Sentiu que era capaz de estar ali a tarde inteira de olhos fechados, a aspirar aquele perfume. Por fim, lá se decidiu. Sorveu um pequeno gole. Maravilha! Que pena a taça ser tão pequena. Mais um gole e ia ficar vazia.

Com a felicidade estampada no rosto, olhou para as outras mesas. Alguns clientes liam os jornais, em duas mesas os clientes jogavam às cartas e o empregado, sempre que dispunha de uns momentos livres não retirava os olhos do aparelho de televisão que transmitia um programa desportivo. “O cenário ideal”- pensou.

Disfarçadamente levou a mão ao bolso do casaco e retirou de lá uma mosca que deixou cair na taça. Minutos depois, fez sinal ao empregado e este não se fez rogado.

– Ó amigo, disse o Anacleto, olhe para aqui. Você serviu-me um café com uma mosca?! Valha-me Deus!

O moço empalideceu e disse com toda a humildade:

– Queira desculpar. Não sei como pôde ter acontecido, mas eu sirvo-lhe já um outro.

Momentos depois, um segundo café tão quentinho como o primeiro estava na sua mesa. E tudo se repetiu. Devagarinho, a mão desceu até ao fundo da algibeira do casaco, retirou uma segunda mosca que meteu na taça e chamou de novo o empregado.

– Ó moço, você está a gozar comigo? Serve-me um segundo café e também este traz uma mosca no fundo da chávena! Veja, isto é demais. Eu devia chamar a polícia ou fazer queixa ao seu patrão.

– Ó senhor, desculpe! – Gaguejou o rapaz, mais pálido que um defunto.- Eu vou já servir-lhe um outro.

– Qual outro, qual carapuça! Eu já não tenho apetite para mais nenhum. Passe bem! – Levantou-se e caminhou para a saída, para alívio do empregado agradecido por tudo ter terminado em bem. O cliente não chamou a polícia nem fez queixa ao patrão. Também não causou qualquer escândalo que lhe teria valido o despedimento.

Ao chegar à porta, o Anacleto sentiu que alguém lhe pousava a mão no ombro.

– Que quer, perguntou ao homem que o interpelou?

– Ó amigo – disse este baixinho -, por favor, empreste-me uma mosca!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *