A Moça do Vestido Verde

Aristóteles da Silva

(Mogi das Cruzes – SP)

moca-vest-verdeVontade de desaparecer. A cada pessoa que entrava na sala de reuniões seu coração parava. Talvez tivesse sorte, ela podia não aparecer. Vã ilusão. Ninguém podia faltar nas avaliações de desempenho de sexta à tarde. Não sem ter uma excelente desculpa. Quase conseguira uma. Fechou um contrato de fornecimento de serviços para um condomínio na Cantareira. Veio pelo Centro e depois desceu a Av. Rebouças, ao invés de vir pelas Marginais.Tudo para não chegar a tempo no escritório na Faria Lima. Mas nem o trânsito paulistano ajudou. Por alguma obra de São Cristóvão estava tudo fluindo milagrosamente bem. Em um aparte esquizofrênico, escutou seu pai gargalhando na sua cabeça:-“Ou de Santa Maria Madalena! Hahahaha!”

     Desgraçado, nem morto dava sossego. A cada lance deste imbróglio praticamente berrava nos seus ouvidos para que pulasse fora. Ou, pelo menos:-“Adotar uma filosofia Jorgebenjorniana de ser. Antes de uma nova trombada, uma marcha ré com dignidade.” Até de pastor se travestiu. No segundo encontro citou o livro de Provérbios:-“Porque furioso é o ciúme do marido, e de maneira nenhuma perdoará no dia da vingança. Capitulo 7 versículo 34” Deu risada sozinho ao se lembrar do susto que tomou quando lhe disse isso. Quase enfiou o carro em um poste.

      Mas até quando vivo entendia do riscado. Não fosse por ele teria ficado virgem até a faculdade. E teria se envolvido em muitas encrencas por pura ingenuidade. Seu primeiro emprego foi como professor substituto no colegial. Tinha 18 anos. E as meninas com 16, 17, 18 e até mais. Nas suas primeiras aulas suava frio e falava olhando um ponto fixo na parede. Meu Deus, como ria quando lhe pediu conselho. Parecia que ia enfartar-:”Pode deixar que eu dou aula no seu lugar. Lhe pago o dobro que você recebe! Hahahaha!”. Mas a sugestão que deu (e que sempre usou desde então, sem contar para ninguém), era simples e incrivelmente funcional:-“Filho, o homem é um ser de duas cabeças que não conseguem trabalhar juntas. Enquanto a debaixo estiver acordada, a de cima só faz merda. Antes de entrar para dar suas aulas, vai no banheiro e soca uma. Garanto que será um excelente professor.” E foi. Elogiado durante os cinco anos que lecionou. Por seu talento e ética. Os amigos que fez ainda perguntavam se tinha melhorado dos problemas intestinais.

      Ainda era útil conselho ao fazer negócios com mulheres muito bonitas. Mas com ela não teve eficácia alguma:-“Nunca te disse, filho? Xonou, se ferrou!” Disse. Disse muitas vezes. Como podia ser tão sábio e tão escrachado ao mesmo tempo? Durante anos teve vergonha dele. Semi analfabeto, gozador, sempre com os quatro botões de cima da camisa abertos. Demorou para se tocar de que ele tinha sustentado quatro crianças com a renda que tirava de um bar. A mãe morrera três anos depois do seu nascimento. Cresceu atrás dos livros e de um balcão. Aos 10 anos já vendia cigarro e servia cachaça. O velho quase foi preso por exploração de trabalho infantil. Mas nenhum de seus filhos se desencaminhou. Sempre respeitou as inclinações de cada um. O João ia voltar da Turquia no próximo ano para se aposentar como jogador de futebol. De terceira divisão, mas feliz. O Luiz era tenente da PM e o Carlos era mestre de obras. Nunca deixou que os irmãos o importunassem por gostar de ler e estudar. Mas era o primeiro a lhe dizer que viver não se aprendia nos livros:-“Não, pai. Se aprende carregando bêbados para casa!”. Deveria ter apanhado quando disse isso. E nas várias outras injustiças que lhe falou. Merecia o encosto galhofeiro que herdou.

      O chefe finalmente chegara. E nada dela aparecer. Se desse sorte poderia fazer um “happy rua” assim que terminasse. Já preparava seus papéis para apresentação e a desculpa para a “saída rápida pela direita”. Quando, finalmente, ela entrou.

      Loira, cabelos longos presos por um lenço que lhe dera a uns três meses. Sem tentar disfarçar sua pequena altura com um salto alto demais. Os olhos castanhos vermelhos, como se tivesse chorado. Usava um vestido verde de botões já meio surrado pelo tempo. O mesmo que vestia da primeira vez, a um ano atrás. Sua mente voltou àquele momento sublime. Sexta-feira, Fale com Ela do Almodóvar passando no Cinusp. Não acreditou quando ela se convidou para acompanhá-lo. Suas mãos se entrelaçando ao som de Por Toda Minha Vida, na voz da Elis Regina. Foram como que encantados para o motel na Raposo Tavares. Abriu-o devagar, botão por botão. Um sem conseguir tirar os olhos do outro, fascinados. E a voz do seu pai ao longe, quase como a de uma pessoa que grita no fundo de um vale:-“Onde se ganha o pão não se come car…”

      Saiu do transe quando ela lhe entregou um pequeno pedaço de papel ao passar do seu lado:-“Me desculpe. Te amo.” Nisso o chefe pediu que falasse sobre  seus resultados. Que eram ótimos, diga-se de passagem. Mas a apresentação foi péssima. Dançavam na cabeça o assunto que deveria falar, os momentos maravilhosos que o vestido verde o fazia recordar, a briga do dia anterior e o fantasma do seu progenitor que cantava alegre uma versão de Ne me quitte pas:-“C’est va se ferra. C’est va se fede. Que co moier casa da. No deve mete. Vá toma balê. Parra aprrendê. C’est va se ferra. C’est va se ferra. C’est va se ferra.”

Um comentário em “A Moça do Vestido Verde

  1. Caro Autor.
    O uso excessivo do ponto final durante a narrativa causa pausas desnecessárias e também interrompe o ritmo da explanação, afetando, inegavelmente, a coerência do texto. Economize na pontuação, use-os somente quando for preciso e deixe seu conto mais atraente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *