A Casa Mal-assombrada

 

 

 

 

(São Leopoldo – RS)

Santana do Cafundó, Pernambuco- 1942

O primeiro amor a gente nunca esquece. Nem das travessuras de moleque, ou as aventuras de adolescente. Pois, me lembro daquele desafio lançado pelo Quiqué. Naquele tempo tinha 11 anos e era magro como o bicho-pau.

O Zeca, topou de cara e eu também, é claro!

– Entrar pela porta da frente e sair pela dos fundos. – foi o desafio lançado pelo Quiqué. A porta em questão era a da casa abandonada, que havia nas imediações da vila. Dizem que lá dentro soam gemidos, trincar de dentes e tilintar de correntes.

– Vamos essa noite. – afirmei.

– Hoje não vou poder… – começou o Zeca.

– Vai poder sim, Zecagão. No piar da coruja quero ver os dois lá na casa. Quem não ir, vai ganhar o troféu Bosta de Vaca e será chamado de mulherzinha.

– Você não tem medo de topar com um fantasma? – perguntou Quiqué.

– Claro que não! Tenho a coragem de Virgulino.

– Qui queé?

– Lampião, seu burro, rei dos cangaceiros! Para provar que sou corajoso, serei o primeiro a atravessar a casa assombrada.

Na minha ideia, seria moleza entrar correndo pela frente e sair pelos fundos. Era só percorrer o corredor, que dava reto do outro lado.

Assim, quando o dia começou a findar e a coruja a piar, sai de casa e fui para o local combinado. Quiqué e Zeca lá já estavam sentados ao pé de um imbuzeiro.

Ninguém disse nada, ficamos olhando a casa mal-assombrada, Era mais comprida do que larga, tinha uma varanda ao redor, nas velhas paredes havia apenas sinais da antiga pintura, um branco encardido.

– A porta deve estar trancada. – disse o Zeca. – Acho que nós vamos ter que desistir. Não vai dar para entrar.

– Estou vendo daqui que não tá, não. – retrucou Quiqué, estreitando os olhos. – Tá meio que aberta.

Um trovão ribombou na distância. Grossas nuvens começavam a surgir no horizonte.

– Acho melhor a gente acabar com isso. Vem uma tempestade aí.

– Não é melhor desistir? – tornou o Zeca. Olhei-o bem nos olhos.

– Se você desistir, vai ganhar o troféu e ainda será chamado de mulherzinha.

– Isso mesmo. – concordou Quiqué. – Quem vencer será chamado de Bravo Guerreiro e o seu feito será lembrado por toda a eternidade.

Quiqué colocou a mão nas minhas costas e me empurrou. – Vai logo, não disse que é o primeiro? Se você passar pelo vale das sombras, eu também passo.

A noite caia depressa e um vento impertinente começou a soprar. Respirei fundo e passei por cima do portão de ferro tombado no chão. A velha casa se avolumou na minha frente, escura e fantasmagórica. Como bem dissera Quiqué, a porta estava entreaberta. Eu precisava correr. Os trovões se intensificavam e a chuva não tardaria a cair. Subi os dois degraus da escada da varanda e me posicionei diante da porta.

De repente ouvi gritos. Voltei-me e vi meus dois companheiros correndo como loucos, morro abaixo. Até parece que viram um fantasma! De repente surgiu algo na esquina da casa que me deixou com os cabelos da nuca em pé. Em princípio julguei ser um fantasma, mas depois percebi que era uma mulher de carne e osso. Era dona Madalena, viúva do falecido açougueiro da vila, o Durvalino Cambota.

Ao me ver, ela sorriu, ajeitando uns fios de cabelos atrás das orelhas.

– Ainda bem que temos um abrigo!

Sacudi a cabeça, olhando para a chuva que caia. Eu não sabia se ia embora ou ficava. Fiquei meio abobado com aquela aparição. Madalena era uma mulher bonita de doer. Eu sempre admirei ela, vendo-a passar pela rua quando ia ao mercado, sorrindo e cumprimentando todo mundo. Voltava carregando uma sacola e eu pensava em perguntar se precisava de ajuda, mas nunca tive coragem. Eu era muito envergonhado. Madalena devia ter uns vinte e poucos anos e eu 13.

– Fui levar um vestido na costureira. Se soubesse que ia chover não tinha ido! – disse ela, com aquela voz macia, aveludada. – E você, o que está fazendo aqui?

– Como a senhora, fugindo da chuva. Se bem que, eu não me importo em me molhar não e acho que vou embora.

A proximidade com aquela mulher me deixava num estado de graça. Sentia uma sensação muito gostosa de paz e conforto. Não por que ela fosse mais velha que eu. Algumas pessoas são assim, tem uma aura muito boa e Madalena tinha. Madalena era um espírito evoluído.

Eu pensei em ir embora exatamente por gostar dela e respeitá-la. Até dei um passo para frente, mas um trovão estourou bem sobre nós e eu me assustei. A viúva puxou-me e me abraçou como se eu ainda fosse uma criança.

– Não saia daqui! É perigoso sair ao ar livre quando está trovejando. Um raio pode pegar em você!

Agradeci mentalmente aos raios por aquele momento, quando Madalena me envolveu com seus braços e eu fiquei com o rosto colado aos seus seios. Claro, havia um tecido entre minha pele e a dela, mas mesmo assim, pude sentir a maciez e o volume daqueles seios. Mas, mesmo gostando daquele abraço, me desfiz dele com delicadeza, em respeito a espontaneidade e a ingenuidade daquele gesto.

Ficamos encostados na parede, esperando a chuva passar. Madalena virou o rosto para mim e esboçou um sorriso.

– Você é um bom menino. – disse e me beijou na testa. – A tempestade passou. Tchau!

Ela saiu andando devagar, pegando a trilha da direita e eu segui pela da esquerda. Madalena voltou-se, acenou com a mão e sumiu atrás do morro. No outro dia, fiquei na varanda de casa esperando ela voltar do mercado com a sacola cheia de compras. Eu estava pronto para oferecer ajuda, mas a viúva veio acompanhada. Um homem carregava a sacola para ela. Os dois conversavam e riam como dois pombinhos apaixonados. Com um suspiro de resignação, entrei em casa e fui fazer o dever da escola.

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