A Antiga Garota de Ipanema

 

 

 

 

(São Paulo – SP)

De manhã, andar pela praia de Ipanema é tão inspirador, mas quando anoitece e você está sozinha em um conjugado, sendo ainda recém-casada, a sensação que nos chega é outra. Sobe dentro da gente um medo de perder o controle, desesperar por causa da porta do apartamento aberta.

Mônica pensa assim e sai da cama para verificar a tranca da porta. Fechada. Ela respira fundo. A porta fechada garante a tranquilidade da sua noite até o marido voltar.

Amanhã Mônica caminhará pelo bairro, visitará a banca de flores na rua Visconde de Pirajá, achará o mundo que se enche de graça, como fala a canção. Um segredo que vem por causa do sol, do vento batendo nos rostos… Agora quando anoitece é diferente – pensa Mônica. O apartamento pequeno vira alvo de ladrão, um bandido que andou à espreita e quer entrar nesse dormitório pela porta principal… toda aberta.

Mônica levanta da cama novamente para averiguar a tranca. Talvez haja uma falha em todos os ferrolhos do mundo, talvez ela tenha aberto a porta pensando que estivesse fechando e se não fechar neste momento… o prejuízo será inevitável, porque o ladrão subirá as escadas. Trará uma flor, o malandro. O que não significará nada, pois ele levará tudo: as joias do seu porta-joias, os seus sapatos novos, as lembranças boas da cidade do Rio.

– Meu Deus… está fechado! A chave na fechadura…

Ah, o Rio de Janeiro nas manhãs do ano de 1963 vale uma canção. A canção diz que todas as mulheres do mundo devem ser amadas, porque todas são um pouco cariocas. Mesmo as casadas são cariocas, mesmo as que nasceram em outra cidade e esperam a volta do marido depois das nove da noite. É preciso ter medo apenas depois da nove, porque a escuridão é um problema. Deixa os apartamentos abertos e as janelas faíscam; provocam as mulheres casadas a três meses, com 22 anos de idade. Surge uma aflição por não serem mais solteiras, quando lembram do tempo em que portas eram problemas da casa dos pais.

Agora os acessos pertencem as mulheres casadas e estão abertos. Eles abriram com o vento.

Mônica se levanta novamente para fechar o seu apartamento. Poderia empurrar o sofá. O bandido entrará mesmo assim e o que ela fará, se mora no terceiro andar? O ladrão sabe que esposas não voam. Esposas nem sabem girar ferrolhos, principalmente as garotas de Ipanema.

A porta está bem trancada, com duas voltas. Foi por acaso a tranca. Mônica não lembra quando fechou.

Amanhã a previsão é de sol no Rio. Um sol limpo que cintilará o Morro Dois Irmãos. Mas o problema vem com a noite quando este apartamento alugado tão barato fica aberto. E fica aberto porque o aluguel é barato. Tudo tão claro.

O apartamento deve estar aberto- conclui Mônica e isso por causa do lixo de hoje, jogado na lixeira do prédio. Foi tanto lixo que algo sobrou: a porta suja e marcada. Ladrões não se incomodam com as portas do Rio de Janeiro, porque sabem que as sujas foram deixadas abertas pelas mãos das esposas recém-casadas.

Mônica se levanta no escuro. Já sabe o caminho. A porta está fechada. Fechada. Trancada com aquela chave em que o chaveiro é um barquinho azul.

Já estamos na primavera do Rio de Janeiro. Isto significa que os maridos estão na rua. Mônica decide retornar a cama, aumentar o volume do rádio e rezar. Toca a canção do “Lobo bobo”. Mônica conclui: ” Ah, minha reza foi tanta que a porta se abriu. É o fim!” O fim entrará sem bater. De que vale esta certeza? Mas Deus perdoará a sua pobre filha que sempre amou os pais, casou por amor, porque o seu noivo parecia um lobo bom, embora depois da tragédia, do roubo seguido de morte, ele venha se casar com outra mulher, mais jovem, dona de chaves mais seguras… e sua primeira esposa se desmanche…nem lembrança, nem canção.

– O que você faz encolhida debaixo dos lençóis? – pergunta o marido.

Mônica responde chorando:

– Eu não me casei pra ficar sozinha neste apartamento! Eu não sou uma porta, bandido!

2 thoughts to “A Antiga Garota de Ipanema”

  1. Obrigado pelo contato Antônio. Respondendo a sua pergunta, conheci algumas mulheres da época, que até moravam no Rio de Janeiro e elas, antes da revolução de costumes dos anos sessenta, pareciam muito cismadas com tudo, dentro de compulsões que iam muito além do trancamento da porta do seu apartamento ou de mágoas com o marido. Então seria isto mesmo que você comentou, o inverso da personagem da música. Talvez o título mais adequado fosse “a verdadeira garota de Ipanema”

    Atenciosamente.
    Paulo Fontenelle de Araujo

  2. Gostei do conto, muito bem escrito. Achei meio surreal, não que isso seja ruim, o final dá margem para múltiplas interpretações. Achei legal ” eu não sou uma porta, bandido”. Só não entendi a relação da Garota de Ipanema com o conto. Seria o inverso da história, ou seja, da personagem da música, solteira, livre, solta, com a outra, presa e magoada com o marido?

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