A Dança do Corre Nu

 

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(Salvador – BA)

I

Chovia. Era natal de 16…

E dentro da cabine, Jesus apertava com força o telefone na orelha. O sinal estava péssimo. O celular de Jesus tinha sido roubado por um pivete na semana passada.

Tinha uma lista de amigos e parentes num papel laranja surrado… eram dezoito pessoas. E estava discando há mais de uma hora. As pessoas não atendiam… ou atendiam e conversavam pouco. O que existiu anos atrás não foi conservado. Não há formol nos assuntos da vida. Não há Banho Maria. Não dá para enlatar um relacionamento e abri-lo quando sentir fome.

Então depois de tentar os dezoito números, saiu assobiando. Ele assobiava uma canção da banda Radiohead, chamada “No Surprises”, e andava com as duas mãos nos bolsos da jaqueta blue jeans.

II

Sueli era cabeleireira e era natal de 16…

O seu primeiro natal depois do divórcio. Não estava triste, mas parecia que algo tinha sido retirado… como um braço ou um rim… e ainda não tinha conseguido pôr nada no lugar. Então resolveu trabalhar no natal, doze horas seguidas – ou mais-, já que seu filho estava com a família do pai e era justo porque era uma família maior e mais apegada, e a dela morava em outro estado.

Andava pela rua e estava prestes a chover… usava uma jaqueta blue jeans e com as duas mãos dentro dos seus bolsos, pôde sentir que havia um espelho velho, um pente fino e um batom. Ela assobiava um axé de outros carnavais, chamado “Prefixo de Verão”.

III

Carlito olhava para cima.

Nariz empinado. O elevador de cadeira de rodas do ônibus nunca funcionava direito. Os olhares em volta diziam muito. A impaciência… ele subia devagar em sua cadeira, com olhar altivo. Não podia dar espaço para comentários escrotos… pessoas escrotas. Tinha pernas finas, mas era musculoso no tronco e nos braços. Gostava de esportes e carregar pesos. Ganharia uma medalha se houvesse uma chance. Seus cabelos eram enormes e pretos que desciam em seus ombros.

Desceu em seu ponto e na rua chovia. Usava uma jaqueta blue jeans de motoqueiro, surrada, que cobria uma camisa do Black Sabbath. Ele prosseguia e assobiava – sempre com um ar de arrogância – uma música do Léo Jaime, chamada “Solange”.

I, II, III & Fim

Encontraram-se na praça da igreja, esperando que encontrassem aquelas portas abertas. Mas com a violência da cidade, não se abre porta de igreja para cachorros perdidos. Olharam em volta e depois se entreolharam. Carlito deu um suspiro impaciente e tentou se virar rapidamente mas as poças d’água faziam a cadeira de rodas derrapar. Jesus e Sueli se olharam rindo zombeteiramente. Os três ficaram parados ao perceberem que era natal e a iluminação estava linda na praça. Renas verdes, estrelas azuis e prateadas, uma enorme árvore verde com bolas de todas as cores e por um Papai Noel que tentava escalar a mesma com uma escada. Os três se olharam e continuaram parados ao perceberem que não tinham para onde ir.

– Eu tive uma ideia. – Disse Sueli.

– Fala… – completou Jesus, com desdém. Como quem diz… “lá vem bobagem…”

– A gente deveria ficar pelado… e… bem… correr pela praça.

Caíram em gargalhadas até perceberem que ela realmente falava sério.

– Não sei se tu és cega, baby. Mas, correr não é muito fácil pra mim. – Respondeu Carlito, o arrogante.

– Tsc… Corra do teu jeito, ué. Ninguém tá te dizendo como correr…

Sueli começou a tirar a roupa e os rapazes lhe acompanharam.

Antes que pudessem refletir e se incomodar com suas vergonhas, Sueli deu um tapa com força em Jesus e gritou.

– PIQUE! TÁ COM VOCÊ!

E saiu correndo, desajeitada, aos risos. E eles foram logo atrás enlouquecidamente em meio a risadas infantis.

Hoje são amigos, e não ficam mais sozinhos no natal. Além disso, quando são eles que contam a história, juram de pé junto que o Papai Noel esteve lá, ficou pelado, e entrou na brincadeira.

cometario

2 comentários em “A Dança do Corre Nu

  1. Papai Noel entrou na brincadeira, sim. E quem empurrava a cadeira do Carlito, senão ele? Contexto dez, Henrique. Gostei! Gostei, sobretudo, do “Não dá para enlatar um relacionamento e abri-lo quando sentir fome”.

    Um abraço,
    Tião Carneiro

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