A Madrinha

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

Pouco mais que um farrapo é como me sinto agora. Agora que finalmente não dependo de homem nenhum, olho para trás e suspiro.

Suspiro pela escolha que não tive, quando na minha ingenuidade me deixei seduzir pela beleza e doces palavras que me soprava ao ouvido. Ele, galante, sedutor e homem maduro, brincou com o mais puro que tinha em mim. Eu pobre donzela enamorada deixei-me seduzir pelas promessas de um futuro a dois.

Assim que a barriga começou a crescer, fui expulsa da casa onde servia. Sem ter onde morar, implorei-lhe ajuda. Não a negou, mas a ajuda que me propôs foi a mais triste da minha vida. Disse que era muito nova para ter um filho e que conhecia uma parteira…

Chorei como nunca o havia feito e perante as minhas súplicas atirou-me meia dúzia de notas para cima da cama. O meu mundo terminou quando disse o que é que eu esperava, filhos já ele tinha e que era casado e bem casado.

Nesse dia envelheci. Pensei em me matar, com os meus pouco pertences encafuados numa mala vagueei sem rumo pela cidade. Sem saber bem como, os passos calcorreados levaram-me à ponte.

Não sei quanto tempo estive de olhos postos na escuridão das águas. Um redemoinho de pensamentos toldava-me a razão. A vida não tinha mais sentido, o homem que tanto amei enganara-me com promessas e beijos sem que a minha ingenuidade descortinasse nele o aroma adocicado da mentira. A solução estava no pequeno impulso que me projectaria no abismo.

Valeu-me a paragem de um automóvel que não ouvi e uma mão firmemente agarrada à minha roupa que me arrastou para trás. Ainda hoje não sei se foi a minha sorte ou o meu malfadado destino que entendeu que não sofrera o suficiente.

Na casa da minha salvadora, tive o apoio que me faltava para levar a bom termo a gravidez. Tratada como até aí não fora, compensava-a tratando-lhe da casa durante as suas muitas ausências. Não sei o que viu em mim, mas tinha a sua protecção e só mais tarde me apercebi que Ester era uma acompanhante de Luxo que se compadeceu de mim, talvez por sentir na pele o que é ser desprezada por quem amamos.

O meu filho nasceu. Sem pai e sem mãe que “morreram” num acidente, apenas conhecia a “madrinha”. O meu pecado não tem desculpa. Ainda que o tenha metido num colégio interno caríssimo e que para o manter “embarquei” na mesma agência da minha protectora.

Era jovem e bonita e facilmente me entreguei àquele mundo do faz de conta, mas o que contava era ganhar numa “viagem”, mais um ano de vida com que sonhava: A de aposentada senhora fina. E foram muitos anos que ganhei.

Seria mentira se dissesse que não tive bons momentos nas deslocações por essa Europa em “viagens de negócios” com cavalheiros ricos que assim enganavam as esposas. Alguns apenas desfrutavam da vaidade de me terem ao lado. Outros, vestidos de cavalheiros íntegros, quando despiam a máscara eram selvagens nojentos.

Ganhei muito dinheiro que soube empregar em acções, graças a um cliente que trabalhava na bolsa. Mas na maioria das vezes sentia repulsa e nojo por vender o meu corpo. Quantas noites foram passadas ao lado de alguém a quem me entreguei, ressonava enquanto eu baixinho chorava, choros que nem as grandes quantias pagas me acalmavam.

Dei por mim muitas vezes a jurar que aquela seria a última vez que me prostituía. Mas a vida de luxo a que me habituara e a imagem da “madrinha” que trabalhava numa multinacional, sempre em viagens, pelo mundo fora e que a impediam de estar presente, tinha de ser mantida.

À distância seguia todos os passos do meu filho. Via-o sorrir sempre que o visitava, dava-lhe tudo que precisava, menos o carinho de uma mãe, embora jamais se pudesse queixar do carinho da “madrinha”. Para não correr o risco de ser reconhecida por algum cliente as férias eram passadas na europa em hotéis.

Formou-se em medicina o meu menino. Mais tarde por ser a única família que tinha acompanhei-o no pedido de casamento que fez aos pais da noiva. Tudo corria bem quando fui apresentada ao seu professor da faculdade que também estava presente. Empalideci ao dar de caras com ele. Tratava-se de um cliente a quem abandonei depois de me tentar sodomizar. Nunca me perdoou.

Poucas semanas depois do casamento do meu “afilhado”, este, entrega.me uma carta que recebera do professor onde contava que eu era uma acompanhante de luxo. O meu mundo ruiu naquele momento, à falta de coragem para me defender chorei, e sem dar mais explicações gritei: «Fui, já não sou!»

Agora que a mentira foi assumida, resta-me sonhar que um dia possa perdoar-me. Ainda assim como “madrinha”, porque a vergonha será menos dolorosa do que se viesse a saber que a “madrinha” é a mãe que em tempos ganhou o sustento e posição, deitando-se com este e aquele.

 

One thought to “A Madrinha”

  1. Exatamente como na expressão “as voltas que o mundo dá”. Tristezas, infortúnios, alegrias, arrependimento, etc. Mas viver na pobreza é um peso que a grande maioria das mulheres (no mundo) suportam. Nem fiquei com muita dó da Madrinha!

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