A Despedida

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(Maringá – PR)

Não bastava o casamento enterrar a infância. O marido resolvera fazer uma faxina na casa, decidido a jogar fora tudo o que é velho. Certa tarde, ele tivera a triste e fatal ideia. Pegou um saco de lixo preto e pediu que eu jogasse fora algumas das pelúcias mais antigas da minha infância, que ficavam em cima do guarda-roupa.

Essas parafernálias velhas afetavam a rinite, ele dizia.

Comecei descartando alguns bonecos de pelúcia espevitada, até chegar às lembranças mais profundas. Então, no meio daquela despedida, apeguei-me a uma antiga pelúcia de coração rosa, que quando apertado costumava acionar uma luz vermelha enquanto reproduzia a frase: “Te amo!”.

Era um presente que um tio meu muito querido havia me dado na infância, mas o coração não mais brilhava nem mais dizia que me amava. Era apenas uma memória querida, mas empoeirada.

Meu marido bufava, sacudia a sacola, coçava o nariz ranhoso, incentivando-me a jogar fora aquele coração da infância.

Mas eu não queria despedir-me assim tão facilmente do que era uma parte de mim. Eu queria provar que aquele coração ainda funcionava. Deitei-o sobre a cama e comecei a apertar e a apertar aquele coraçãozinho, quase que em uma massagem cardíaca, mas nada do coração renovar as funções de outrora.

Após algumas tentativas sem sucesso, desolada, eu fechei os olhos marejados e descartei a pelúcia naquele poço escuro. No entanto, ao cair no fundo da sacola, eis que o já declaradamente falecido coração começou a piscar sua antiga luz vermelha de outrora.

Abri um sorriso de alegria e espantei-me ao ver aquela luz vermelha pulsando de dentro daquele saco preto da morte de brinquedos. Naquele momento me vi sendo projetada inevitavelmente para algum filme com cena semelhante.

Vivo!

Meu coração estava vivo!

Um lampejo de alegorias filosóficas me invadiu a mente naqueles segundos de reanimação. Retirei rapidamente das profundezas meu coração revivido e o abracei com todas as forças.

E bem fraco e distante o ouvi responder: “Te amo!”.

Sim, infância, eu também te amo.

cometario

 

Um comentário em “A Despedida

  1. Sim, acredito no amor da infância, já o do marido, o tal do nariz ranhoso, não sei não. Quando certos pormenores vêm ao de cima é sinal que o amor se foi. Suave, mas é um conto agradável.

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