A Luz Da Caniceira

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

Para mim, era uma pesquisa com razão de ser. Para outros, era coscuvilhice enraizada de quem não tem mais em que se ocupar. Mas esse acontecimento martelava-me a cabeça a ponto de chegar a sonhar com ele.

Munido de muita perseverança, avancei cheio de fé, de que haveria de deslindar o mistério. Os entraves à pesquisa deram-me o alento necessário para continuar, mormente o escárnio de alguns. Assim, contra tudo e contra todos, dirigi-me à velhinha e carunchosa biblioteca do lugar.

Depois de muitas tossidelas e muitos alfarrábios tirados do lugar, dei comigo a pensar como era possível tal fenómeno não estar registado naquelas bolorentas páginas. Frustrado por não encontrar nada naquele monte de livros, exprimi em voz alta o meu desalento.

– Não desanime meu jovem. – Tentou animar-me o velho Alfredo – porque não tenta o alfarrabista da Vila. Ele tem o negócio de compra e venda de livros e jornais que já vem do tempo do avô.

Saí mais animado pela sugestão. Como é que não me tinha lembrado que se queria uma notícia do passado era lá que se encontrava. Era um alfarrabista que desde o tempo do seu avô coleccionava os jornais da região, guardados religiosamente e que agora serviam de testemunho do passado. Era possível ter-se uma cópia de qualquer daqueles jornais bastando dizer a data pretendida, e claro, deixar. uns cobres para ajudar a manter aquele monte de celulose com boa aparência.

Mais um problema, pois não sabia a data ou mesmo se alguém tinha registado a noticia. Valeu-me mais uma vez uma pessoa mais velha que se lembrava do pai ter falado desse estranho caso. Aconselhou-me a tentar o registo de baptismos na diocese. Foi complicado conseguir autorização, mas a sorte esteve do meu lado quando bati de frente com um ex-seminarista meu conhecido que trabalhava no local. Depois de lhe ter contado ao que vinha, conseguiu autorização para basculhar. Por fim, lá estava escarrapachado, preto no branco o ano com tantos registos de nascimento. Ano de 1944, em plena guerra mundial.

Para quem tem lido até agora, já se deve ter interrogado sobre o porquê da minha pesquisa sobre nascimentos, e decerto, já terão pensado; “este gajo é parvo ou faz-se”. Mas antes que me teçam mais piropos, deixem-me esclarecer: Sim, naquele ano houve mais nascimentos de que nos anos transactos. Porém, isso pouco ou nada tem de anormal. O anormal foi todos nascerem no mesmo mês, com um ou dois dias de diferença.

Então, já captei a vossa atenção? Penso que sim! Mas o que é que houve para se dar tal acontecimento?

Uma corrida até ao alfarrabista e lá estava no “Noticias da Caniceira” da primeira quinzena de Setembro de 1944.

«Uma estranha luz iluminou por minutos a nossa vila». – Seguia-se um pequeno desenvolvimento da notícia. – «Uma estranha luz iluminou a nossa vila cerca das 21horas, causando o pânico entre as pessoas. Julgando ser um ataque de uma nova arma, toda a gente se refugiou em casa. Nós mesmo o fizemos, pelo que não sabemos ao certo como desapareceu a estranha luz».

Perante estes factos, juntei dois e mais dois e reparei que após este fenómeno e os nascimentos, decorreram precisamente nove meses. Que estranha coisa! Como é que o medo fez gerar tanta criança?

A minha cabeça estava agora num turbilhão de ideias. Se antes queria saber se era lenda ou não, agora, confirmada a luz e os nascimentos fui novamente ter com o velho Alfredo trocar ideias. Depois de pô-lo ao corrente do que descobri, disse-me:

– Pois é António, agora me lembro de o meu pai ter-me dito em criança, por eu já olhar para aquela que veio a ser a minha esposa. “Rais ta partam moço! És um assanhado tal qual o teu avô. Na noite da luz, aquele diabo com noventa anos desinquietou a tua avó, que a pobre ao outro dia queixava-se de acordar toda moída».

– Estanho fenómeno, não haja dúvida! – Exclamei.

– Não terá sido algum milagre? – Riu o ti Alfredo.

– Não o creio Ti Alfredo. Estou mais virado, ainda que seja um pouco céptico quanto a isso, para uma nave espacial, de seres de outros planetas e que tenha gerado em nós esse efeito de procriar.

– Olha, eu fazia uma coisa parecida na altura de emprenhar as ovelhas. Prendia o carneiro num curral sozinho durante um mês e alimentava-o bem. Quando era altura, soltava-o, e era um ver se te avias que as ovelhas até andavam de lado. – Observou o ti Alfredo, soltando uma sonora gargalhada.- O bicho até arreganhava as fuças!

5 thoughts to “A Luz Da Caniceira”

  1. Caro Lorde.
    Confesso que à primeira leitura fiquei um pouco confuso, porém, com mais atenção e graças as “modernagens” apelei para o sábio, o culto, o inteligente Google que me acudiu e “para mim, era uma pesquisa com razão de ser”. Percebi, então que a história é passada em uma aldeia portuguesa nomeada Caniceira. Pedi, também, socorro para o dicionário e soube do que se trata o alfarrabista da Vila. Mas “antes que me teçam mais piropos” durante as conclusões jamais cheguei a pensar do autor que “este gajo é parvo ou faz-se”. E depois meditei julgando o escritor: “És um assanhado tal qual o teu avô”. “Mas não acredito que com noventa anos desinquietou a tua avó”, tanto “que a pobre ao outro dia queixava-se de acordar toda moída”. Enfim, esclarecido, vim a entender o Aníbal Correia quando finalizou “Assim proliferaram alentejanos como coelhos”
    GRANDE LORDE!!!!!!!!!!!!!

    1. Desculpe a trabalheira que lhe dei amigo Flavio, mas como falamos a mesma língua pensei… deixe pra lá! Eheheh.
      Alfarrabista é o mesmo que Sebo aí. A primeira vez que ouvi falar em Sebo achei bastante curioso, mas com grande razão de ser, porque certos livros foram tão manuseados que a gordura das suas páginas, (sebo) daria para fazer uma vela. Um abraço meu caro escritor!
      PS: Onde se lê “Estanho” fenómeno… Deve-se ler Estranho fenómeno

  2. História verídica e ainda hoje existem traumas dessa luz que atormentou os Alentejanos.
    Um obrigado ao lorde que trouxe à tona acontecimentos caricatos de outrora.

  3. Aqui onde o mar é mais azul a coisa foi quase assim e ainda está cá para o contar,quem na pele o sentiu:Tiveram muito medo mas ficaram muito gratos, porque graças à luz da caniceira tiveram a oportunidade de arrebatar os três às namoradas e os quatro às sogras, o pânico era de tal ordem que encafuados debaixo das mantas já ninguém sabia quem era quem.
    Assim proliferaram alentejanos como coelhos.

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