A Marca de Caim

 

 

 

 

(Maringá-PR)

Dois dias depois do acidente, meu irmão veio visitar-me. Ao abrir a porta, logo fui atraído pelo brilho metálico em sua mão. Seu olhar encarava-me com uma fúria medonha.

— Foste responsável pelo acidente! – dizia, apontando seu revólver contra mim. – Perdi minha amada esposa Bianca para sempre e, agora, também perco meu irmão. És um homem morto! Toma isto!…

Dizem que quando se está face a face com a morte, ela nos mostra um filme de nossas vidas. No meu caso, passou-se um filme dos dois últimos dias.

Dois dias atrás, meu irmão, como de costume, trabalharia o dia inteiro enfurnado em seu escritório no centro da cidade, deixando sozinha sua jovem e linda esposa.

Morávamos na mesma rua, quase uma casa de frente para a outra, e o que me indignava era observar o semblante resignado de minha cunhada, ao despedir-se de seu dedicado marido a cada manhã. As mãozinhas delicadas juntando-se ao peito, um tímido e angelical sorriso carmim contrastando com sua pele alva, seus expressivos olhos prateados cintilando, seus cabelos dourados cascateando por seu rosto gracioso. Bianca, ao portão, lá ficava alguns minutos após meu irmão já ter virado a esquina, lá ficava como uma inocente camponesa polaca esperando o retorno de seu soldado. E eu, entre as frestas das cortinas, ficava a admirar firmemente toda aquela beleza e formosura que meu irmão abandonava. Manhã após manhã, eu via crescer sua solidão e meu desejo por consolá-la.

Escassos eram os momentos em que Bianca se alegrava. Ir à academia era uma de suas poucas atividades, mas era sua preferida, o que muito me agradava também, porque pude matricular-me lá também e, assim, aproveitar alguns dias para vê-la exercitando seu lindo corpo. Tínhamos a mesma professora de ginástica, uma simpática morena atlética e voluptuosa, mas eu só tinha olhos para Bianca. Às vezes, para não ficar evidente de que eu ia à academia apenas para vê-la, eu frequentava outros horários, mas sempre fingia alguma atividade em meu quintal no momento em que minha cunhada voltava da aeróbica, e, assim, aproveitando que ela sempre chegava sorridente e faceira, nós dois passávamos horas conversando, até meu irmão retornar do trabalho. Conforme os dias passavam, ela era radiante apenas nos poucos momentos de alegria, e frágil na tristeza de cada dia sozinha, como uma flor, e mais certeza eu tinha de que ela não era mais feliz ao lado de meu irmão, e mais confiança eu tinha de que era em mim que ela confiava seus sentimentos.

E naquele trágico dia, não mais pude resistir vê-la desassistida. Eu havia de seduzi-la para mim.

Passando algumas horas após meu irmão ter saído, deixei sob a porta de sua casa uma garrafa de vinho com um bilhete perfumado, que eu havia digitado: “Doce Bianca, dias tristes podem tornar-se alegres com um coração aquecido. Estarei sempre ao teu lado. Considero-te mais do que uma irmã ou amiga”.

Toquei a campainha e atravessei a rua de volta, aguardando sua reação da minha porta, ansioso para ir até ela e consolar sua tristeza, pronto a dar a ela tudo o que ela merecia e que meu irmão negara todo esse tempo.

Contudo, quando Bianca abriu a porta e leu o bilhete, sua expressão saltou da surpresa ao medo. Quis ir até lá e explicar-me. No entanto, detive-me, pois ela virara o rosto até mim constrangida e com a mais profunda melancolia nunca vista, entrando em casa e fechando a porta.

Meu sangue gelou. Temi que ela contasse tudo ao meu irmão naquele instante. Previa-o retornando para casa furioso. Eu já o havia visto intimidar outros homens atrevidos apontando-lhes seu revólver carregado. Bem sabia que ele poderia usá-lo até mesmo contra mim – eu, que desde a adolescência, insinuava-me para suas namoradas.

Naquela hora, pensava em correr e desculpar-me com minha cunhada. Mas, ao ver o portão da garagem se abrindo e Bianca arrancando com seu carro em direção à cidade, entrei em pânico, certo de que só poderia aguardar pelo pior. Sem pensar duas vezes, peguei meu carro e corri atrás dela.

Persegui-a pelas ruas movimentadas a uma distância segura, a fim de que ela não me notasse, mas ela acelerava e ultrapassava carros e motos em manobras enlouquecidas. Agora, eu passava a temer pela vida de todos nós. Meu Deus! Deus? Abel que era amado por Deus, mas Caim o invejava, sendo esta sua ruína. Eu só queria ter minha própria deusa e ser amado também. Teria minha oferta a desagradado? A perdição é o destino dos invejosos?

Meus pensamentos foram interrompidos com o estrondo da batida. Ao virar a rua, vi com horror que o carro de Bianca havia sido arremessado contra um poste em uma ultrapassagem malsucedida.

Estilhaços de vidro espalhavam-se pela calçada. Pessoas aglomeravam-se ao redor. Da multidão anônima, um rosto conhecido fitava-me, uma testemunha da minha desgraça. Bruna, a professora da academia que ficava ali na esquina, observava meu desespero. Aproximando-se, comprendeu.

— Se tivesses respeitado teu irmão, nada disso teria acontecido.

— O mínimo que posso fazer agora – disse – é eu mesmo contar ao meu irmão que ele nunca mais verá sua esposa.

— Não – disse Bruna. – Sei que seria um fardo muito grande sobre ti. Eu contarei.

Concordei. Eu realmente não conseguiria. Não conseguiria admitir em voz alta que havíamos perdido para o destino o amor de nossas vidas. Andaríamos, agora, errantes pelo mundo.

Dois dias depois do acidente, meu irmão veio visitar-me. Ao abrir a porta, logo fui atraído pelo brilho metálico em sua mão. Seu olhar encarava-me com uma fúria medonha.

— Foste responsável pelo acidente! – dizia, apontando seu revólver contra mim. – Perdi minha amada esposa Bianca para sempre e, agora, também perco meu irmão. És um homem morto! Toma isto!… – gritou, largando a arma sobre a mesa da sala. – Toma, sempre quiseste mesmo o revólver do papai. Melhor eu livrar-me dessa arma antes de cometer alguma insanidade.

Continuei em silêncio, deixando-o desabafar.

— Coloquei minha casa à venda. Vou mudar-me. Não suporto a dor. E quanto a ti, sempre carregarás a marca de traidor. Vai procurar perdão com outra pessoa, porque, para mim, morreste como irmão – e foi embora.

Meu irmão estava certo. Eu precisava de perdão, então decidi escrever para quem mais amara nesse mundo:

“Bianca, sei que não podes responder esta carta. Mas, mesmo que nunca mais nos vejamos, quero pedir teu perdão, porque sei que agora foste para um lugar melhor.

Quando tu saíste do carro, um pouco abalada com a batida, e correste aos braços de Bruna, só aí percebi que meu irmão te havia perdido para sempre. Tinhas escolhido outra forma de amor que ele nunca poderia te dar. Quando Bruna beijou-te na boca e tu contaste que pensaras que meu bilhete havia sido escrito por ela, e por isso correste até ela, todo aquele momento intenso, somado ao furor do acidente, despertou finalmente a coragem contida para tu assumires teu amor secreto e despedir-te de meu irmão e ir morar com Bruna.

É irônico que logo eu tenha tido parte nisso, então só posso desejar-te felicidades. Mas se as coisas não derem certo, meu convite ainda está valendo. Estarei esperando.

Beijos, do teu eterno cunhado que te ama”.

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