A Dívida

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

– Desesperado fui ter com o médico da preguiça.

– Da preguiça?

– Sim, o tal que nos manda deitar e, sentadinho sem mexer uma palha, vai entabulando uma conversa para nos fazer falar. Lá falar até falei, acho até que falei demais. Olhos no tecto mirando o formato do candeeiro, ia deitando pra fora, a raiva, o temor a angústia, até que me secou a garganta. Virei-me pro lado, para beber um pouco de água e vi que o meu confidente dormia.

– E você não disse nada?

– Dizer o quê? O homem dormia tão bem que até era pecado acorda-lo. Sem fazer barulho vim-me embora.

Passados dois dias, recebo uma mensagem dizendo que não efectuara o pagamento da consulta, cujo total era cento e vinte euros.

– Essa é pra rir, não é Tiago?

– Pra rir não, pra chorar. Atão não é que o estupor me ameaçou com um advogado, só porque não lhe respondi passado que era uma semana. O cara de pau fez-me voltar lá. Já era tarde quando cheguei, todavia, sabia que dava consultas até quase à meia-noite. Da rua tinha visto luzes, mais descansado, subi, no entanto na recepção, ninguém. Esperei, esperei e nada de aparecer gente. Fui até à porta do consultório, encostei o ouvido e pareceu-me que alguém ressonava. Se antes saí de fininho, de fininho entrei. Na cadeira, o médico dormia todo refastelado, e no lugar reservado aos pacientes, uma linda jovem, meio descomposta, também dormitava. Tinha todo o jeito de ter recebido uma sessão de uma especialidade que nada tinha a ver com psicologia.

Como não sou homem de complicar a vida a ninguém nem tecer juízo de valores, fáceis de entender por quem tem telhados de vidro, resolvi sair sem que dessem por mim. Às arrecuas de olhar vidrado naquele pedaço de mulher, tropecei na mesinha das revistas em tal aflição que quase me sentei em cima do doutor. Atarantado acordou sobressaltado, grunhindo:

– E que mais, e que mais. – Dizia.

A pobre menina com tal estardalhaço deu um grito, tapando desajeitadamente o motivo que me fez tropeçar, soltando: «Tá a ver doutor, é este o meu problema» e, saiu sem que eu ou o doutor abríssemos a boca.

O doutor já refeito da surpresa, tomou a pose de dono do consultório e sem dar parte de fraco estendeu-me a mão dizendo:

– Então o que o trás por cá?

– Naquele entretanto confesso que me passou uma coisinha má pela cabeça, apetecendo-me agarrar-me ao gasganete daquele fingido, mas contive-me por entender que há pessoas que nem com um café bem forte acordam.

Disse-lhe que vinha por causa da ameaça que me fez com o advogado devido um pagamento. O homem arremelgou os olhos, levantou-se, deu um jeito na camisa desfraldada, vestiu a bata e gritou pela Etelvina, a empregada.

Estava completamente desperto. A menina da recepção apareceu completamente restaurada, ainda que as cores na fachada…

– Fachada?

– Sim homem, a pintura na cara, aquelas porcarias que elas metem para nos agradar, mas que ficam danadas quando lhes borramos a pintura.

Continuando: Cochicharam, o que me enervou, ele de costas para mim e ela à sua frente nem dava para ver a reacção ao que ele lhe dizia. Pouco depois, aquele malvado saiu da frente podendo-me ser dado ver o seu lindo rosto mais escarlate que vestes de cardeal.

Pediu desculpas, mas alguns caloteiros e a força de hábito tinham-na precipitado ao me ter enviado essa carta. Se ela estivesse sozinha até que lhe aceitava as desculpas e lhe propunha bebermos um copo… e quem sabe. Mas não, o mestrunço continuava ali, fixando-me como rafeiro esfomeado, pronto a rosnar se avançasse. Fingi que não me apercebia, e com o meu mais rasgado sorriso disse que essas coisas acontecem…

– Pronto, pronto senhor Tiago, uma vez que está tudo resolvido… – Interrompeu o médico franqueando-me a porta, ao ver que a conversa com a Etelvina se estava alongar.

– Como está resolvido? Ainda falta a questão que me trouxe cá, o pagamento.

Com o ar mais hipócrita deste mundo, agarra-me no braço e diz para esquecer isso do pagamento.

Não resisti, puxei da culatra atrás e mandei-lhe um pinhão mesmo no centro das ventas que o atirou novamente para cima do cadeirão a dormir. Saí e disse à jeitosa que me ia embora, mas voltaria.

– Mas afinal qual era o seu problema para ir ter com o psiquiatra?

– A dívida de quatro pneus que o safardana se esqueceu de me pagar.

 

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