A Crise

 

 

 

 

 

Itabi – SE)

O assento da cadeira torna-se extremamente desconfortável. Minha mente lança várias ideias num só instante, não sou capaz de raciocinar com clareza e lucidez, não compreendo o que a voz das pessoas que falam comigo diz, escuto-as, porém, não as entendo de forma plena. As mãos começam a suar e o desespero possui-me: ela voltou. Mais uma crise.
Repito, várias vezes, o quanto sou forte e como devo resistir ao choro preso na garganta. Respiro fundo uma, duas, três e quatro vezes. Minha visão começa a ficar turva e as pessoas começam a perceber o desespero e a desconexão dos meus movimentos sutis. Melodias começam a tocar dentro da minha cabeça, misturam-se a vozes pessimistas e obscuras que fazem questão em lembrar o meu lado fétido; um grito de socorro ecoa no fundo da minha consciência enferma, meus pelos se eriçam com choque horripilante descarregado periodicamente em meu corpo. Agora, já instalada e corroendo a minha estabilidade, a crise começa a se espalhar por onde eu guardo as coisas boas: onde está o amor, a felicidade e a satisfação comigo mesma.
O veneno da negação começa a manifestar seus efeitos colaterais e eu temo não conseguir resistir por muito tempo. Despeço-me dos meus pais, beijo-os como se estivesse caminhando para um sono tranquilo e reconfortante. Vou até o quarto, minha irmã dorme um sono tão profundo que me causa enorme inveja; visto minhas roupas largas e olho em volta: o quarto escuro remete ao meu estado de espírito triste, sádico e masoquista. Deito o meu corpo na esperança de domar os medos, de vencer a tristeza e respirar o ar cansado da calmaria após a tormenta.
Meu coração acelera dolorosamente, um sentimento podre invade-me a alma e desato a chorar. O subir e descer do peito me faz soluçar, já não respiro com facilidade. O teto gira como um espiral sem fim, minha cabeça lateja: reúno as sobras das minhas forças numa tentativa falha de me recompor. Choro por tanto tempo que não percebo que sou a única com os olhos abertos dentro desta casa agora. A televisão que antes fazia companhia aos meus pais, fala sozinha; o celular do meu pai que, certamente, antes o divertira, repousa em algum pedaço de chão em seu quarto; e eu, que antes estava acompanhada da solidão, continuo abraçada nela sem previsão de ruptura.
O cansaço domina o meu corpo, mas o sono teima e teme chegar até a mim. As paredes brancas me trazem uma sensação momentânea de paz, consigo sentir o medo sendo reconhecido, sinto o sangue ser bombeado por um coração repleto de medo e angústia, a minha mente ainda continua a lançar-me negatividade e verdades. O retorcer de um estômago vazio faz sufocar um grito de desespero, uma súplica por piedade, um apelo de salvação. Mas quem poderá me socorrer, senão eu mesma? Estou fraca, mal posso administrar a entrada e saída de ar dos meus pulmões, sequer penso lucidamente. Uma onda fria percorre a espinha e meu corpo treme sozinho na escuridão de um quarto compartilhado; experimento, nos próximos minutos, o sabor amargo da dor que não é física, do arranjo melódico do sofrimento e o divertimento do meu eu em maltratar-me daquela maneira.

Subitamente, assim como quando chega, ela se vai: não sem antes socar-me o estômago, não sem antes ferir o meu ego, não sem antes me dilacerar. A situação demora a normalizar e o sono ainda reluta em dominar um alguém que já cansou de batalhar por algo que não compreende e gosta. A certeza de acordar e começar um novo dia e escrever mais um capítulo da minha existência não recobra os meus sentidos. Estou surda, cega e nocauteada. Lembrar de mais uma oportunidade (que é o amanhã) para me machucar é o que faz com que ela se vá. A cura para o meu sofrimento é a certeza que no próximo dia terá mais, a cura da dor sustenta-se na própria dor, na ideia de facilidade em possuir e arrancar o que tenho de bom. O antídoto contra o veneno ansiedade é admitir que nunca estarei livre, que nunca estarei sã para voar meus próprios e autênticos voos, é saber que o dia que estar por vir será repleto de agonia e, por mais que a sensação de paz me tome o peito neste instante, não a terei por muito tempo.
Penso nas flores, nas cores, nos aromas e sabores e em como eles são livres e autônomos, como deve ser prazeroso estar disponível para a liberdade… A esperança inexistente em meu ser aponta como a luz do rabo de um vagalume forçando-me a acreditar que ainda há pelo que lutar, que minha saúde mental ainda se tornará plenamente sã… força-me a crer que eu ainda sou algo pelo que vale a pena batalhar, mesmo que seja derrotada em todas as lutas.
A esperança me faz creditar a vida na luta que é sorrir todos os dias, estar externamente perfeita e saber conciliar a imensidão de sentimentos aqui dentro com o vazio do mundo afora. A esperança me apresenta ao sono, que gentilmente tira a ressaca pós-surto, que me livra da dor e recarrega as energias para que os meus olhos enxerguem, no dia que amanhecerá, uma espada com a qual terei de enfrentar, mais uma vez e quantas vezes forem necessárias, a minha inimiga ansiedade. É ela, que no fim das contas, me faz batalhar tão fiel contra meus medos objetivando conquistar o território cujo solo é fértil ao ponto de fazer florescer as sementes de uma espécie quase extinta em meu ser: a felicidade.

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