A Morte Pede Carona

 Vanderlei Antônio de Araujo

(Goiânia – GO) 

Em histórias de caçacacador1dor só acredita quem quer. Geralmente, ninguém acredita, mas, gosta de ouvir. Quando o assunto é contar mentira, nunca falta alguém para contar uma de caçada ou pescaria. Meu cunhado me disse isso ao me contar esta história, que segundo ele aconteceu com um seu compadre, homem honesto e trabalhador e de muita confiança. Por isso, se aconteceu com ele eu acredito que seja verdadeiro, disse. E usando as palavras do seu compadre, ele me contou esta história:

Dia desse compadre, eu fui caçar. Peguei minha espingarda, carreguei com chumbo grosso, apanhei uma rede para nos casos de ter que dormir no mato, e fui lá para as bandas do rio. A noite chegou, e eu ainda não tinha encontrado nada. Decidi então, esperar em cima de uma árvore. Subi e armei a rede num lugar bem alto, de onde eu pudesse ver quando algum animal chegasse. Queria uma caça de carne boa, uma paca, um mateiro. Eu não mato bicho à toa. Se for só para matar o pobre animal, eu não mato.

No embornal, além da munição, levei uma lanterna, uma tigela com farofa de galinha e um taco de rapadura que era para enganar o estômago. Para passar o tempo preparei um bom cigarro de palha, com o fumo de rolo que sempre levo comigo. Acendi o cigarro e fiquei de olho bem aberto, pitando, observando, esperando… pitando.

Noite alta. Céu sem lua. O silêncio era interrompido apenas pelos pios dos curiangos. As sombras densas e espessas me fizeram cochilar e acho até que dormi. Pois, acordei assustado com um barulho que me deu um arrepio que subiu pela minha espinha, passou pelos ombros, ganhou a cabeça e deixou meus cabelos todos em pé. Meu coração acelerou e o meu fôlego encurtou. Não vou negar que tive medo. Em todos os meus anos de caçador, jamais conhecera um momento de tamanha inquietação. Olhei em volta, não vi nada.

Já recuperado do susto, voltei a cochilar. Não queria mais dormir. Para isso, fiz uma força danada para afastar o danado do sono. Por isto, eu garanto que o que vi naquela noite não foi sonho. Eu estava bem acordado, atento, quando ouvi um matraquear embaixo da árvore: Tac, Tac, Tac… Parecia barulho de queixada. Fiquei animado. Peguei a lanterna e apontei na direção do barulho, prestando muita atenção para ver quem era o autor daquele matraqueado. Não demorou muito e vi um vulto muito estranho aparecer no foco da lanterna. Mas, não conseguia entender direito o que via. Saí da rede, peguei a espingarda, desci um pouco, e então pude distinguir umas malhas brancas no bicho, parecia onça. Porém, não compreendia o que estava acontecendo. O matraquear saía das costas do animal.

Desci da árvore. Firmei a lanterna. Com os olhos bem abertos vi que era mesmo uma onça pintada. Estava tão magra que só tinha o couro e o osso. Nas suas costas havia um esqueleto pregado. O matraquear era produzido pelas batidas dos ossos do esqueleto uns contra os outros, quando ela andava. De tudo que já vi na vida, não me lembro de nada mais estranho e assustador. Vi que a onça sofria com aquele esqueleto nas suas costas. Sofria muito. Com pena dela, dei-lhe um tiro e a livrei daquele sofrimento.

Depois, calmamente, me aproximei para tentar entender o que era aquilo. Então, vi que o monte de ossos nas costas da onça era o esqueleto de um tamanduá. O bicho, certamente, numa briga com a danada, cravou-lhe as unhas no lombo; não conseguindo se soltar, morreu de fome. Enquanto a onça, sem poder parar para comer e nem beber, sofrendo de dor, andava pela mata, assustando os outros animais com aquele esqueleto matraqueando nas suas costas.

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One thought to “A Morte Pede Carona”

  1. A experiência e a coragem do caçador fizeram com que ele desvendasse o mistério.
    Na vida as experiências, tanto as negativas como as positivas, servem para despertar em nós a corgem, a inteligência e o amor. Parabéns, pelo belo texto, Fernando.
    Um abraço! Neneca Barbosa

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