1994

        (Maringá-PR) Certas datas nos marcam para a vida toda. Lembro bem de quando estava na 6ª série e dei meu primeiro beijo. O nome dela era Érica, a menina mais linda da turma. Já andávamos de paquera fazia um tempão, mas nunca tínhamos encontrado um momento a sós para ver o que ia rolar.

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À Deriva

      Horacio Silvestre Quiroga Forteza (Uruguay, 1878 – Argentina, 1937)   O homem pisou algo brando e mole e, em seguida, sentiu a picada no pé. Saltou para frente, e ao se voltar com um palavrão, viu a jararacuçu que se recolhia sobre si mesma; preparava outro ataque. O homem lançou uma rápida olhada a seu pé, de onde duas gotinhas de sangue engrossavam dificultosamente, e então sacou o facão da cintura. A víbora viu a ameaça, e fundiu mais a cabeça no centro mesmo de sua espiral; porém o facão caiu sobre ela, deslocando-lhe as vértebras. O homem abaixou-se para olhar a mordida, limpou as gotinhas de sangue, e durante algum tempo contemplou. Uma dor aguda nascia dos dois pontinhos violeta, e começava a expandir-se por todo o pé. Apressadamente, amarrou o tornozelo com o lenço que trazia amarrado à cintura, e seguiu pela picada até seu rancho. A dor no pé aumentava, e de repente, […]

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As Duas Faces do Amor’al

          (Presidente Prudente – SP)   Até há algum tempo a profissão de contínuo foi muito conhecida, pois era exercida por uma pessoa, de qualquer idade, desde que empregada em um escritório, mais comumente em repartições públicas e que prestava os serviços bancários, de entregas, correios e outras mais atividades essas a que denominamos hoje de office boy. Valdemar, um tipo simpático, franzino, olhos claros e pequenos que lhe davam um semblante maroto, fino nos gestos e muito educado no falar, um verdadeiro bom-de-papo, era um profissional dessa área. Profissional mesmo, pois nunca se atrasava no horário de chegada ao serviço, jamais faltara um dia sequer e extremamente cumpridor de seus deveres no trabalho. Casado há muitos anos, vinte e cinco mais ou menos, com a Divina, esposa dedicada, meiga, poucas palavras e muita afável com quem tinha três filhos, um deles homem. Nada deixava faltar para a família desde que […]

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A Felicidade do Bem-Te-Vi

          (Santo Estevão – BA) Era uma manhã de primavera, o bem-te-vi acordou todo serelepe, batendo asas, abrindo o bico com ar de felicidade, afinal as flores estavam brotando e não faltariam sementes para se alimentar. Todos os dias a alegria batia palmas ali no jardim dos versos, e, por isso, outros passarinhos não repararam que o bem-te-vi estava mais belo, cheio de pose com suas penas brilhosas pelo belo banho de orvalho que havia tomado antes que o Sol resolvesse enxugar a cara das plantas…

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Tourada

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) Era rapazote quando viu pela primeira vez uma tourada televisionada no Campo Pequeno. Os garbosos cavaleiros vestidos com deslumbrantes casacas simbolizavam a nobreza de outros tempos. Figuras primeiras no cartaz, brilhavam com os seus magníficos cavalos, quer enfrentando o touro, quer na apresentação troteando ao compasso da música. Durante a lida do touro como a “sorte” corria a contento, as últimas bandarilhas eram acompanhadas pelos acordes da filarmónica.

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O Homem Que Não Queria Nada

        (Maringá-PR) Naum era uma dessas pessoas que já nascera cansado. Nos primeiros anos de vida deu mostras do quem seria em se tratando de nada fazer. Não quis o peito. Só mamava na mamadeira, e a mãe tinha que segurá-la pois ele descansava as mãos atrás da cabeça e cruzava os pezinhos como um paxá. Demorou a andar, lá para os dois anos. Falar mesmo só aos três. Antes só resmungava e apontava o que queria. Foi respondendo aos poucos. A mãe oferecia: — Quer biscoito de nata, querido? — Biscoito de nada?! — De na-ta! — Ah, não. Então não quero. O pai tentava qualquer esporte para o filho. No judô ele só caía, no futebol nem para gandula o queriam. Tentou a natação. Naum gostava de boiar, não gostava de competir. Os pais torciam por ele mas não adiantava: — Filho! Nada! Nada! Mas ele, nada. Na escola, não […]

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