A Dama Do Elevador

 

 

 

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São Gonçalo – RJ 

Era uma manhã simples. Dessas que a gente assiste todos os dias numa cidade ensolarada.

O céu azul, as abelhas beijando as flores abertas pensando ser beija-flores. Não eram. Eram abelhas zunindo de flor em flor. Os velhos, sentados na praça jogando damas ou sueca, pasmavam vendo as moças passando.

Moças bonitas. Elegantes. De chapéu na cabeça para se protegerem do sol e echarpe para derramarem charme e deixarem os velhos apreciando a bela manhã, o leve pisar das moças no chão imundo de uma cidade que não dormia na madrugada.

Todos dormem.

Menos a cidade.

E eu abro a porta do elevador para que a dama entre. Todas as manhãs das segundas e sextas-feiras. Já sei o horário dela. Bom dia. Sempre com um sorriso mal disfarçado na cara lhe abro a porta, dou bom dia e fico olhando ela entrar no elevador. Mansamente, como se ela tivesse todo tempo do mundo. Não sei se ela tem esse tempo todo. Eu não tenho mais pressa. Já corri muito nesta vida. Fiz maratona, atravessei rios e oceanos na marra e no braço, nadei contra a correnteza e não sei nem ao menos o nome da dama do elevador. Sei que ela usa batom carmim e uma roupa não sei se discreta, não sei se escandalosa. Nem sei se ela me responde ao meu cumprimento ou ao meu sorriso. Fico suspenso. Ela entra e enche o elevador com graça. Fico feliz. Somos somente eu e ela. Todas as segundas e sextas-feiras. Não sei se ela desconfia de alguma coisa, não sei se ela me teme ou me tem amor, não sei se posso chamá-la de Margot, de Susana ou Camélia, não sei se ela pensa que eu faça alguma maldade com ela. Sei lá, esse mundo de hoje, todo virado, não sei nem se ela gosta de bolo de fubá com café preto e quente. Quentinho. Será que ela gosta de mim ou de João? Com João ela ri, ela brinca, ela fala alguma coisa engraçada. Morro de ciúme. O João não me conhece, mas eu o conheço e morro de raiva dele. Quero a dama do elevador só pra mim. Quero convidá-la para um passeio pelo jardim. Quero lhe dar uma rosa roubada de um roseiral, que tinha lá na minha infância, numa chácara. Rosa vermelha. Mas tenho vergonha, sou tímido e não me arrisco a um passo mais ousado que não seja abrir a porta do elevador com um sorriso na cara e um bom dia nos lábios para que a dama dos meus sonhos entre sempre com um cheiro bom de perfume.

Cheiro doce.

O aroma das abelhas beijando as flores das árvores como fossem beija-flor.

Não são.

Mas, não faz a menor importância.

Eu sei que hoje é um outro dia. Sexta ou segunda, talvez. Uma nova manhã. Visto a minha melhor roupa e vou para o térreo do meu prédio para aguardar a dama do elevador chegar. Ela sempre desce no quinto andar e eu sigo viagem. Ela nunca responde ao meu bom dia nem recolhe o meu sorriso, João, no quinto andar abre a porta, abre e fecha a carteira e me olha com desdém.

 

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