Estados

 

 

 

 

 

(Itabi – SE)

Seis e meia: pontualmente, a moça de vestido colorido se levantava e colocava para secar o coração afogado nas cordas esticadas sob o céu já claro. Por volta das oito ele já era seguro o suficiente para não causa-la uma hipotermia e, então, a moça de vestido tirado recolocava um coração denso no buraco putrificado e saía. (mais…)

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Prisioneira

 

 

 

 

(Belo Horizonte – MG)

Acho que adormeci. Nem me lembro de como. Tenho a sensação, não a certeza, que acontece frequentemente. Especialmente quando eu começo a me perguntar se existe uma maneira de viver para sempre. Porque que todos, mais cedo ou mais tarde, vamos morrer, para mim não é de conforto nenhum. Deve ser por isso que eu adormeci. Talvez nos sonhos há uma solução. Eu só tenho que me lembrar. (mais…)

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Uma Família

 

 

 

 

(São Paulo – SP)           

O programa religioso que passa na tevê toca a canção “Oração da Família” e repete o refrão:

“Abençoa senhor as famílias, amém! Abençoa senhor, a minha também…”.

Sílvio acha muita graça da canção, pois dali há uma hora, sairá de sua casa. Seu relacionamento com a esposa está aos cacos e agora, de súbito, escuta este hino religioso celebrando a família. É uma ocorrência que supõe: ou Deus não existe ou ele é muito irônico. (mais…)

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A História de Alex, Quer Dizer, César

 

 

 

 

(Maringá-PR)

Tudo começou quando o bebê nasceu e a mãe queria chamá-lo de Alex, mas o danado do pai deu na veneta de registrar o filho no cartório como César. A mãe aceitou, mas por teimosia chamava-o carinhosamente de Alex. O vocativo acabou pegando na família e César ficou com o apelido de Alex durante a infância. Quando seus vizinhos do prédio chamavam “Alex!”, César sabia que era com ele. Alguns amigos do bairro, desavisados, custavam a acreditar: “Quê? Seu nome de verdade é César, Alex?”. (mais…)

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Folhas Caídas Pelo Chão

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

O verão se fora levando com ele seus agradecimentos. Não existia muita simpatia pela estação quente do ano, pelas praias desfrutadas pelas pessoas, pelo sol carregando a noite para mais tarde, pela alegria maior que emana de todos nessa época do ano.

A sua preferência era por um clima mais ameno, tal qual o clima de outono. Sempre teve dificuldade para fazer amizades, por isso passear pelas ruas arborizadas da pequena cidade do interior era sua predileção. (mais…)

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Páginas da Vida – Um Pouco da Vida da Minha Amiga Miquelina

 

 

 

 

(Vieira de Leiria – PT)

A minha amiga Miquelina era ainda jovem e bonita quando a morte lhe entrou em casa. Viera ali para lhe roubar o marido e a pobre senhora ficou viúva sem ter ainda trinta anos.

Durante uns tempos andou por aí á deriva, carpindo as suas mágoas em cada canto, em cada esquina e até onde não devia—assim diziam as más línguas da terra, que as há por aí e bem compridas por sinal. (mais…)

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O Perna de Pau

 

 

 

 

 

Henrique Maximiano Coelho Neto (*1864 Maranhão / +1934 Rio de Janeiro)

 

Já grisalho, alto e magro, olhos miúdos e negros, mas de um brilho estranho, viam-no todas as manhãs passar à porta do colégio com uma grossa e nodosa bengala.

Conheciam-no pelo toc-toc da perna de pau; e logo, chamando-se uns aos outros, corriam todos os meninos às grades, e, quando o inválido passava, rompiam em assuada: — Oh, perneta!

Ele sorria docemente; os seus olhos bravios, de uma expressão feroz, ameigavam-se; e, longe de agastar-se, tirava o seu grande chapéu de abas largas e fazia uma barretada, não sei se para brincar com os pequenos, se para lhes mostrar os cabelos brancos. (mais…)

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